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Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”
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Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006
TergiVersando
(Frase incidental: apesar da angústia e da insônia).
À Bruna e Patricia, minhas companheiras de Bar
01. Cardápio
Sanduíches-iches:
Misto-quente.................................................R$ tanto
Queijo com banana........................................R$ quanto
- Moça, dá pra fazer um queijo-quente?
Ela fica me observando com os olhos interrogativos.
- O sanduíche! - Bruna tenta me ajudar.
- É só tirar o presunto do misto.
- Ih, menina. Não dá não - coçando a cabeça com a caneta - Você não prefere um queijo com banana sem banana?
02. A Poeticidade e a Infâmia não me abandonam ou Mariana, o mundo não é um jogo de palavras
- Minha vida acadêmica é um fiasco. Minha verdadeira eSkola foi a Skol.
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Terça-feira, Fevereiro 21, 2006
À Pedidos
Assistindo tevê e falando ao telefone.
- Eu te Amo.
- Me too.
- Não, é U2.
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Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006
É Verdade. A maior angústia do homem é a luta pelo pão. O resto é punhetagem. Vou começar a hierarquizar os que podem sofrer. E, como disse Pedro, segundo o IBGE, eu tô até liberada pra sentir um pouco de culpa.
E é fato também: angustia, pessimismo, depressão, tristeza profunda, estado permanente de melancolia são realidades ultrapassadas. Qual sociedade psicotizante o quê? Esse é um tempo muito bem resolvido, todas as pessoas que me cercam são equilibradas e felicíssimas.
Ah, os covardes. Quantos degraus me faltam pra chegar à Verdade?
Comida (Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Brito)
Bebida é água.
Comida é pasto.
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte.
A gente não quer só comida,
A gente quer saída para qualquer parte.
A gente não quer só comida,
A gente quer bebida, diversão, balé.
A gente não quer só comida,
A gente quer a vida como a vida quer.
Bebida é água.
Comida é pasto.
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comer
A gente quer comer e quer fazer amor.
A gente não quer só comer,
A gente quer prazer pra aliviar a dor.
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer dinheiro e felicidade.
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer inteiro e não pela metade.
Bebida é água.
Comida é pasto.
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
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Das coisas que não esqueço.
Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras.
Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada na garganta.
(Eduardo Galeano)
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Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006
Que a minha terapeuta não acesse esse espaço, mas ainda concordo com Vitor Freire:
"Eu tenho um compromisso formal com a dor".
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Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006
Hoje estava com a Fê rerevendo o Nelson Freire (dirigido por João Moreira Salles, 2003). Me emociona tanto o filme que precisei copiar um trecho, o capítulo 19, intitulado "Homenagem a Nise Obino". Transcrevi a fala dele e, entre aspas, a carta que ela lhe escreveu. Eis.
Homenagem a Nise Obino
Tinha sete anos, seis. Já estávamos aqui no Rio há dois anos e meus pais já estavam pensando até em voltar pra Minas porque "O Prodígio" tava acabando, já tinha dado o que tinha de dar, depois de ter passado por vários professores no Rio e com nenhum deu certo. Porque eu não conseguia... não havia Amor, tinha de haver essa coisa pra eu funcionar. Sempre foi assim comigo. E assim com a música, quando eu vou tocar uma obra nova, eu preciso estar apaixonado por aquela obra. Aí, tudo funciona, se não há isso, eu viro uma topeira.
Eu era um pouco diferente de todo mundo. Quando eu conheci a Nise Obino, minha primeira professora, eu era muito tímido; ainda sou, mas na época, mais ainda. E ela não, ela era uma pessoa exuberante, bonita. Eu me lembro a primeira vez que ela foi lá em casa, nós morávamos num apartamento na rua Redentor, eu tava na varanda, e ela desceu de um táxi preto, fumando, desquitada e chegou em casa falando de política, posições, escandalizando a família mineira em todos sentidos. Eu fiquei fascinado. E houve uma paixão. Não foi uma relação só de aluno-professor, foi uma relação de Amor, sobretudo. Inclusive há uma pequena carta que ela me escreveu, que ela fala desse primeiro encontro nosso.
"Nelson,
Descobri hoje que te amei desde aquele dia, logo que chegaste ao Rio, em casa da Amelinha. Foi assim: quisera naquele tempo em que só quando fazia música o mundo era bom. Tocar, palco, palma, o resto era bem o resto.
