Tupi or not tupi that is the question.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Domingo, Julho 30, 2006
Faz quase um ano, publiquei isso no Bagatelas! Lembrei que nunca tinha postado aqui. Resolvi.

Não fora o primeiro. Nem havia tantos. Havia espanto, porque ali, afastado das gentes, ele era. Em volta da pitangueira no quintal desenhou a giz. O trilho. Titipopó-titipopó. O pião afundava nos sulcos na terra do tempo, bem além: onde toma impulso. Maria vai, Rosa vem; passa terra, come espaço, corre pasto, cobre guerra, ali-além, passa boi, passa boiada (café-com-pão, café-com-pão), passa minha namorada. Era ela. Quem me dera!

- Almoço, Pedrinho!

Pedrinho não vinha, almoço não tem, o filho não vem, "não veio a utopia e tudo mofou", menino fugiu esperando trem que já vem, que não vem, que já vem, que não vem.

Dois quilos de arroz, duzentos gramas de carne moída, um pacote de sabão de coco. Anota, Pedrinho.

- Anoto não, cabeça minha é mais melhor que papel.

Pedro voltava, pé descalço, desenhando na argila da noite, lua minguando na voz do vento. Trilhos vinham num de-correr. O trem era ele. Vinha: alumiando a rua, azeite pingando no candeeiro de deus para dia morrer mais não.
Mas chega um quando que a lua pesa, pesa, não dá mais pra carregar a noite grávida no bojo da Terra. Daí é: os homens desmadrugam pra buscar peixe.

-Tem trem pr'aqueles lados não, moleque. Ali é só pra levar café e laranja. Menino assim não entra.
-Nem se for hominho?
-Só se for hominho.

E daí Pedrinho queria porque precisava ser maquinista. Comprou boné vermelho. Mas ainda faltava: tempo. Quinhão de arroz-com-feijão, cansaço, fundura de olho e estrada, quinhão de fracasso, alguma melancolia que todo homem que se pretende Homem precisa.

- Vai envelhecer, Pedrinho.

Ganhou barba. De tanto noite-dia, ganhou Maria. Embevecido, esqueceu do trem. Não queria maquinista, precisava revirar a carne ao contrário, fazer flor nascer do lodo. Comprou vestido. Foi corrompido: nos olhos de Maria tinha lenda; os olhos dela venda! Venda com gaze pra eu ter noite de sono. Noite emenda. Pai, me dá ela de prenda por castigo que passo, Venda! Venda os olhos de Maria, fura os olhos de Maria, come os olhos de Maria!

Ela tava indo, cidade vizinha, quatorze horas de trem, trezentos olhos querem meu bem, cinco anos que ela não vem. Pedro ali, dentro das horas, nos trilhos da ferrovia, espera, espera, espera. Que o trem não venha nunca mais.


. . .



Sérgio Castro
. . .
Palavras e Imagens

Fernanda-Irmã
Cotovelares
Misson, O Cara
Jordani Sou Eu
Castilho
Cat, A Mina
Leo Caobelli, O Iluminado
Phasmo, o Fantasminha
Ed, o Coelho Branco
Fernanda, a Imersa
Cris, o Furioso
Yane, O Monstro
Daniela, O Mito
Vitor, o Freire
Arara, a Teresa
Filipe, o Displicente
Coletivo

Tom e Vinicius - por Biagio Di Carlo
Lugares Bacanudos

Silvio Mieli
Na Orelha
O Dilúvio
Memória Viva
Vozes do Brasil
Mercado de Pulgas

... Flávio encara Marco, seu colega que fora acusado de furto no trabalho...