Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Quarta-feira, Julho 13, 2005
"A saudade é uma ferrugem, raspa-se e por baixo, onde acreditávamos limpar, estamos semeando ferrugem." (Mia Couto)

Porque o que sinto por você, mesmo quando do meu lado, cabe exato na palavra saudade. Ou eu achei que tivesse cheiro de saudade essa melancolia que não cede. Esse dia-novo que não vem, e eu anseio. Essa expressividade que meus sonhos ganham e depauperam e são esquecidos na sarjeta, como quem se livra de um trapo, eu me desfaço, eu me despeço, despenco e parece que a força que me inchava o peito, a vontade de correr o mundo, decresce.

Que eu tivesse um projeto, fosse conseguir um emprego, ir andando até o Rio, conhecer a Argentina, lutar contra meus vícios, contra "as misérias do cotidiano", como um dia disse Maiakóvski; mas que eu tivesse um projeto, uma deidade ou esboço de luz e não vagasse a esmo, temendo o abismo a cada próximo-passo, mas ainda assim, vivendo de salto em salto, de aclive em acorde.

Meu estado é triste e aflitivo: há espera, mas não há esperança, tu entendes? E me assalta um medo bruto de ser devorada em definitivo pelo desânimo, das cores não retornarem à vista de dentro, morar na minha pupila esse tom desbotado.

Você é uma das coisas mais bonitas que eu já tive na minha frente, diante dos meus olhos e espasmo, das pessoas que mais me faz feliz, de uma felicidade consentida, só ao meu alcance e desses que sabem que o Amor é terrível, que a vida tem tanto de maravilha como de miséria.

(Tu consegues enxergar uma fotografia em preto-e-branco, com uma só flor que tem cheiro e viço, tempestade e lascívia?)

Tu és a vida que detenho entre meus dedos cansados, entre meus medos calados de tanta morte.
Minha última chance, tu és minha última chance.


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Segunda-feira, Julho 11, 2005
foi numa crise de consciência. têm momentos em que acredito na minha salvação. é meu inferno, porque há que retroceder todos os desacertos.

"Vem me aliviar o cansaço e as cagadas, as compulsões e vícios da alma, do hábito. Vem me inventar um deus pra conceber perdão, pra me fazer acreditar em verdades, tais quais o Bem, a Virtude, ah!, os Valores Humanos! Vem me curar os dias aborrecidos e banais, a preguiça e covardia, o haver-nascido. Nem que seja preciso a punição, se esta me libertar a consciência e dignidade, aceito-a de bom grado e cabeça erguida! Pago com cartão à vista, minhas indulgências e cáries, gangrenas no caráter.

Que diriam meus pais se vissem por dentro em que se tornou a filha que criaram a duras penas? A quem mais lhes deu trabalho, lhes causou dissabores? Uma fruta podre no miolo, a quem hoje olharam com os olhos de fuzil.

(Talvez aquele homem que me viu pecado, dentre todos os homens, seja o que melhor me conheça. Mais do que os que me espiaram na intimidade do pranto, do gozo ou do discurso, mesmo quando sinceros.)

E ainda procuro escora pro espírito, 'inda busco dose de aguardente que me dissolva - antes que o fígado, antes que a vida - as atitudes torpes e egoístas.

Porque não me fiz cristã e boa, justa? Por que não me esforço pra ser gentil? Vá lá que não derramasse boas sementes nem extraísse as daninhas ervas do mundo, mas também não produzisse galhos de espessa treva, que não ferisse os que me ousaram Amar.

Perguntei: "Eu, que não creio em Deus e não trago testemunhas no meu crime" - ainda não havia me dado com o homem de órbitas nuas de olhos, vestidas de fuzil "de que forma me será cobrada a vileza que então pratico?" Dostoiévski me respondeu que nada, nenhum deus, nenhuma testemunha me seria tão tirana quanto a minha consciência. Não há pior vergonha que a praticada com as luzes da moral queimadas.

Haverá perdão para meus paradoxos? Para minha vaidade?
Ah, crer na magnificência e persegui-la, obstinada e tortuosa estrada.
Quanto ainda me custará esta essência que carrego? Fosse dotada de menos complexidade e inquietações e então poderia trilhar o caminho da Ética, da Igreja, defenderia uma tríade do gênero Tradição, Família & Propriedade, trabalharia, pagaria as contas e triunfaria, dormindo o sono dos juntos, dos que estão em dia com seus deveres cívicos e morais.

Estorvo, tristeza e solidão"


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Fui chorar minhas pitangas pra Gê, ela me lembrou uma coisa tão bonita de Clarice.

"Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa."


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Quinta-feira, Julho 07, 2005
Para Pedro Einloft e Pamitria Trisson

Eu fico pensando que talvez existam -entre outros muitos- dois universos: o sagrado e o cotidiano.