Certo dia te conheci, pinguinho de gente, nem real nem criança nem bichinho nem pessoa. De pé, na frente um enorme piano e correndo as mãozinhas tão pequenas, que nem os dedos apareciam com a velocidade dos movimentos. Era tão cômico, era tão comovente e era tão diferente. Era qualquer coisa fora desse mundo. Não dava para classificar de feio ou bonito. Nesse momento, vendo bem tudo aquilo, eu lembro que te amei porque disse para mim mesma: 'Que bom, ele já tem o seu mundo. Também para ele, o resto será o resto'.
Novembro, 1973.
Nise."
Já não está mais aqui, mas acho que não há um dia em que eu não fale com ela.
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Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006
NonSense
- Vaca!
- Do que tu me chamou?
- Vaca. Me dá um copo de leite?
- Integral?
- Desnatado.
- Café?
- Chocolate.
- Não tem.
- Tem cerveja?
- Integral?
- Sem álcool.
- Tá quente.
- Tá demais!
- Não o tempo, a cerveja.
- Ai, cacete. Tem cachaça?
- De Minas.
- Eu quero um chá.
- Mate?
- Mato. Tem bala?
- De leite.
- Integral?
- Sem álcool.
- Vaca. Me dá uma dose de pão.
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Pelo Buraco da Fechadura - A Estética do Fodido
(Dos Antigos Projetos)
Pra variar, insônia. Do meu irmão, essa herança de ver os programas da Igreja Universal de madrugada, o Edir Macedo dividindo o mundo na sua lousinha: O Bem e o Mal.
Ela tinha tanta vergonha de tudo aquilo. Da possibilidade de ser mesmo aquela mulher de cenho franzido. Enquanto a amiga se despia, percorria os olhos pelo corpo: "Ela tem estrias" e sentia um prazer estranho, "Ela tem estrias", gozava secretamente e não entendia. À noite mudava de canal, a mulher se esfregava no homem, os cabelos louros, quase brancos, o batom de um rosa que gritava, até se esquecia que havia uma boca ali, Que putinha mais feia, descia a mão ao clitóris, como era esquisito, desvendava o corpo de um jeito triste. Quando abria os olhos no dia seguinte, não entendia e passava reto pelo espelho, como se desviar da própria imagem fosse fazê-la menos real. Queria esquecer de si. Que trazia um corpo e ocupava um lugar.
Meia-luz que banhava os botecos, eles me respeitam porque sofro e eu gozo porque dói. Dona Carmem e seus cento e oitenta quilos ofegava e Cecília a espiava com o canto dos olhos, entendendo muito pouco o que tanto escravizava sua vista naquela mulher grotesca. Na tevê rodava vezes seguidas a mesma imagem, um cara que estourou a cabeça do outro na calçada, que absurdo, a que ponto chegamos.
Milhares de mulheres sem se saberem traídas dormem o sono e sossego dos ignorantes, enquanto seus maridos sussurram bobagenzinhas pornográficas às amantes doces, abertas em adolescência e sorrisos de uma malícia caricatural, como viram em filmes. Pouco antes do raiar do dia, têm de se lembrar honestos, homens que têm família e honra a velar.
Fecha os olhos, agora, e chora, porque a programação da tevê acabou e sobra hora nessa madrugada, diz, num ranger de dentes, idiota, burlesco, tu és tão estúpido que eu apagaria meu cigarro na palma da tua mão, pra machucar bem no ponto em que a linha do Amor toca a da vida.
Como era absurda a vida, um circo que as pessoas pagavam a pipoca pra ver o homem enfiar a cabeça na boca do leão e levavam os filhos pra apontar o dedo, sugar até o fim o sangue ou o refrigerante, o que houvesse, um espetáculo de horrores, o motoboy bateu no ônibus, a mulher que deu o filho, a vizinha que passa as noites no bingo e não paga o aluguel; todos infortúnios comidos com as batatas cozidas no almoço de domingo.
Como Paula engordou e Renato envelheceu, essa calvice, a pele gasta, os olhos fundos, assim, incrédulos. Que coisa, ela que é uma mãe tão boa e dedicada ter um filho como Artur. Em psiquiatra já levaram, foi medicado, parece que não cresce e não quer melhorar, entende? Não lhe vale lutar contra a apatia e os vícios, fica com os olhos parados no teto, no tédio, como fosse possuído, nem bem morto nem bem vivo. A irmã tendo surtos psicóticos, o pai sem querer outro gosto que não o do trabalho, o dia-a-dia que nunca Amou, mas já se acostumou, então que venha o que lhe resta, o tempo que lhe sobra; mistura com uísque e suporta as noites que custam a passar.
