pensamento do dia: [Querida, não misture literatices com suas memórias sentimentais Assim não se chega a lugar nenhum] esta mulher a me falar de inferno, fogo e abismos ¿Mas não vivemos assim, lacerando-nos docemente? Não, não vivemos assim (...)¿ Cortazar Eu senti tédio quando vi aqueles olhos que um dia me perscrutaram pelo avesso e que hoje, calmamente anunciavam a minha morte, encomendando-a. Querida, quando tiveres de partir em definitivo, molhe meus olhos, derrube azeite quente sobre mim pra que eu saiba desaprender a estrada. A mortalha e os homens, a busca. Tu partistes tão estouvada naquela manhã, abotoando a calça, partindo um pedaço de pão, colocando-o na boca ¿ com raiva ¿ e consultando as horas. Depois mais não soube, das dores. Tive tanto medo, pequena, teus olhos de pretume e lascívia, te vi mergulhada num rito de despedida. Eu imaginava tua imagem se apagando sem medidas, partindo-se em pedaços pequenos, desfazendo algo que outrora havia tido uma cor sem passado. Meu Amor não é brando. Nunca foi, vê? Sê meu pedido, vem. Cabe aqui, no espaço exato, entre tanta ausência. Por enquanto dorme. Tu és minha mais noite ¿ imensa. Quando vieres, acompanha meus homens. O formidável enterro pra quando fores buscar aqueles que se calaram aqueles que já não temem. Meu querido, minha espera Descobri que havia trauma em tua boca ¿ aberta quando fazíamos amor de tarde e por fim tu gritavas entre tantos pedidos e carícias tua boca aberta fazíamos amor como à beira de um tempo que não era esse que agora vigora tua boca ¿ esfera míngua teus pêlos e sinceridade teus olhos teu rosto iluminado perto e rodopiavas já não em dança em transe que me molha em boca à flor de meus anos o tempo que vivo será este quando: enquanto eu não queria te dizer. Porque eu sei, querida, eu sei que o modo como você me conhece e ama e o modo como eu te conheço e amo não se explica nem se contradiz. não se leciona em cambridge nem no estado. e pense bem, não seria desejável ao bem estar que a humanidade que se amasse desse jeito. e é por isso que tenho discussões imaginárias com você a caminho da faculdade. sua voz dizendo que sou mimada e que sei bem quais armas usar e esse jogo de conquista é tão fácil, meu bem, que logo me cansa. um dia ana me perguntou se eu usava as pessoas como aos cigarros, e aquela pergunta ficou na minha cabeça. ana é assim como eu, apaixonada e volátil. agora me canso dessas mercadorias. mudo os canais de tevê, o sol nas bancas de revista. andamos por essa vitrina, tropegamente, e as coisas passam. as crianças japonesas correm atrás de um cachorro de pelúcia, uma loira mostra os peitos falando de sua sensualidade e sutileza, um português pergunta a capital da colômbia e eu transito entre tudo isso impune. é difícil lutar contra a apatia, não é? tantas ofertas. "Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama; Mas acordamos e ele é opaco, Levantamo-nos e ele é alheio, Saímos de casa e ele é a terra inteira." e você me pergunta quando dei pra ele, em que quarto de motel, bebendo qual dose de que pinga ordinária e me diz ¿ você ainda tem os olhos iluminados ¿ que eu continuo a mesma. mas eu tenho aprendido tanto. postado por Maroca 12:44 Fala que eu te escuto: . . .
E eu precisava rir um pouco daqueles homens, rir um pouco do suicídio que Julio, rir um pouco dos olhos escandecentes de Maria, que agora, à porta do banheiro do bar, me passou a língua e os dentes, eu me esquivando, Espera, precisava rir nem tanto por desespero, embora devesse entender que não se tratava de alegria. A menina ficou falando sobre as aulas de marxismo e contou, já meio bêbada, do dia que seu namorado pegou o carro e jogou um martelo no mendigo. À noite você não queira saber no que se transforma o centro. - Pra onde você tá indo? - Eu estou indo. - Mas não tem metrô pra lá. - Eu preciso ir. - Pra onde você tá indo? - Eu preciso encontrar uma saída. De estrada, eu precisava de um hiato - silêncio-, morrer um pouquinho, eu só precisava que a cabeça parasse e de um lugar escuro. Dormir, desaparecer. Parar pra chorar. E você me vinha dançando, soprando grave, tornando música. Eu poderia entrar pelo seu mundo, pela janela de trás e ver as coisas, aquela cidade obscura do seu jeito vadio, com seus olhos vivos demais. - tu vai levar porrada, moleque. E quase nada me importava, eu ainda queria te ouvir as histórias e ainda queria que você cantasse aquela música que eu precisava conhecer, como a vida houvesse parado e pudéssemos deixar às águas. Eu não quero nada, não estou com raiva, estou desconstruída, desarmada, estou deserta dos meus desenhos, dos meus bibelôs, dos meus damascos. Estou sem aqueles arrimos, viagem paga pro Recife, vestido florido. Meu disco do zappa, estou sem nada que me devolva a mim. só cigarros e você agora. Só esta noite principiada, essa aposta. Vai durar pouco, bem como deve ser. Não é? Que será que ele perceberia, quando?, se eu tivesse descido naquela estação? Seus olhos me olhavam com tanto desacato, como eu fosse uma coisinha insignificante, um piolho que agora ele prendia entre as unhas. Depois, na escadaria do metrô, me diz que é café pequeno pra mim, e agora é que são elas, meu bem. Agora é que eu tinha de me decidir, por quanto tempo eu acharia graça daquela situação. Era mesmo bonito o jeito que ele corria no meio da avenida movimentada, o jeito que abraçava qualquer um que soubesse cantar aquele refrão no meio da multidão, o jeito que causava o insólito, que falava com as pessoas. Eu fiquei também emocionada quando entrou na antiga faculdade, falando alto no meio da apresentação, mostrando a carteirinha de estudante pro guarda na entrada. Não faria mal pra ninguém, meu menino. Você virou criança e eu tinha que segurar sua mão pra que não atravessasse na frente dos ônibus, eu tive que arranhar suas costas pra que não me mordesse, eu tive que conseguir um lugar seguro pra que você não tombasse. Tanta delicadeza nos seus movimentos, era uma dança brejeira, maliciosa, um desejo imenso de viver, me parecia. Depois chegar a uma qualquer estação, que não sabíamos qual era, e você dormiria na escadaria. Meus cabelos brancos começam a crescer, um estado de nervos que você não queira saber, uma vontade de te prender entre meus braços, te fazer dormir, te fazer esquecer. Parecia agora tão fragilizado, um personagem de romance, eu nunca vi alguém tão parecido com um personagem, capaz de deixar em suspenso o movimento lógico, de arrebentar paredes, de me erguer nos braços até que chovesse, até que voltasse cheiro de terra e água. Essa vida que espreito, que te habita, esse vento que sopra, menino. Faz-me sentir, faz-me sentir de novo viva. postado por Maroca 14:19 Fala que eu te escuto: . . .