Terça-feira, Agosto 30, 2005
A solidão só me dói. Some e dói. Sólida. A solidez solidã. Só lhe dou. Some. Pisca e volta, vaga-alumiando. Solidando. Improvisando. A solidoa, some e voa. Sobrevoa. Só me doa. Some.
. . .
Terça-feira, Agosto 16, 2005
Todas as estórias eu te ouviria
Para Leo Caobelli, pelo cheiro da vida
Olha, enquanto o ônibus não chega, senta aqui do meu lado e deixa que eu te conte todas as misérias dessa cidade que já nem sei se é o chão que piso, a estradinha escura de petróleo e chuva, se é das luzes que se acendem, esticando as ruas, se das mulheres que se Amam nas docas à espera de um homem ou milagre; ou se a cidade sou eu, porque boto nela meu olhar de recuo e olho é coisa de dentro.
Ah, todas as estórias eu te ouviria. Da infância, das estrelas, das estradas. Dos cavalos que bebem silêncio. Se pintou um quadro, se ama algum mendigo, alguém que erre nos corredores de um hospício, se tu mesmo não traz por dentro um quarto abafado sem o retrato de nenhum deus.
Eu queria, ainda, te contar da moça que cruza a cidade com um cesto de frutas e uma lata d'água na cabeça. Se tu encostas o faro na pele preta, tu sentes o cheiro da vida, nem de perfume, água borrifada, jasmim no cabelo, nem do cigarro de palha que os homens enrolam enquanto conhecem a noite que pulsa dentro dela feito um bicho ferido. O cheiro da cidade, da Argélia, da argila que fica nas unhas, das laranjas e florzinhas brancas de maracujá, da carne vermelha na vitrina do açougue, do moleque que empina pipa, do pião que escava tempo na terra, tu sentes todo cheiro da cidade se encostas o faro atrás da orelha que escuta vaga-lumes.
(Tu sabias que os vaga-lumes incendeiam a madrugada?)
Em havendo tempo, ônibus que atrase, lua que vingue ou mingue, eu te faço café. Capuccino, tem. Aqueles de potinho que Lúcia traz do centro. Tem quarto vazio daquele meu filho que foi morto. Te contei, não? Emboscada, foi. Estória de paixão, incendiaram ele e a moça num quartim do subúrbio. Cresceram juntos, sabe? Acabou casando com outro, ela, mas se amavam de-escondido. Era coisa que nem perguntar carecia. O jeito que oferecia pedaço de queijo, que trançava os cabelos olhando assim-assim pro meu filho. Conhecimento de todos, sempre foi. Mas acho que tinham medo do Amor, que quando é grande de não ter jeito, vai assustando, sabe? Ela se casou, fazia nem muito tempo e começaram a se encontrar. Gosto de falar disso não, perdoa?
Eu faço fé que ainda tenham dadas as mãos.
O quarto ta lá, mesmo jeito. As roupinhas dele na gaveta, o vidro de colônia na mesinha, os livros de estudo dele, sabe? Lampião, tem. Eu até trago aqui.
Gosto de pensar que o azeite vai queimando a noite, o fogo vai pegando o dia pela barra, acordando quase os homem que desmadrugam pra buscar peixe.
'que seu ônibus não vem mais não, moço. Tem trem praqueles lados não, ali é só pra pegar café e laranja.
Eu gostava que ficasse sempre aqui pra me contar estórias. Tu faz amanhecer essa noite, sabe? Me trouxe esse cheiro de vida.
(A foto é do Leo. O menino que acende as luzes de dentro.)
. . .
Tu tens o olhar desatento, desses que vagam ao contrário enquanto anoitece. Tu tens a boca calada de tanta fala que não encontra via, tu assobias e ele vem. O pássaro, o desejo, a luz. Tu chamas e se desfaz a clareza, aquilo que sei, o que interpreto.
Eles quiseram procurar no passado e gavetas, entre o colchão e o estrado, eles queriam encontrar uma causa ou sossego, algo que lhes assegurasse que a ordem do mundo permanecia - veja só: eles acreditavam que tinha ordem o mundo. Uma razão legítima, ligeiramente convincente. Como pode, assim? A pessoa do teu lado, pele que esquenta, frio que atravessa. Tem reflexos, pisca os olhos e precisa de ar. Mas tudo se parte, tu entendes? De repente "tudo" já não é, já não vaga, nada, já não percorre cafés, seus saltos não fazem barulho nos corredores compridos da biblioteca, nem pode pedir ao ônibus que pare. Ela tinha em excesso. Estudo e pares de sapato, conflitos e comida no prato. Banheira no fim do corredor. Podia sorver em silêncio a cerveja, o desânimo, ser testemunha de crime, decidir estudar cello ou matar um homem. Fazer o peito parar, tu entendes?
Ela podia fazer o peito parar.
. . .
Quarta-feira, Agosto 10, 2005
quando pequeno, meu pai levava vaga-lumes ao cinema encanta né? eles não parecem de verdade
. . .
|
Sérgio Castro
. . .
Palavras e Imagens
Fernanda-Irmã
Cotovelares
Misson, O Cara
Jordani Sou Eu
Castilho
Cat, A Mina
Leo Caobelli, O Iluminado
Phasmo, o Fantasminha
Ed, o Coelho Branco
Fernanda, a Imersa
Cris, o Furioso
Yane, O Monstro
Daniela, O Mito
Vitor, o Freire
Arara, a Teresa
Filipe, o Displicente
Coletivo
Lugares Bacanudos
Silvio Mieli
Na Orelha
O Dilúvio
Memória Viva
Vozes do Brasil
Mercado de Pulgas
|