Sentei na calçada, de frente pro bar. Uma mulher começou a gritar palavrões e quebrar copos - estava no balcão e devia ser a dona do bar - eu entreouvia fragmentos de lamento e cólera, cachaceiro, lho da puta, rabo de saia, fecha esse bar, enquanto um homem - a quem deviam estar sendo dirigidas todas aquelas delicadezas - muito calmamente tirava as cadeiras e mesas de fora, inalterado e impermeável, e cerrou as duas portas de madeira.
Um homem sentou do meu lado, estava cansado, pegou de sete no batente, era dono do bar ao lado, sentamos numa mesa e ele começou a me contar da vida dele, dos fregueses que passavam por lá e começou com um discurso moralistazinho, meio essa-juventude-de-hoje-cigarrinho-na-boca-esquecendo-o-endereço-jogada-nas-calçadas-olha-aquela-menininha-ali-catorze-anos-enchendo-o-rabo-de-cachaça. E eu disse que fazia parte daquilo, que também era dessa geração, que gostava de bagunça e vinho carreteiro, um e cinqüenta a garrafa, essa fuleragem toda. Com o passar do tempo e o torrar do meu saco começou ele a falar das mulheres com que traia a sua e das noites passadas em claro.
E viva o falso-moralismo!
Muitas vezes acompanhei o ser humano com incredulidade e angústia. Houve o tempo em que cri o Homem perdido e a sensibilidade no topo da lista de extinção.
Salve a arara-azul pequena (Anodorhrhynchus glaucus)
o maçarico-esquimó (Numentius borealis)
a perereca-de-folhagem (Phynomedusa fimbriat)
o surucucu-bico-de-jaca (Lachesis muta rhombeatal)
Salve o Homem (Homo sapiens sapiens)
Pelamordedeus, salve o Homem que não pode ser criado em cativeiro.
Se feitos da mesma matéria, gente,mistura imperfeita, esboço de nada, punhado de ossos, umidade de sangue, instinto e órbita, vaidade e pus, precipício e neurônios. Como, se restos, quem sabe?, das mesmas estrelas, resultado de explosões, colisões, gerações, como Tolstoi e Bush? Ai que se eu pensar, endoideço. Tenho o direito da não-contestação. Deixe-me aceitar e só existir, como uma flor ou rocha, pedaço de granito, chuva de granizo.
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Terça-feira, Fevereiro 07, 2006
[Piada Interna ou Como ser Impaminha]
Ô garçoa, me vê duas skóis?
A ressalva: Eu estava bêbada.
O veredicto: Mas ainda sóbria acho graça. É o declínio da família Castro.
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Segunda-feira, Fevereiro 06, 2006
01. Do Indizível
Nesses últimos dias, a expressão só se dá no campo sensorial. As palavras, perdi-as, mas hoje nem me incomodo. Enquanto consigo, recostada àqueles braços e pernas e úlcera e íntimo, enquanto pouso, posso. As palavras, perdi-as, sem muita briga nem cansaço. O tempo estia e ela me tem Amor: é tudo. Nenhuma agonia que me tire o sono, as angústias sempre presas ao cabelo, quedas e famintas. Hoje são pudicos meus infernos, vêm, mas não me atam. Não há desespero. As conquistas são esses dias que ganhei, essa calma de quem não compreende nem espera o dia da lucidez extenuante. "A mania de sofrer que tanto me diverte", hoje não. Lembro-as agora, na sua ausência, nos hieróglifos. Na saudade do meu primeiro Homem, de mãos grandes, que persegue-me a fala, as xícaras. Tudo isso incide, insiste.
Mas hoje nada. O tempo estia e ela me tem Amor: é tudo.
02.
"Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!"
(A função da arte / 1, Eduardo Galeano, in "O livro dos abraços".)
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Sábado, Fevereiro 04, 2006
(Dos Meus Projetos)
Capítulo Independente
Veio o moço baiano, aqui e ali respingado de tinta branca, a pele preta. Diz que comida baiana, comida mineira, deve ser tudo uma coisa só, porque gosta de couve e jiló bem amargo. Senta à mesa e diz, veio pra São Paulo em 71, a mãe morreu ele tinha completado treze e quis entornar veneno de rato. Não deu prosseguir nem por falta de coragem, mas por mão divina. Queria ir junto. Acabou vindo pras terras sudestinas. Só sabia copiar o nome, era franquinho em menino, apequenado. Chegou para uma firma.
