Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Domingo, Janeiro 29, 2006
Pensei em pôr letra de samba, texto antigo, em forma de agradecimento. Ela perdeu algumas horas aqui em frente à máquina, num sábado esquálido, pra repaginar meu blogue. Ainda usei o desenho do meu irmão, que eu Amo (o desenho e o irmão).

Mas estou sequinha de idéias e palavras: nada vinga. Tento, tento, mas ando preguiçosa e com medo de me embrenhar no reino da imagem e do som. Ceifar, debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo. E nada de milagre do pão. A impressão de que os olhos dizem e tentar transformar o lume em letra. De resto, tento forjar tentativas de escrita, faço café, fico contemplativa aqui do décimo andar, a cidade pequenina e os homens ainda menores. O tempo detona e apura.

"Não, não precisa se estar nem feliz nem aflito
Nem se refugiar em lugar mais bonito
Em busca da inspiração".

Diz o Paulinho naquela parceria com J. Nogueira. E todos os que buscam o caminho da criação sabem que, por menos elaborado que seja o resultado desejado, Cabral tinha razão quando falava do suor e do esmero. É preciso tanto e os cigarros não bastam, a vivência não basta, nada é determinante.

"A música me Ama
Ela me deixa fazê-la
A música é uma estrela
Deitada na minha cama"

Eu disse a ela, enquanto lavava louça ou frigia ovos, que minha grande frustração é não ser sambista. Não empunho nenhuma grande causa. Nem consigo versos de trovador. A vida inteira que poderia ter sido e não foi já não me alucina. Quero construir outra estrada, hoje. Já recomposta das trevas, já supurada das guerras.

Não há luz que me ilumine, nem faz frio. Eu hoje sou o trânsito, a travessia. Eu hoje atravesso, assassinada.


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Terça-feira, Janeiro 17, 2006

amor
sua existência
me acusa
dos dias
superficiais
em que você não estava

(Edson Cruz)


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Segunda-feira, Janeiro 16, 2006
Eu tomo fôlego. A poesia incide no dia, como pela janela aberta, a luz invade. Ela reflete. Balanço. Traz na voz a poeira calma descendo depois do exaspero. Vem, enquanto dura o tempo, vem.

Eu corto quadrinhos do jornal de ontem enquanto ela lê Cortázar em voz alta. A mulher que não viria.

Essa noite eu acordei chorando
Só me lembrando de tão longe estou
Sofrendo guerra pelas terra alheia
Minha terra é boa
Meu Amor é lá

Ainda antes, me fazia perguntas indiscretas e ria muito por me descobrir assim suscetível como quem espera. Meu Amor dos homens, entre as criaturas voláteis, difusas, meu Amor de sombra, a mulher de pólen, o contorno de cera, minha lua inteira em noite treze de sexta-feira. Minha obsessão desmesurada, que entre copos de cerveja deliro, delito: que me deixa marcas, que me invade, avessa, por quem chorei numa madrugada sem sono, abrindo potes e virando as mesas, a confissão do abscesso, tenho o corte das minhas unhas quando não pude-a. Atravesso a muralha do tempo - ela. Mulher oleosa, cândida noite que varei dezenove pra que fôssemos - ela. Presente dos dias, face suprema, cor absurda, ponte arenosa, escada de tombos, perfeita, mulher que esparrama meu nome na boca, costura-o, desmonta-me, estátua, desleixo, a resposta para os meus desvãos.

Ando por passos a ponte, ali, onde a vista cansa. Descaio até que não sobre. Porque eu era a boca sem nome.


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Terça-feira, Janeiro 10, 2006
eu não tinha nada a ver com as pessoas por quem ela vertera amor. havia aquela menina que P. sempre arrastara como um apêndice, o nome dela em todas as mesas de bar, e como me irritava, nome e sobrenome, a ela meu amor primevo, o mais puro, aquele que depois a gente tenta jurar pra pessoa que nos dará filhos e senilidade, por quem voltaríamos mais cedo dos bares e acabaríamos numa terapia de casal, com quem dividiríamos a oleosidade dos domingos, toda aquela vida cotidiana e modorrenta, seria uma tentativa de atingirmos o amor, aquele, primevo, mais puro. e o nome - nome e sobrenome - P. arrastava a causa daquela sirigaita pra todas as nossas solidões, ainda que praticássemos retiros e viagens pra tentar salvar o que fôramos e o que não conseguíramos ser, sempre o nome nos alcançava. E. nos invadia como um espectro numa noite sem lua, como a possibilidade de que se ela estivesse em meu lugar, seriam, de fato, felizes, como apesar da terapia e dos bares e de nos termos algum carinho e objetivo em comum, fracassamos.
um dia se encontraram, na saída do cinema.


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Sérgio Castro
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