Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Quarta-feira, Novembro 29, 2006
Dá-me cobras. Não posso juntar espectros. Trago luzes, senhores. Vejam-me como eram vistas as noites sem lâmpadas. Tenho tanta sede e insetos, são tempos secos de estrelas. Estrado: fui aturdida e perdi-me na imundice dos que erram, desentendidos. Enlouqueci. Botaram-me nas amarras do desemprego e das paredes pálidas. Sem som: havia uma janela que dava pra um muro. Eu pratiquei desterro, eu engoli moedas, fiquei doida de desvario. Caguei em cima do santo, peguei minha mulher num bacanal.

(Nesta hora, Lígia entra em círculos)

num-bacanal-num-bacanal-num-bacanal-a-casa-cheia-de-merda-e-putaria. Essa juventude cigarrinho na boca enchendo o rabo de cachaça peguei a mulher no bacanal, meu filho.


E eu to pouco me fodendo se ninguém quer saber que me fodi muito, pago o aluguel de cento e oitenta reais todo mês e nem pensão e nem aposentadoria que paguei a merda da minha vida inteira, todinha, a merda dos impostos e ser palhaça do governo enchendo o cu de dinheiro

Eu sonhava com jesus cristo bem branquinho, de sangue escorrendo, sonhava com ele gemendo e se aproximando de mim gemendo e o gemido não era mais de dor, não era mais de dor. Eu era pequena e circunflexa, Maria bêbada de velhice, envenenada de Igreja batia na minha mão e na minha perna porque eu disse que jesus era mais bonito e mais branco que eu imaginava.

- Jesus era preto

o pai chegou a dizer. era pretinho-de-retinto, ele viu num filme Jesus num trono e eu imaginei meu deus me ninando e me beijando a boca, só de um amor de contas e quimeras.

Dá-me cobras, senhores, eu já posso morrer de enfermidades adoláceas, soube sobreviver na linha do abismo, plantei árvores no caos, tive filhos carnívoros.
O peito preto de Maria vinha à minha boca em sonhos, como um dia havia sido: eu sugava suas amnésias e leite, leite. Branco, o leite branco, o peito preto.

Dá-me cobras, Maria. E alguns sonhos. Agora eu já posso sonhar.


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Sábado, Novembro 25, 2006
Ele - olhos pequenos, mãos trêmulas, dizia, rindo enquanto falava que tinha Parkinson, não era muito engraçado, as pessoas riam nervosamente, talvez se lembrando de um tio ou avó que degeneravam-se -, a pele muito preta, comia botando a comida no garfo, falando e fumando, lambendo os beiços porque talvez amanhã já não houvesse prato pronto e não era sempre que Dora conseguia feijão com arroz de graça no boteco que cobrava seis contos e ainda vinha com cabelo. Um dia, ele ria enquanto falava, achou até pentelho.

Ela - repara na roupa que as pessoas vestem, eu gosto das suas saias compridas, me disse um dia, indecente. A Obscena Senhora D. Não usa nome, não usa. Tem o cabelo rapado, cicatriz na cabeça, dá pra ver. Fez como? Não conta. A obscena senhora. Sai correndo em volta dos carros e levanta a blusa, mostrando os peitos, cicatriz no ventre.

Pediu uma banana pra mulher que passava, jogou no prato do homem que comia, falando e fumando, lambendo os beiços, porque amanhã ninguém sabe, amanhã ninguém viu. Assobiava uma música, já ouviu que música mais maravilhosa? Eu não falo muito bem inglês, mas vou cantar ela pra você, pra você eu canto, fecha os olhos.

- A loirinha passando, que coisa mais linda essa loirinha. É loira metida, é vagabunda, loira burra, ô loira burra.

As pessoas do ponto - olham a obscena senhora D. Tem medo e se atropelam, com os olhos envenenados e tardios. Ela se lança sobre mim, os infernos astrais.

- Tem um cigarro?

Acendo. Ela me toma da mão e ajoelha, até que meus olhos fiquem na altura dos seus. Estão bêbados, e as mãos tremem, me olha, eu sei que me examina e pensa que sou uma menina que tem algum dinheiro, porque pego ônibus, porque pago ônibus e estou voltando de algum lugar - e hoje em dia, meu amigo, ter lugar de onde se voltar é sinal de que as coisas estão em rumo devido -, mas eu lhe acendo um cigarro e talvez lhe pagasse uma dose de pinga. Será que ela sabe, assim, me olhando por dentro, que eu daria muito do que fui pra ouvir quantas histórias ela tem? Quantas mortes desfez? Quantos séculos terá? De Brasis, de quais brasis esta mulher será? Ela me devora. Saberá que apesar dos pudores que herdei da minha condição, das boas maneiras fatalmente adquiridas, das coisas de que sinto falta e ardo: é tarde, que desde que nasci, é- definitivamente- tarde?

A obscena senhora D - ela sabe São Paulo que anoitece, sabe quantas cidades são permanentemente noite, quando volto pra casa, revogo e durmo o sono dos justos. Ela já deu pro carroceiro e me encara sem curiosidade e talvez sem respeito algum, divertindo-se muito, porque esqueceu do passado, teve três filhos e quatro abortos e já teve pai. Ela inventou um pai numa noite sem lua e sem deus, e inventou uma infância, enquanto delirava comendo algo que encontrou rasgando um saco de lixo.


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Sábado, Novembro 18, 2006
Viver sem Fronteiras

- Se o Tim Maia fosse vivo, que marca de qual marca de celular ele faria propaganda?
- Oi?


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Domingo, Novembro 05, 2006
Eu começo recomeçando. Porque bebo tantas águas e não verto sangue nem sóis. As coisas em mim se engendram, se acidentam, e não edificam, vão destruindo meticulosamente todas as coisas: tudo que ouso só serve em mim pra ser válvula, tudo que uso só serve em mim pra ser ao avesso. Nada tende ao abismo, nada encontra caminho, só muralha. Meus olhos, olhos. Sou algo que só aceita verificações, ela põe a mão na minha virilha e lambe minha orelha, derrama vinho tinto na minha blusa, pedindo desculpas com uma sensualidade cínica. É isso que me fode, querida, eu não sei por onde as coisas começam, eu recomeço: mas não sei reagir.
Não sei reagir, eu expecto as barbáries, as frases mais alucinadas e me recolho no canto da sala. Isso vai me derramando pelo chão, eu escôo. Eu abro a porta e saio sem bater. Queria dançar na frente, em transe, com uma espada, tentando minha própria vida, sem querer violentar ninguém, só mostrando que isso que eles têm como seu é uma farsa que não tem gosto de nada.


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Sérgio Castro
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Palavras e Imagens

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... Flávio encara Marco, seu colega que fora acusado de furto no trabalho...