Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Quinta-feira, Setembro 29, 2005
Querida,

porque faz tempo que não lhe escrevo e porque existem -sempre- coisas a ser ditas. Porque você é a menina que me irrita, bárbara e tola, e me devassa. Porque são lindos teus cachinhos e teus olhos.

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas)


porque são calmas as tuas mãos, sendo tu inteira desastrada e aflita e mesmo quando me retraí - e assim quedo, combalida - mesmo quando diz que eu sou sem graça e não contem, nos olhos, a fúria; mesmo então é a mulher das minhas noites; pra quem já fui mimada e perturbada, um bicho perigoso, o animal mais acuado. Quem me ouviu os desastres e desatinos, as manhãs de ressaca, as tardes de mau-humor e mesmo quando vazios, queria saber dos meus dias. Mulher que já me viu, assim derrotada, aos pés de uma escada pra cumprir penitência e que acompanha todas minhas tentativas de samba, porque eu queria mesmo, chapéu branco, navalha no bolso, era ser mão que empunha pandeiro e tu ias dizer aos outros que a tua sina era a miséria que encontrou nos meus olhos: ser mulher de malandro.

Meu Amor, tu és. Ainda não sabe?

(Citação em Itálico: e.e. cummings / tradução: augusto de campos)


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Sexta-feira, Setembro 23, 2005
A Metade Afastada, Exilada, Arrancada, Amputada, Adorada de Mim

Que saudade ele me deixou. Eu, que não conhecia esse jeito de sentir, esse jeito de não ter jeito, essa saudade que não é um rio ou o tempo ou a espera que separam. Depois da ausência não-assimilada de ainda esperá-lo, olhando pra porta fechada, como se ele ainda pudesse abri-la, ainda que fizesse, já, tempos, que não chegava mais do trabalho com a pasta preta, sorrindo. Que saudade hoje fica, branca de tão apegada. No piano cheio de livros e pastas de partituras, nos discos calados na estante, nas fotos. Tanta coisa eu queria te dizer, pai. Que voltei a estudar música e você aparece em cada barra de repetição, onde queria voltar ao teu colo e ter entre as minhas, as tuas mãos grandes. Que eu então entendo porque as pessoas precisam das religiões. Que às vezes me dá a sensação de orfandade mesmo, de acreditar que não poderia suportar outra perda, outra perna que já não está. Às vezes eu queria ouvir rádio e dizer que essa estação é boa porque eles falam o nome do intérprete e do compositor, mas só você entendia. E mostrar o disco do André que me deu aula e me fez enxergar a música como nunca antes eu havia conseguido. Que saudade que me aperta. De você deitado no chão da sala com a luz apagada ouvindo aqueles discos antigos.

Triste de não ter jeito, às vezes eu fico. E daí me apareces em sonho, dos males sanado, da doença, curado e de novo estou do teu lado no carro e de novo não és mais o homem frágil, rodeado de aparelhos que apitam e de agulhas nas veias. É de novo a pessoa mais forte que conheci, lutando pela vida como eu nunca me senti capaz, como um bicho desesperado buscando aquele fiapo de luz que às vezes vaza, que às vezes resta, que às vezes some.

"mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta"

Esse homem que me atravessa. Que em mim ficou encantado, como uma fábula.


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Terça-feira, Setembro 13, 2005
Eu Quero a Sorte de um Amor Tranquilo

Flor do meu amor, esse eh meu novo cel. Estou num hospital sob avaliacao psiquiatrica, tive convulsoes e desmaios fugindo pra Campina Grande. Que doido, vc me mandou as msg enquanto estava em crise na enfermaria. Tu sabias? Começarei Prozac e anti-psicoticos. A. acabamo-nos! Eu te amo! Vou pro Rio.

Daí eu acordei e fiquei olhando pro teto, pensando quê era isso. Por que todas as pessoas que Amo andam perturbadas e cheias de mágoas, paralisadas e escalando as paredes da razão e da sandice. Ou comprando causas que não me convencem, que não lhes pertencem.

E ela pega os tomates, a massa do macarrão, corta as cebolas sem mais verter lágrima e eu de novo penso que deve ser tudo liso e simples, como o cheiro do almoço na hora em que se tem fome, como as roupas estendidas no varal num dia de frio, como a chuvinha tímida que embaça a vista.

Sei do incomodo
e ela tem razão
quando vem dizer
que eu preciso sim
de todo cuidado

foda-se as pessoas, S... Quem pensa o que de quem, entende? Eu só quero saber se você se sente bem, dentro do que escolheu, se tem consciência das tuas escolhas

Amo as minhas escolhas, detesto as minhas indecisões.

às vezes é você quem está no caminho certo... nós que andamos à deriva, tão sórdidos, tão tristes, tão apavorados.

E vem a Pandora de Brás Cubas:

"Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da vida? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?"

Por que andamos assim? Compulsivos, apostando em ilusões rasteiras, o olho brilha de um desejo que logo cessa, é só ter na mão o objeto, é só ter na ponta língua o gosto doce pra anuviar o amargo de tudo. Eu bebo num só trago a garrafa de um sonho morto.