Sagrado é aquele onde rodam as coisas que nos alimentam por dentro, aquelas pessoas queridas que nunca víramos, que talvez queiramos quase pra cultuar, botando um sentido na vida, aquelas a quem recorremos quando tudo nubla, o mundo fantástico das coisas sacras e inalcançáveis. Muitas das vezes, os seres viram pó, gosto de açúcar ou ferrugem na língua e é por isso que a gente tem medo de trazer pra perto demais, ali, onde ninguém é normal, as anomalias e mesquinharias saltam aos olhos. Porque às vezes, perdendo a cor de mito, perde-se a estrutura como um todo e é dolorido ficar carregando um ídolo morto, o acalanto apodrece e vira pretérito aquele colo imaginário no qual deitávamos enquanto confessávamos do mundo ácido, das atitudes estúpidas das pessoas e os dedos sagrados encostavam muito suavemente na cabeça caída, fazendo cachinhos nos nossos cabelos e eles ficavam mais bonitos, os olhos mais fundos. Porque os que habitam esse universo fantástico enxergam beleza onde o resto do mundo, quando não desdenha, passa batido. E a gente até passa a gostar um pouquinho mais da gente.

Daí vem a coisa de querer sentir os dedos de luz virando pele, espezinhando os nossos medos e inseguranças de verdade, pra que a gente possa deitar no peito da pessoa, aquela que nos entende tão bem e ficar ouvindo um barulho quente, rítmico, contínuo; o barulho da vida. Tum-tum tum-tum tum-tum. E a gente quer abrir a porta do quarto e tomar café enquanto conversa sentimentalidades ou besteiras, enquanto discute Sartre ou vê Tom & Jerry. A gente acha que era capaz de ficar olhando no olho da pessoa sem dizer palavra nem haver constrangimento, por um tempo que nem coubesse no tempo, até que o olho se destacasse do resto do rosto, do resto do quarto, do resto do mundo. Porque não há ninguém que nos entenda tão bem quando a gente briga com o cunhado, quando a gente rouba uns trocados, quando a gente acha que enlouqueceu ao contrário. A gente quer escovar os dentes ouvindo ela ler um trecho que achou bonito; procura o livro na mochila dizendo um me-lembra-você que parece tão despretensioso que a gente finge que nem se comove. A gente quer puxar a pessoa, do Olimpo pra calçada, onde dá pra sambar e tomar cerveja.

"Me dê a mão, vamos sair pra ver o Sol."

Mas às vezes a pessoa não gosta de chuva, não gosta de Sol, não gosta de samba nem vai a Ipanema, só bebe água. A gente descobre que os mitos não dançam. O barro quebra e nunca mais cola. É irrevogável.

O mundo cotidiano é esse outro. Onde acontecem atropelamentos, onde as contas exigem ser pagas, onde a gente vai à feira e sente o cheiro das frutas, o berro dos homens, aprende com o moço que vende flores a técnica certa pra se cortar o caule, brinca com o sobrinho no tapete da sala, onde os pastéis são fritos e a vida tic-tateia. Faz noite, faz dia. O mundo cotidiano tem cheiro imprevisto, do esgoto das grandes avenidas, do perfume da avó. Tem a tessitura dos fantoches de pano; mas o movimento e a crença de que não é uma mão, é vida de coelho em cartola, é do mundo sagrado.

Tem gente que fica na nossa vida costurando os tais mundos. Rala o joelho do mito. É um homem que faz poesia.
A gente fica atrás, meio zonzo. E a vida segue rumo anárquico.

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Sábado, Julho 02, 2005
A gente faz assim: eu finjo que me esqueço do samba, tu finges que te esquece do sono. Assim, assim. A gente começa de novo. Primeiro acorde, entende? Primeira tragada, tu levantas de novo o cigarro nem bem à altura da boca, a coisa tem de ser plástica. A vida é um fenômeno estético, tu sabes? Daí eu dou o primeiro gole olhando pra tua pupila que vai se dilatando; mas eu olho pra tu como se te ultrapasse. O teu rosto, a mesa do lado, a parede do bar, a avenida empretecida onde poucos homens circundam, mãos dadas à melancolia e alguma mulher na cabeça. Eu ultrapasso tudo isso, tu entendes? Porque te olho lapidando teu íntimo, mas além dele.

É aquilo que um dia te disse. O meu sentimento escorre, vaza, porque tu és a metáfora de todas as coisas que eu Amei. E tudo que temos é metáfora. Às coisas, às coisas mesmo, não se chega nunca, por caminho algum. A gente ergue totens pra vida não ficar niilista demais, a gente pega barro e vai construindo um deus, vai enxergando no objeto a coisa, a causa, a gente chama de sagrado e dá uvas em oferenda, a gente canta, a gente bebe e degola o bicho. Inventamos um jeito de amar os dias.

E tu és minha melhor invenção. Porque mesmo quando larguei tua mão como quem solta um pássaro e fala Voa, mesmo quando tu dançastes no salão sem se saber por mim vista, mesmo quando a flor vingou esquisita, tu eras mais minha.

Os pés que mudaram de estrada, eram parte do meu barro. Costela do meu ocaso.

Chovia e o que não era asfalto virou lama, teu passo engole o próprio corpo. E tu voltas a ser matéria-prima, coisa sem forma; a essência do meu pânico, o entrelaçar perfeito do Amor e seu inverso, o Amor e seus antídotos.

Então, comecemos. Cigarro nem bem à altura da boca e tu olhas pra mim te ultrapassando.


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Sérgio Castro
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