Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Quinta-feira, Junho 29, 2006
- ela até hoje não sabe das coisas ela esquece os nomes ela

Ela de nomes farta, desinventou-os. Descrente de que as coisas existiam porque precisavam chamar-se. (Se tu fazes um nome falecer, que cheiro fica na ponta de teus dedos?) Um rio não sabe que nome tem e, no entanto: corre. Isso não é idéia minha, Caeiro disse tão antes e mesmo Irene que não era conhecedora de poetas nem de causas - não buscava qualquer espécie de subversão, não ambicionava manifestos nem coisa alguma: apenas de nomes farta, desinventou-os.
Aos poucos, perdidos todos os nomes - jogados com as migalhas de pão que restavam na toalha branca, esquecidos pelas reentrâncias do sofá, esfarinhados pelas rodas da bicicleta de Pedrinho -, foi-se esquecendo da ciência, da consciência e em trapos perambulava pelas avenidas havidas em seu quarto que tornar-se-ia mundo. Achavam-na tão desvinculada de sanidades, tão precisada dos hábitos esmerados pela Santíssima Família, de tudo aquilo que nos exigem se desejamos simular o que nos disseram ser o Homem: tencionar conversas agradáveis, manter escovados os dentes e os cabelos e, já que não nos pode ser exigido que não sejamos perversos, que não queiramos, num acesso, metralhar a família que se debruça em amenidades, que enquanto toma café com chantilly tece comentários sobre a vizinha que voltou do bingo às sete da manhã, que ao menos varramos todas as mutilações, gangrenas no caráter, todos os surtos de agressiva felicidade para debaixo da pele.

"Não deu tempo
Eu estava tomando claridade e luz
Quando a luz apagou
A claridade apagou
Tudo ficou nas trevas
Na madrugada mundial
Sem luz"

Houve até, anos antes, alguns familiares que possibilitaram mandar Irene para uma casa boa, onde ela tomaria pílulas vermelhas e azuis que a fariam dormir e reatar com os homens. Lá haveria outros de cabeça branca, haveria mulheres ambicionando especializar-se em geriatria, meninas de vestido que dariam o tempo livre para ouvir-lhe as histórias prodigiosas sobre o irmão morto em guerra, os filhos que lhe roubavam a aposentadoria, seus pesadelos e ruínas, será bom como cheiro de café, Irene, nós a visitaremos, traremos chocolates e frutas frescas todo domingo.
Ela de nomes farta; quais pílulas, o marido, a invenção do cinema, a roda-gigante, o cheiro de fumaça e gasolina desprendido das calçadas, ela ainda se lembra dos bondes, quando menina todas ruas eram de barro, tinha um boneco de nome Pedro Botelho, Irene já não sabe que se chama Irene e, no entanto: corre.



Agora vê fantásticos peixes nadando na superfície respirável, a andorinha adentrando na carne tenra do firmamento, fez-se em Irene um lambari furioso, a manteiga posta na mesa era um pacu lerdo e gordo.
Deu que um dia, devoradora de eternidades, julgou ser a hora de buscar as coisas postas em desuso: todos os esquecimentos do mundo guardaria consigo. Padeceu de obsessões pelo que ia nos sacos pretos: cinzeiros de latão, espelhos quebrados, negativos de película, sementes de frutas, canetas gastas, botas envelhecidas; identificava-se tanto com o maldito excremento dos homens - muito mais do que com os homens -, com os redemoinhos, as flores mirradas, tudo o que um dia fora iluminado e viçoso, mas já não era.
Um dia, tia Diná fora jogar uma bacia sanitária antiga usada amarelecida. Irene fez que não deixou. Via por dentro suas tainhas, traíras, trilhas, seus mandarins, ruivacos e, no fundo, um imenso deserto. Os peixes nadavam no deserto. Precisou enterrar a bacia de flores, liberdades que dariam aos peixes um sol vivo. Deixou o vaso no jardim.
Foi a primeira obra de Irene da Rocha Machado, 94 anos, falecida em um dia sem vento, um mês de flores secas, quando dezenas de peixes foram encontrados mortos na encosta do mar.


Créditos:
o poema citado é de Stela do Patrocínio e a fotografia, de Leo Caobelli.


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Segunda-feira, Junho 12, 2006
Que tu fostes das idéias que arrebentaram meus dedos. Tu fostes fogo convulsionado. De maioria, as pessoas me foram virtualidades, massa hipotética, requinte de insaciáveis. "Ah, como eu queria botar tua cabeça em meu colo e passar os dedos num rito de prece. Como eu queria não precisar de palavras". Tudo invencionices, abstrações, a gente sempre a colocar o desejo onde o olho não chega. Na idéia do vento que pode roçar na pele tua, na pele tua que meus miseráveis dedos não alcançam.

