Tupi or not tupi that is the question.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Domingo, Fevereiro 04, 2007
Dos Desabafos



O principal combustível do hip hop é a criatividade, é o seu talento. Então, sempre acredite em você, parceiro. A auto-estima no hip hop é tudo. Você não pode desistir, porque, se você desistir, o rolo compressor passa por cima de você, e já era! E se você está num estado de desespero e fala 'Olha, mano, já era e já foi' e os seus moleques? E a sua família? E os seus sonhos, irmão?
Eu to aqui pra alimentar você, velho, dessa fome de vontade de vencer. Mas não vencer dessa forma que se fala por aí: aparecer na globo, ir pro faustão, ser visto na praça principal, na rua principal da cidade tomando coca-cola, nos mc donalds da vida, pagando à vista o bagulho, não! Eu quero dizer pra você que você tem valor porque você existe, porque você habita este planeta e não foi por acaso. Quem criou a fronteira não fui eu nem você. Quem criou o hino nacional que eu não entendo não fui eu nem você. Periferia é resistência, é a periferia e a favela, porque toda a humildade que paira no povo brasileiro é resistência também.


(Depoimento de GOG extraído do dvd 100% Favela, produzido por Negredo.)


é claro que eu sei que a plaboyzada tem problema de auto-estima. agora, escuta uma coisa. a fita que eu to falando não é pra vender cosmético, entende? "se dê esse presente, você e sua família merecem". um apartamento duplex, melhor qualidade de vida, vista panorâmica, academia, piscina e sauna. distância da bandidagem, tá ligado? maconheiros, travecos, nordestinos. putas e traficantes a gente contrata, mas tudo por baixo dos panos.

eu não to falando de uma guria que se não tiver auto-estima vai engordar dez quilos e não vai passar creme anti-celulite. tô falando de gente que se não se valorizar, começa a cheirar e não pára mais. "é um dois pra cair no crime."
é mais embaixo. eu sei do que tô falando, eu cresci nessa classe média alta, sou fruto dessa merda toda. não é preconceito, não. é aversão mesmo. fico mal quando ando por aqui, evito. me dá náuseas e eu chego em casa querendo me destruir, querendo não levantar mais e achando minha vidinha um filme da sessão da tarde, uma coisa que não tem importância alguma. eu vejo, sim. eu faço puc. de manhã. estudei em colégios particulares. sei bem o que pensam os mais abastados, no geral. também acho preocupante, a quantidade de drogas que consomem, a apatia. a apatia, brother. sabe o que é não ter vontade de fazer nada? não ter nenhum tesão na vida? nada que queiram estudar, conhecer. é sempre de um mundinho pra outro e eles acham realmente que têm crescido tirando diploma e carta de motorista, indo às vezes pro litoral surfar. tá tudo muito bom, tá tudo muito bem.
desse mundo que eu defendo e idealizo, não conheço nada. conheço de ler, de comprar revista, de ver filme. eu sou pela janela do carro, ainda. consumo essa cultura, sabe? dia desses eu passei pelo shopping e vi uns bonecos de manos. a malandragem virou questão de estética.
eu não tenho por quê ter medo de polícia. eu comprei essa raiva e olhar enviesado porque lia muito caros amigos. mas posso andar com cinqüenta gramas no bolso, de chinelo e bermuda. vai ser difícil me parar. nunca tomei geral, nem suo frio. tenho até de confessar que um dia me senti segura quando vi um gambé.
eu comprei tudo isso, brother. e mesmo esse discurso comuninha, essas frases do bretch, eu tenho vergonha dessa postura esquerdinha benedito calixto. é tão clean, não é? mas é o mais sincero de mim. esse discurso besta, essa vontade de conhecer a américa latina e estudar antropologia. eu acredito mesmo nisso e ultimamente tenho crido que esses devaneios podem interferir em alguma coisa.
eu não sou malaca, eu ponho mão em cumbuca. sou toda desajeitada e tímida, não tenho lábia, pago o preço que feirante propõe, não sei me virar, não sei barganhar, não tenho traquejo. é ridículo.
eu vivo ainda presa a esse mundo. gosto de restaurante natural, compro damasco e alface no pão de açúcar, vou às vezes almoçar num sushi. e esse mundo que execro, que nas minhas fases mais a-burguesia-fede penso em jogar coquetel molotov nos Templos do Consumismo - usando esse jargão babaca mesmo - é o mundo de onde provenho, que me permite gastar cem reais na livraria cultura e comprar discos de rap pelo submarino. eu gosto de bianchi e buñuel e entendo glauber quando ele disse que não lhe interessava a cultura burguesa, mesmo quando genial. dostoiévski não lhe importava, nem shakespeare.
(embora seja bom lembrar que marx conseguiu escrever o capital porque tinha quem o mantivesse). todas essas crises que os playboys têm - e nem desconfiam - eu também tenho. também sou consumista, apática, compulsiva. tenho vinte e dois anos e nunca precisei trabalhar. minha mãe compra alimentos orgânicos, assina vida simples. toda essa fita de respirar fundo, imaginar um lago plácido, sentir o ar entrar pelos pulmões e o sangue correr pelas veias e artérias, a vida é um milagre, tudo isso não me convence, me enoja.
e olha, eu acredito que a vida seja um milagre mesmo. o discurso derrotista também já não cabe na minha boca. eu quero acreditar na dança, eu acredito na cidadania, eu tenho tesão em viver e agora quero que seja diferente. quero fazer diferente, entende? conseguir construir algo com tudo o que tive e tenho. fazer melhor. não quero mais me destruir, apenas ficar chorando e resmungando, até quando? agora eu quero ser ativa, irmão.