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Quarta-feira, Setembro 07, 2005
Pequena Biografia Não-Autorizada

É que ela já não acreditava na vontade de felicidade. Primeiro foi assim: ela abandonou o mundo. O que eles queriam pra ela, que agisse dentro da normalidade, estudasse um tanto que não chegasse a se revoltar com as misérias; que estudasse aquele quanto que lhe pudesse virar salário um dia e que encontrasse um homem de olhos doces, que hora qualquer da madrugada não pudesse abri-los perturbados, parados no teto não encontrando mais o sono nem esboço de sossego.

Uma hora ela cansou do mundo. Às favas esse tal que rodava suspenso, tão por cima da massa visguenta e insólita que povoa a superfície, raça interminada, eterno projeto que nem na hora da morte se conclui: quando a gente abraça essas últimas dores, mais se desfaz; não ratificamos nada: tudo é vão e vaidade, pão e abismo. Não resta nada, copo de leite sobre a pia, teoria ou obra, nem Amor. Fica o olho parado, que agora consiga a expressão perturbada, vagando sozinha no teto. Já não importa a ninguém.

Quando se cansou desses, resolveu inventar algo que pra si chamasse Amor; ainda que fosse o avesso do que a norma pudesse aceitar, ainda que àquilo chamassem doença. Era terrível o que havia descoberto, as mãos abertas, querendo, querendo. Já fugira do Amor e da merda, conseguindo similaridades entre uma dor e outra. Era tão triste e não era nada, era preciso se apaixonar mesmo que o gosto pelos dias que nascem brancos fosse confundido com uma depressão.

"Distimia", dizia a mãe, uma tristeza fina que passa arrebentando a barra do dia, um desânimo que não cede. Era tão triste. E não era nada.

Aqui, no porão do mundo, eu escuto

Depois de haver abandonado tudo aquilo que queriam dela, por ela, acabou se perdendo a si mesma.
Um labirinto dentro da própria tristeza, o caminho hermético e desconhecido, ela tentava gritar por socorro, mas a voz não alcançava os ouvidos humanos. Era dura, eles não quereriam enfrentá-la. Era preciso evitar ruídos pra que pudessem ouvir a novela.

Queda, muito queda, fez-se nos bares assídua e da música, religião.

Um dia, no entanto, uma pergunta lhe engoliu o próximo passo: se o labirinto fora criação sua, como uma sonata, teria se lembrado de inventar saída? O cérebro era sua clausura, seu maior tormento.

Ela queria se libertar, como um dia que precisa amanhecer.

Era tão triste. Mas não havia de ser nada.


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Quinta-feira, Setembro 01, 2005
"não quero ser alegre
como o cão que sai a passear com o seu dono alegre
sob o sol de domingo
nem quero ser estanque
como quem constrói estradas e não anda
quero no escuro
como um cego tatear estrelas distraídas"


(Zeca Maleiro)

[23:52:24] Maroca: eu quero que alguém me diga que tudo isso passa, um dia.
[23:52:52]
cabezamargin: bom
[23:53:00] cabezamargin: não sei se isso vai acontecer
[23:53:40] cabezamargin: Mas um dia irá lhe dizer que todo alguém passa.
[23:53:55] Maroca: eu quero passar
[23:54:01] Maroca: pra virar outra coisa
[23:54:25] Maroca: mais bonita, eu queria ser um cãozinho
alegre.
[23:56:26] cabezamargin: isso é besteira
[23:56:30] cabezamargin: e você sabe disso
[23:57:03] Maroca: haha
[23:57:14] Maroca: mas de repente eu quis ser um filhote de
labrador
[23:57:27] Maroca: pra brincar com os cadarços de alguém
[23:59:06] cabezamargin: de repente
[23:59:12] cabezamargin: o filhote de labrador
[23:59:17] cabezamargin: quis ser mariana castro
[23:59:29] cabezamargin: pra brincar com a dor de alguém
[23:59:32] cabezamargin: mas já passou
[23:59:50] cabezamargin: de repente é tão rápido que no meio da frase já foi. a gente termina a frase só por orgulho.
[00:00:35] Maroca: hahaha eu já fui, sim, um filhote de labrador
que queria ser essa senhora toda lúgubre e escurecida pra
escavar os tempos de dentro que não me fecham nunca.

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Sérgio Castro
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Palavras e Imagens

Fernanda-Irmã
Cotovelares
Misson, O Cara
Jordani Sou Eu
Castilho
Cat, A Mina
Leo Caobelli, O Iluminado
Phasmo, o Fantasminha
Ed, o Coelho Branco
Fernanda, a Imersa
Cris, o Furioso
Yane, O Monstro
Daniela, O Mito
Vitor, o Freire
Arara, a Teresa
Filipe, o Displicente
Coletivo

Tom e Vinicius - por Biagio Di Carlo
Lugares Bacanudos

Silvio Mieli
Na Orelha
O Dilúvio
Memória Viva
Vozes do Brasil
Mercado de Pulgas

... Flávio encara Marco, seu colega que fora acusado de furto no trabalho...