Do Ser Prolixo Precisei de uma folha inteira pra dizer o que Drummond conseguiu em três versos "Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação (duvidosa) da vida, Mas a poesia (inexplicável) da vida" Olha, esquece o sentido! Mesmo, não há. Procura no lixo, nas gavetas da escrivaninha, debaixo das saias das mulheres, no lodo, no beco, na boca dos enfermos, numa sonata, na tristeza, no tratado filosófico, procura debaixo do manto, cava até que sangrem os dedos, escuta teu sangue, estuda tua árvore genealógica, freqüenta missas, coretos, enterros: sentido, te digo, não há. O espetáculo que oferecem os homens engana, enquanto passa despercebida a vida nos comboios, debaixo do toldo nas boléias do caminhão, foragida como tantas vezes. Eu até digo que procures e desterres os paralelepípedos, que abras as blusas, os cofres do governo, lê e relê os jornais todo dia, deixas que o globo rode e o dedo pouse em alguma cidadezinha longínqua e cinzenta. Cola teu ouvido à terra, escuta a língua das águas, a voz do silêncio. Senta teu corpo cansado junto à fogueira, onde o velho conta uma história que se amarra a outra e que desde que o mundo é mundo não encontra a última letra nem moral nem ponto. Ouve com atenção e credulidade, despalavreia cada dizer, mui quedo, acredita que lá pode haver (o sentido). Espia a menina que sangra o peixe e corta sua carne de modo que a espinha saia inteira, sem dificuldade. Vê o que buscam as prostitutas, as lavadeiras, os oleiros, as serestas, ouve a reza desesperada dos evangélicos. Haverá, então, um cansaço e uma melancolia que arranha todos os dias, teu olhos cegam, a cama puxa teu corpo, tu vês os minutos que giram e se transformam em horas, tu vês a vida, tu vês? É vida que escorre, enquanto a água gelada molha teu rosto. Então, esquece! As guerras, o ódio, os cavalos, as compotas de fruta, a seiva do homem. Mas digo que não é um legado de misérias. Destrói, que é preciso destruir, faz trabalho pra Exu, abre tua guia, Amor, abre teus dias e tira do olho esse vício. É preciso enxergar o mundo de um modo inteiramente novo, é preciso reinventar e matar um leão por dia. Porque sentido, eu digo, não encontrei. Mas beleza há tanta. postado por Maroca 02:43 Fala que eu te escuto: . . .