. . .
Sábado, Fevereiro 03, 2007
hoje eu vi na calçada um cara de bermuda, perna mecânica, calçando adidas e me lembrei de você. leo adoraria tirar uma foto do cara, eu pensei. lembrei da sua exposição no sesc bertioga, a piveta enrolada na bandeira da coca-cola debaixo da marquise, o vendedor de bob esponja e alho com a camiseta do cesar maia, o mendigo debaixo do telão com o ícone da globo. você adorava essas coisas, pareciam o símbolo maior da miséria, a ironia trágica do terceiro mundo. eu pensei em todas essas coisas nebulosas andando de bicicleta no ibirapuera e ouvindo racionais - passear no parque - exatamente naquela hora do dia em que as senhoras dos arredores aproveitam, porque as donas de casa ainda estão com os pivetes no segundo busão pra aproveitar o sábado empinando pipa.

e tudo foram imagens, meu velho, coisas que eu não consigo esquecer. porque todas essas sombras me aterrorizam e olha que agora as coisas andam bem, eu parei de beber daquele jeito, acordo cantando macalé e mesmo quando canto com o vidrinho de desodorante e a porta do quarto fechada aqueles sambas tristes, não tenho conseguido forjar melancolia. a alegria apavorou-se dentro de mim e lembro de tu me dizendo - brincando, mas tu dizias muito - que aquele meu deslumbre era péssimo para a arte, a Senhora Imperiosa que exigia seriedade e compromisso. eu sempre quis te dizer que esse seu sentimento de fracasso não faria - como não fez - de você alguém melhor nem tornaria sua arte mais verdadeira ou eficiente. sabe essa imagem que acalentamos, lendo caio fernando ou bukowski, introjetando esse arquétipo do artista fodido, que se pica, não tem grana pra pagar aluguel, fuma dois maços por dia e morre de aids, completamente ignorado num apartamento na são joão? eu não tenho sentido as coisas assim. alguém permanentemente deprimido não consegue levantar da cama, quanto menos criar algo verdadeiramente potente e revolucionário. meu irmão me disse uma fita assim naquela época em que eu afundei e não conseguia nem tomar banho.

são conversas assim as que tenho tido com você algumas noites, quando não consigo dormir, às vezes excitada demais. tenho querido estudar, tenho estado mais inteira, meu bem. o desejo desapareceu, hoje não penso em ti como homem, e devo ser sincera dizendo que ultimamente tenho náuseas se penso em trepar.

quero um dia ser velha pra talvez conseguir olhar pras pessoas sem malícia e ouvir melhor a cor dos passarinhos* e sorrir para as meninas de vestido colorido e só ver a sensualidade do rio que corre e me arranca. eu queria era nunca mais voltar.

(*) com a licença certamente concedida da neta de manoel de barros.


. . .



Sérgio Castro
. . .
Palavras e Imagens

Fernanda-Irmã
Cotovelares
Misson, O Cara
Jordani Sou Eu
Castilho
Cat, A Mina
Leo Caobelli, O Iluminado
Phasmo, o Fantasminha
Ed, o Coelho Branco
Fernanda, a Imersa
Cris, o Furioso
Yane, O Monstro
Daniela, O Mito
Vitor, o Freire
Arara, a Teresa
Filipe, o Displicente
Coletivo

Tom e Vinicius - por Biagio Di Carlo
Lugares Bacanudos

Silvio Mieli
Na Orelha
O Dilúvio
Memória Viva
Vozes do Brasil
Mercado de Pulgas

... Flávio encara Marco, seu colega que fora acusado de furto no trabalho...