Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Sábado, Junho 18, 2005
Agora me lembro que uma vez, nuns anos já-idos, era madrugadinha dessas de ficar zapeando os canais e num programa de auditório, uma dupla de breganeja cantava aquela música que diz que eu queria tanto estar no escuro do meu quarto, a meia noite, a meia luz, pensando, que eu daria tudo por meu mundo e nada mais.

E fiquei imaginando quando seria isso, de estar num hotel fuleiro e a noite ser imensa, minha solidão maior. Como seria sentir falta de poder ter madrugadinhas pra ficar zapeando e do calor da coberta, as paredes íntimas. De qual almoço de domingo eu ia me lembrar, querendo me sentar no mesmo lugar da mesa, querendo ocupar o mesmo lugar dentro de cada um daqueles que eu amava, ainda que fossem volvidos a eles uns olhos cotidianos, sorvidos com o café do costume. E daqueles dias púberes e chateados, quando eu preferia uma página amarelecida de Drummond ou um sono que atravessaria as tardes a participar da janta; comeria depois ou não comeria, mas a minha solidão sagrada não era pão que eu soubesse repartir; o que sobraria de lembrança, como tempo que se quer retroceder?

Pudesse eu, aos quarenta, ter a mesma família reunida e as sensações despreocupadas, pudesse viver um daqueles dias de maiô, de ficar largatixando, um daqueles dias repetitivos, pudesse sentir o sufoco dos minutos finais da aula de matemática, uma vez mais ouvir o barulho familiar e distingüir lá do quarto fechado os passos no fim do corredor e o jeito de bater na porta, o ruído conhecido de mastigar a comida, o mesmo franzir de sobrancelhas.

E agora me dou com esse sentimento, isso que é envelhecer e ver a mácula do tempo no lençol que já não limpa, pele que bebe das horas silentes, porque a gente não vê a rotação da Terra e cada pôr-do-Sol é um pôr-de-dentro.

Esse movimento eterno da procura de um escuro-do-meu-quarto, é a procura do útero que já não se adequa ao nosso rebento, que já não suporta a carne pesada de vivência, nem esse acúmulo de noites.

É na desproteção que vivo ao teu lado, dobrando as esquinas do nosso desejo, é na vertigem do teto que falta, das ruas de carros que cruzam quando todos já dormem que eu procuro abrigo, que eu procuro -desesperadamente- teu abraço.


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Sérgio Castro
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