Eu fico pensando que talvez existam -entre outros muitos- dois universos: o sagrado e o cotidiano.
Sagrado é aquele onde rodam as coisas que nos alimentam por dentro, aquelas pessoas queridas que nunca víramos, que talvez queiramos quase pra cultuar, botando um sentido na vida, aquelas a quem recorremos quando tudo nubla, o mundo fantástico das coisas sacras e inalcançáveis. Muitas das vezes, os seres viram pó, gosto de açúcar ou ferrugem na língua e é por isso que a gente tem medo de trazer pra perto demais, ali, onde ninguém é normal, as anomalias e mesquinharias saltam aos olhos. Porque às vezes, perdendo a cor de mito, perde-se a estrutura como um todo e é dolorido ficar carregando um ídolo morto, o acalanto apodrece e vira pretérito aquele colo imaginário no qual deitávamos enquanto confessávamos do mundo ácido, das atitudes estúpidas das pessoas e os dedos sagrados encostavam muito suavemente na cabeça caída, fazendo cachinhos nos nossos cabelos e eles ficavam mais bonitos, os olhos mais fundos. Porque os que habitam esse universo fantástico enxergam beleza onde o resto do mundo, quando não desdenha, passa batido. E a gente até passa a gostar um pouquinho mais da gente.
Daí vem a coisa de querer sentir os dedos de luz virando pele, espezinhando os nossos medos e inseguranças de verdade, pra que a gente possa deitar no peito da pessoa, aquela que nos entende tão bem e ficar ouvindo um barulho quente, rítmico, contínuo; o barulho da vida. Tum-tum tum-tum tum-tum. E a gente quer abrir a porta do quarto e tomar café enquanto conversa sentimentalidades ou besteiras, enquanto discute Sartre ou vê Tom & Jerry. A gente acha que era capaz de ficar olhando no olho da pessoa sem dizer palavra nem haver constrangimento, por um tempo que nem coubesse no tempo, até que o olho se destacasse do resto do rosto, do resto do quarto, do resto do mundo. Porque não há ninguém que nos entenda tão bem quando a gente briga com o cunhado, quando a gente rouba uns trocados, quando a gente acha que enlouqueceu ao contrário. A gente quer escovar os dentes ouvindo ela ler um trecho que achou bonito; procura o livro na mochila dizendo um me-lembra-você que parece tão despretensioso que a gente finge que nem se comove. A gente quer puxar a pessoa, do Olimpo pra calçada, onde dá pra sambar e tomar cerveja.
"Me dê a mão, vamos sair pra ver o Sol."
Mas às vezes a pessoa não gosta de chuva, não gosta de Sol, não gosta de samba nem vai a Ipanema, só bebe água. A gente descobre que os mitos não dançam. O barro quebra e nunca mais cola. É irrevogável.
O mundo cotidiano é esse outro. Onde acontecem atropelamentos, onde as contas exigem ser pagas, onde a gente vai à feira e sente o cheiro das frutas, o berro dos homens, aprende com o moço que vende flores a técnica certa pra se cortar o caule, brinca com o sobrinho no tapete da sala, onde os pastéis são fritos e a vida tic-tateia. Faz noite, faz dia. O mundo cotidiano tem cheiro imprevisto, do esgoto das grandes avenidas, do perfume da avó. Tem a tessitura dos fantoches de pano; mas o movimento e a crença de que não é uma mão, é vida de coelho em cartola, é do mundo sagrado.
Tem gente que fica na nossa vida costurando os tais mundos. Rala o joelho do mito. É um homem que faz poesia.
A gente fica atrás, meio zonzo. E a vida segue rumo anárquico.