Acabou achando mulher e conta queria ter filho, mas não acontecia. Um dia ficou sabendo de uma criança jogada no lixo. Deu banho, levou ao médico: "A filha é sua?" Ele de feliz disse que sim, sem atinar que sangue-do-sangue, não era. Deram bronca: Como é que você trás a menina assim, branca de morta? O moço explica: "É não, rapaz. Ela é minha a partir de ontem, de-adotada". "E tu pega criança já morta? Essa aí não vinga, não". Diz ter olhado pro céu, e existindo deus, salvaria a menina das garras da brancura. Hoje é a coisa mais linda, tem dezesseis anos inteiros e faz curso de culinária.
Depois da menina, nasceram outras e um filho perdido. Seu filho morreu? Morreu não: mataram. De lágrimas por um fio do tombo, conta: foi reagir a um assalto. Dinheiro é coisa do demo. "Eu olhava pra ele no caixão e pensava: 'Oitenta reais, meu filho, por oitenta reais; mísera quantia que tu pedindo, eu dava'".
Só clamava ao pai-todo-poderoso que a mulher não botasse chifre, que filho não fosse viado nem ladrão.
Dizendo: Esse governo, porque esse governo quer dar estudo? Tem que dar emprego pros que sabem ler e pros que erram de analfabeto. Quem tem estudo não quer ficar com enxada. Se fosse moço de saberes, não ia precisar fazer concreto.
A Mazé sussurra pra mim: Tem que tomar cuidado, o moço. Se vacilar, a Mari escreve a estória dele.
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Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006
À Ela
Mulher-miragem, mulher-miríade
Mulher-esposa, espessa
Mulher-saliva, mulher-saúva,
Difusa, translúcida
Mulher-mi'a-musa
Me acusa
Mulher-demente
Carne de fúria, injúria
Mulher-senhora
Mulher-sem-eira
Mulher que crio
Deliro
Mulher-de-trova,
De trevas
Mulher-de-léguas
que miro
Mulher defiro
o golpe contra
meus olhos
de breu
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Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006
Relendo as velhas coisas. Um texto catártico, visceral e ridículo. Alguma força que não sei qual, desmedita e sem rumo. O começo do meu declínio, quando as coisas designificaram. De novo, faço ascender. Mas foi o ano em que eu desci. (Sem nenhuma pretensão literária).
Ana, velho. Eu tô aqui com o coração na boca, querendo vomitar, meio alucinada. Eu tô alucinada, e sinto um descompasso me batendo, em desritmo, em dor, tá sangrando tudo, velho, e eu não consigo chorar e tô chorando, eu não consigo viver e tenho vivido. Minha irmãzinha. Eu não sei se me sinto uma merda, se só uma pessoa que quer viver, que gosta de gente e é interpretada de tantas formas - algumas são incompatíveis. Talvez eu devesse me precaver. Eu tô tremendo e parece que chove, são seis da manhã. São seis da manhã e tudo nubla, eu me despedaço e não entendo nada. O avião ainda não aterrisou. Eu tô ao mesmo tempo botando o dedo na garganta pra vomitar e queria fazer isso com meu verso, fazer o verbo vomitar a tardinha lilás na calçada dessa gente estúpida, que não sabe amar... fica esperando alguém que caiba nos seus sonhos. Ana, eu suporto tudo, velho, eu suporto tudo. Mas nunca te fazer mal. Eu não quero te fundir a consciência, só queria te puxar pela mão e te deixar viver o que fosse suportável, não sei se quero te trazer pro meu mundo, porque o que eu sinto por você é de outra esfera, é de outro tempo, nêga. Eu não sei se vale a pena te ver chorar na janela, pode ser que você não seja isso, pode ser que sua cor funcione em outra velocidade, você tá me entendendo? Eu queria que tu me mandasse à merda. Eu não queria machucar ninguém. Às vezes eu não queria afetar o mundo, sabe? Essa farsa que eles criaram é tão amena, tão respirável, deixa o ar condicionado deles. Por isso que eu era aquilo. Sempre soube que o dia que viesse à tona o que eu era, o dia em que florescesse, eu ia foder com as pessoas, estragar a brincadeira, dizer que papai Noel não existe, você entende? Eu era calma porque não sabia se devia, não sabia se era moral foder com esse teatro, tropeçar no cenário, descabelar as atrizes e falar que isso não é vida, não. Isso aqui não tem gosto de nada. Eu sinto Júlio morrendo um pouco todos os dias, Ana, e às vezes piro que é por minha causa, que a doença dele fui eu quem engendrou, ele ter descoberto que o que chamou de vida não foi porra nenhuma, que não foi intenso nem verdadeiro como poderia. Ele