Estragando distâncias, tu fostes a que não virou pó, que tornou-se pólen, que fecundou-me de asas marias e trepadeiras, rosas multívocas, que colheu meus olhos e ofertou-os a um demônio.

Os outros, de realidades fartas. Um dia, encontrei esse menino e dançamos ciranda no centro de Recife, bebemos cana com coca-cola num bar cheio de gente estranha. Aquele homem de barba espessa levantou-me pela cintura e deu-me muitos tecidos e feriu meu dedo num pacto de eternidade suposta. A menina que busquei na rodoviária tinha loções e um livro de ópera na mochila.

- Eu semeei algumas estórias.

Mas com um ineditismo assombroso, tu viestes. Estávamos num ônibus, cortando uma avenida cinza numa tarde cinza, quando eu percebi. Suspendi os pés na barra de aço e atei minhas mãos nas tuas. Começamos a cantar aquela música que diz que já tive mil homens que me amaram e eu senti aquela espécie de dor que nem era, eu mergulhei meu rosto na luz. Ou teria sido no dia em que compramos rúcula, em que roubamos livros? Na manhã em que fomos passear na cidade, ainda nem dormidas, e chovia. Desde aquela manhã chuvosa, meu Amor, desde que dormimos na calçada de uma rua mal-iluminada com aquele seu amigo esquisito que tentava me ensinar a vomitar. Teria sido - ainda antes - quando tu quebrastes aquela garrafa de vinho dentro da noite e falavas de tantas coisas desconexas e pesarosas e batia na própria cabeça e não por um sentimento maternal, mas por um instinto de um bicho quando reconhece o outro: eu enxerguei Vida, uma absoluta Vida que luziria. Tu trazias a luminosidade verdadeira - a que eu reconhecia. Não de camélias de biotônicos de uma felicidade de sessão da tarde. A luz profunda conhecedora de breus, de zonas abissais.

(Em geral, consideram-se "águas profundas" aquelas onde já não penetra a luz, mas a zona abissal para os oceanógrafos começa no fundo do talude continental, no que é considerado como o limite dos continentes. Esta zona é formada por planícies abissais, fossas abissais e canhões, mas nela se encontram montes submarinos que podem atingir a profundidade da zona eufótica.
O oceano tem uma profundidade média de cerca de 5 km, o que significa que esta zona é muito extensa. A pressão hidrostática aumenta em uma atmosfera a cada 10 metros de profundidade, o que torna o estudo muito difícil, sendo necessário o uso de batiscafos, submarinos protegidos especialmente para pressões elevadas.
O ponto mais profundo dos oceanos foi encontrado na
Fossa das Marianas, a leste do arquipélago das Filipinas no Oceano Pacífico, com 10.924 m.
A estas profundidades, para além da pressão elevada, não penetra a luz e, por isso, não pode haver fotossíntese. No entanto, existem muitos animais adaptados a estes fundos, como crustáceos, pepinos-do-mar, anêmonas, esponjas, moluscos gastrópodes de conchas frágeis, tunicados, sipunculídeos, ofiúros, estrelas-do-mar e peixes de cores escuras, cegos ou com luz própria.)

Eu imagino os peixes numa espécie de letargia, os olhos em esbugalho, mergulhados numa semi-consciência como na água negra, quase petrolina. De órgãos luminosos. Quem quer saber de abismos, tem de ter asas, quem em funduras submerso, há de doutorar em luzes, em projetos para amanhecimentos, há de saber, meu Amor, com quantas escadas eu alcanço tua profundeza.
Superfície diáfana, sol derramado, jardim suspenso. Amor meu, Amor meu. Faz chover aqui dentro. Desaparece com esses nomes, eu fecho os olhos, vou à parede contar até cem e tu, por favor, entrega-me a cidade de sobreviventes de ruínas.

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"Muitas vezes me perguntei por que gosto de escrever (à mão, claro), a tal ponto que em muitas ocasiões o esforço tantas vezes ingrato do trabalho intelectual é resgatado, a meu ver, pelo prazer de ter diante de mim (assim como a mesa do artesão) uma bela folha de papel e uma boa caneta: ao mesmo tempo que reflito no que devo escrever (é o que acontece neste exato momento), sinto minha mão agir, virar, ligar, mergulhar, levantar-se e freqüentemente, no ato das correções, rasurar ou estilhaçar a linha, aumentar o espaço até a margem, construindo assim, a partir de traços miúdos e aparentemente funcionais (as letras), um espaço que é simplesmente o espaço da arte: sou artista, não no sentido de figurar um objeto, porém mais fundamentalmente porque na escrita meu corpo goza ao traçar, incisar ritmicamente uma superfície virgem (sendo o virgem o infinitamente possível)".

Barthes.


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Sérgio Castro
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... Flávio encara Marco, seu colega que fora acusado de furto no trabalho...