|
Tupi or not tupi that is the question.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”
|
Domingo, Maio 28, 2006
O Jordani me mostrou. Achei fodástico.
Zoológico Humano
(Alex Polari)
O que somos
é algo distante
do que fomos
ou pensamos ser.
Veja o mundo:
ele se move
sem nossa interferência
veja a vida:
ela prossegue
sem nossa licença
veja sua amiga:
ela se comove
por outros corpos
que não o seu.
Somos simplesmente
o que é mais fácil ser:
lembrança
sentimento fóssil
referência ética
apenas um belo ornamento
para a consciência dos outros.
A quem interessar possa:
Estamos abertos à visitação pública
sábados e domingos
das 8 às 17 horas.
Favor não jogar amendoim.
. . .
Sexta-feira, Maio 26, 2006
Descontem: eu escrevi no meio da aula. O tema é recorrente, pisoteado, não me abandona. Sempre padeci de obsessões. Talvez elas sejam minha matéria, mais que a carne, a sandice, as palavras.
à primeira vista, parece-me vulgar dizer assim que as coisas foram modificando. é tudo gota por tempo, engendrosamente. primeiro, eu perdi um gato. deu que não voltou, fumaceado. poucos dias depois, o cordão vermelho que meu pai me dera arrebentou. fiquei com o fio branco nas mãos e as miçangas todas caíram. seria a sanidade suspensa? eu, de nunca supertições muito trajada, calei a boca em todas as horas sagradas de sagradas refeições, bebi quatro copos d'água fervida com jasmim antes de dormir, comprei vela de sete dias. cabeça de galo, pensei em cortar, enterrar ao pé da mangueira, lua crescendo.
sei que vim de saia branca, rodada, chegou Jurumim de perna sangrada, ele chorando. disse: Maria, me ensina reza, eu preciso de dor expurgada.
eu não sabia. eu não aprendi de vidas consertadas; por esse vazio, soube mais de desterro, de enfiar flecha em coração num bate-não-bate. conheci a maneira de outras liberdades.
e cachaça.
vem-me, Jurumim, te desamaldiçôo de madrugueiras envenenadas a se perder por dentro. no ventre de menino, era noite putrefeita e então eu penso: para que salvar uma vida manca de saúdes? a flor já preta, pra que não se mata por em todo, para deixar o sofrer perdurado?
tinha uma semente de luminosidade. boto arruda, tranço os cabelos amarfanhados de tempos pequenos. menininho. deixa que te arraste esse dia, querendo porque precisando chegar. eu desato a língua pela sua pele morena, os olhos de sol do meio-dia, quero perder todas minhas letras no teu por-dentro.
"Lá onde há o perigo, também cresce o que salva."
Hölderlin
deixa crescer a daninha erva, vá. deixa que arrebente tuas roseiras podadas, tuas plantas construídas com tesouras de gente e formas simétricas.
na angústia barulhenta de escurecimento, na perna de sangue antigo, no ventre engendrando infernos: pode haver a mais poderosa luz. bola de fogo, estrela de carvão: são a primeva dança. porque são estrelas já decaídas, profundas conhecedoras de funduras, de merdas. o rio só é limpo porque lima pedras, asa teu pássaro violento, dá aos corvos a carniça da ira, se de voracidades, Jurumim, só houver o breu.
depois também devora sóis, engole pássaros fantásticos, sê cru, menininho e alimenta valas.
- sobrevivêramos?
não extirpo tua dor, tampouco tua perna; não te quero sem memória: ela constrói caminhos. te suja do barro da própria estrada, torna os cabelos duros de lama, os olhos fundos de malditas visões. finalmente ascende.
vá, Jurumim, arranca as pernas e voa.
. . .
Segunda-feira, Maio 22, 2006
Meu coração deu com o teu
Margarida eu vou chorar
e se eu mandar esse título de aspirante a escrevente jurídica pós-tudo à merda? e se eu tentar esquecer, meu deus.
das vivências estúpidas encardidas cardíacas, as palavras continuam me habitando, desorganizadas e caquéticas. pra que esse tanto de adjetivo, esse enflorecimento, essa mesquinharia. Cabral, baixa com teus rios severinos teu recife de cólera sobre meus ossos e me ensina a parar com essas coisas. me ensina a escrever como falam os moços que vendiam peixe no cais de santa rita.
meu deus, me dá paz do verbo. me deserda de verso. esconjura, vade retro, meu pai, meu pai.
me ensina a esquecer, me leva pro seu sertão, joão, onde as palavras são as coisas, moram nas coisas, são os olhos. não precisamos ficar apontando. não quero falar sobre as coisas, eu quero tocar.
me ensina a despretender. sempre esse afã, essa pressa, esse querer-fazer-apontamentos-geniais-sobre-essas-leituras-que-falam-sobre-o-mundo, mas não vivem. superfície absurda, esse tanto de água nessa ilha de homens. essa guerra. esse espasmo. o galo já cantou três vezes.
volta, maria, me acorda desses dias. me ensina a amar como amavam as mulheres das docas dos diques, que esperavam perfumadas pela maresia. me ensina a amar.
esse meu jeito de olhar pras pessoas, tu entendes? é anterior a isso tudo. a palavra inventou meu mundo. tenho de perder esse sapato. me ensina a dançar, maria. me ensina a mariar.
quando o sol bate na escadaria e as meninas me sorriem cheias de desânimo tão mal-amanhecidas. um copo de café, maria. dá-me mais vinho que a vida é nada.
. . .
|
Sérgio Castro
. . .
Palavras e Imagens
Fernanda-Irmã
Cotovelares
Misson, O Cara
Jordani Sou Eu
Castilho
Cat, A Mina
Leo Caobelli, O Iluminado
Phasmo, o Fantasminha
Ed, o Coelho Branco
Fernanda, a Imersa
Cris, o Furioso
Yane, O Monstro
Daniela, O Mito
Vitor, o Freire
Arara, a Teresa
Filipe, o Displicente
Coletivo
Lugares Bacanudos
Silvio Mieli
Na Orelha
O Dilúvio
Memória Viva
Vozes do Brasil
Mercado de Pulgas
|
|