tá ácido, tá estúpido, acho que ele viu a cara da morte e ela tava viva. Lúcia falou que quando fui embora, ele chorou três dias seguidos. Eu faço mal pras pessoas, minha linda, eu não sei se devo contar o que vejo, ou se deixo bem guardadinho, embaixo do tapete pra onde eles enterram suas verdades mais perniciosas, seus desejos mais íntimos, mais delicados, mais humanos e terríveis. Ou eu grito. E daí sei que vou sair matando e morrendo. Ontem Fábio me olhou, uma hora, quando a gente se ligou da cagada e falou que eu mataria um. Ele foi um dos que não me entendeu. Não entendeu a minha proposta pro mundo, não entendeu meu jeito de Amar. Eu não quero trepar com ninguém não, Ana. Eu acho que nem sou sexuada, faz tempo que eu não sinto tesão, é só uma outra coisa. É uma outra coisa. Do jeito que tô falando parece que eu sou iluminada. Eu tô pretensiosa pra caralho, hoje não vou ligar a modéstia não, foda-se. Depois eu releio tudo e volto a ter consciência da realidade, por enquanto acredito na minha loucura. Talvez eu seja louca, na vera na vera, de se internar e tudo. Camisa de força. Não to brincando. Comé que é essa história? Eu volto pra cá e bagunço tudo? Talvez as coisas mudem com você e com o Fábio, Ana e eu juro que me mataria fácil se eu te arrombasse. Eu to falando sério. Não sou boazinha, não, nada disso é bonito. A poesia não é versinho pra se rodar na internet atrás de uma foto de pôr-do-sol, a poesia é a arte da desestrutura, da desinvensão, da subversão. Leminskise-se, gullarize-se, ou não seja nada. Viver dói demais, só pra tu saber. Amar as pessoas de verdade -eu to falando de amar, não to falando de viver debaixo de uma constituição familiar nem de se acreditar um ser social, não, não tem nada a ver com isso: eu to falando de amar- Amar as pessoas é terrível. Quando é que a gente descobre que ama alguém? Por que a gente dá descarga? Por que adoece viver? Por que não ser terno e doce? Por que eu não posso andar pelada na rua? O que me impede? Fica tranqüila que tem sempre a polícia pra estabelecer a ordem. Fica tranqüila que estão matando os sem-terra, os moleques de rua, toda essa gente que anda enxergando demais, que anda sabendo demais, achando que tem direito demais. Fica tranqüila que inventaram um jeito da mulher bêbada, fodida não ser ouvida. Ela tá na calçada, entre os papelões cheios de mijo e chuva, com uma garrafa de cachaça pra suportar o mundo, não chega teu ouvido perto da boca dela, não, nem passa a mão no peito das prostitutas, de quem já perdeu tudo: o que chamam dignidade, respeito. É tudo ficção, Ana. As pessoas vão correr no parque de manhãzinha. É semana que antecede o Natal, vamos pendurar enfeite nas portas, vamos nos abraçar e comer panetone, suportar os almoços de família e as conversas idiotas. Vamos falar da calcinha que tá aparecendo na mulher da mesa do lado. Ou eu faço tricô ou fodo com o mundo e pode ser que a ditadura volte. A explícita, eu digo, a oficial, constitucionalizada.
"Uma fossa comum com mais de 50 corpos foi descoberta nesta segunda-feira perto de Kirkuk, no norte do Iraque, de acordo com um porta-voz militar. Moradores teriam descoberto a fossa e avisado as tropas americanas".
As pessoas tão sendo mortas, Ana. Não se noticia suicídio, cê sabia? Isso é abafado. Viver não faz sentido. Eu sinto um puta tesão na vida, mas que seja claro que não faz sentido, que é uma farsa, eu só escolho o figurino e a maquiagem, mudo o sotaque, engordo, emagreço, subo no alto da sacada. Eu só troco o texto da peça, de roupa, eu só troco de veneno, de droga, de compulsão. Se eu começasse a injetar agora, não parava mais nunca. Se afasta de mim, Ana, se afasta enquanto pode (e tu ainda pode, acredita), foge, corre, corre, que eu não valho nada.
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Sérgio Castro
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Palavras e Imagens
Fernanda-Irmã
Cotovelares
Misson, O Cara
Jordani Sou Eu
Castilho
Cat, A Mina
Leo Caobelli, O Iluminado
Phasmo, o Fantasminha
Ed, o Coelho Branco
Fernanda, a Imersa
Cris, o Furioso
Yane, O Monstro
Daniela, O Mito
Vitor, o Freire
Arara, a Teresa
Filipe, o Displicente
Coletivo
Lugares Bacanudos
Silvio Mieli
Na Orelha
O Dilúvio
Memória Viva
Vozes do Brasil
Mercado de Pulgas
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