Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Sábado, Maio 21, 2005
Meu Primeiro Homem
Música incidental: Adios Nonino - Piazzolla

"O Sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente "

Eu vou sentir falta do piano. Vou sentir falta da metade. Dele lendo Patativa e me marcando as páginas pra me mostrar depois. Vou sentir falta do seu olhar, de segurar o espelho pra que ele fizesse a barba.
As coisas passam como num filme. As noites que saímos pra buscar minha mãe no trabalho e ele me escondia no porta-malas, eu não agüentava e começava a rir no meio do caminho. "Uai, Rê, acho que tem um bichinho aqui no carro". De quando ele voltava do trabalho, eu corria pra porta e era tão bom e tão quente. Me lembro dele gritando nos domingos de manhã, tentando chamar meu irmão pra jogarem tênis. Ô banana, acorda. Ele chamava o Sé de banana.
Me lembro de quando ganhei uma camisa com bolsinho na frente e pus uma caneta, como ele quando vestido de funcionário do banco, Mãe, eu to parecida com papai?
Eu vou sentir falta dele fazendo bonequinhos com as tampinhas de refrigerante, com os palitinhos depois que terminava a refeição.
A Lyrian ontem estava me contando que um dia chegou em casa, tocaram a campainha, alguém abriu a porta. Ele, compenetradíssimo, estava e continuou tocando. Depois de algum tempo, meu irmão foi a sala, cumprimentou ela e o marido, Ah, vocês estão aqui?
Nem se dava por nada se estivesse enlaçado àquela amante feroz e envolvente. É com ela que hoje me deito, é ela que hoje me detona. "De onde vem essa sua relação tão forte com a música, Mari?"
Agora entendem?
Eu vou sentir falta das nossas discussões sobre o caráter do Pica-Pau, da minha avó, sobre as intenções dos sem-terra, os símbolos das partituras, "Toca no tempo certo, não tem pressa, música não é velocidade, Mari".
Vou sentir falta dele brincando com os cachorros. Do cuidado que tinha comigo a cada dorzinha de cabeça, brigando pra que eu desligasse a tevê e o corpo, velando durante as noites, se necessário. Melhorou?, era a primeira coisa que perguntava quando amanhecia.
Vou sentir falta de quando ele resolvia cortar minhas unhas e eu ficava uma semana inteira rezando pra que crescesse logo, com elas em forma de triângulo, retângulo, até que essa do dedo médio quase se assemelhava a algo mais redondo.
Vou sentir falta. De passar café e pôr Gismonti na vitrola. De misturar Fanta Uva com Guaraná e ouvir que vai explodir. De contar minhas histórias de bares, que conversei com fulano, que saquei a gaita, que até arrisquei cantar no microfone.
De sair no parque e jogar pão duro pros patinhos. De esquentar a bolsa de água quente. De dar beijo de boa noite. De ir garimpar discos nas manhãs de sábado e voltar duas vezes mais pobre, cinco mais feliz. De ouvir sem interesse as histórias dos carros, o carburador desse, o modelo daquele.
Sorvete de menta com chocolate.
Vou sentir falta de vê-lo feliz quando meu sobrinho chegava, da ironia, da alegria. Vou sentir falta de ir nos ensaios com a banda e sair com o peito estufado. Aquele ali, é, o do piano, tá vendo? É meu pai.
Vou sentir falta. Vou sentir falta pra caralho.

Agora voa, Pai. Que a gente - você e os que ficam - precisa, a gente vai ser feliz de novo.



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Terça-feira, Maio 17, 2005
Para Patrícia Misson, porque sempre suspeitamos que o Amor fosse espécie de dança. E dançamos.

Foi assim, muito de repente. Tava escuro, eu acho, não dava pra adivinhar senão o vulto das coisas. Daí ela entrou.
Me deu uma vontade de dormir, dormir até que algo se acendesse - um fósforo que lambesse o candeeiro, brasa noctívaga, uma causa, um pedaço de céu - dormir até que ela fosse embora. Porque meus olhos ficavam mais fundos, meus gestos mais lentos e eu via as coisas, elas eram coisas mesmo, transcendiam até certo ponto, mas era pouco, era parco, ficava dificultoso pensar no dia seguinte, no mundo lá fora.
O que mais me incomodava era a intempestividade da sua visita. Porque ela sempre vinha, discreta e queda, muito muda e rasteira quando alguém se ausentava, trazia doença no bojo, sabe quando tudo se desacerta, fica sem ritmo, sem rumo? E daí cansa acreditar, fazer grifos na página de empregos, manter as relações. Então ela vinha, mãos dadas com a solidão. Às vezes depois que a revolta estancava, que a bebida acabava, no quinto cigarro que eu queimava, um se alimentando do filtro do outro, três minutos de frenesi e impotência. Então ela batia na porta, três vezes, sempre três vezes, rodava a maçaneta e sentava na poltrona, pernas cruzadas, olhar que não via, deitado pra além da janela, pra depois da noite, no reverso de mim. E não falávamos nada. Ela não queria nada, tinha uma falta de apetite voraz. Não trazia saudade nem desejo de salvação ou liberdade, nem remorso. Arrastava o tempo, arrastava o tempo e o passo.

Mas um dia, foi assim. Ela falou passo. Eu, compasso.
Estendi a mão pra que dançássemos. Ela não sabia e tinha medo, você entende? Ela tinha medo de aprender e gostar, porque se desvirtuaria, seria outra coisa que não ela, seriam outros olhos, menos baços, seriam labirintos, outros braços.
E eu disse. Vai ser leve, eu vagareio.
Ela se levantou. Era tão bonita que quando tava comigo, eu não via mais nada. Era isso. Talvez houvesse gente, talvez houvesse asa, dia aceso, talvez paisagem, glória, linha do horizonte. E eu só via o beco.
Alguém passou na calçada, assobiando Ravel.

- É o bolero.



Me abraçou muito forte. Soltou os cabelos e rodopiou em volta do meu eixo, toda longínqua e inespecífica. Estava grávida de algo. Daí eu descobri que ela nunca trazia nada, mãos vazias, solidão, se lembra? Ela não trazia promessa nem deixava no copo marca de batom, nem no corpo voz de acordeom. Mas, grávida de si mesma, podia me trazer enrolado no vestido, o rebento mais vivo, porque havia conhecido ela. Quem passa por aquela mão, quem nasce daquela mãe e não padece, quem bebe daquele leite, mas não merece, pode encontrar a vida.

Desembaracei seus cachos, fui ateu, fui mulher e palhaço, paguei embargo, transei presságio, voltei ao porto. Me dei por morto, pesquei o peixe da fome, bebi da seiva do homem, matei a náusea, mudei de nome.

Virei seu corpo ao contrário, Tristeza rebenta.

E o bolero acabou.


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Quarta-feira, Maio 11, 2005
Ai de Mim

Tua beleza é mais acesa quando a luz se apaga.


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Domingo, Maio 08, 2005
São Paulo, 1º de setembro de 1978.

Eu nunca soube amar. Eu nunca soube amar a cada um. Eu nunca soube amá-los como indivíduos. Eu nunca soube aceitá-los como feios, fracos e lentos. Tragam-me um doente e não chorarei com ele. Mas me mostrem um hospital e derramarei rios e mares. Eu não sei falar e ouvir um homem, uma mulher ou uma criança. Eu só sei fazer coletivo, massa, povo, conjunto. Sou capaz de ser herói, mas não sou capaz de ser enfermeiro. Sou capaz de ser grande, mas não sou capaz de ser pequeno. Eu nunca dei uma flor. Nunca amei uma pessoa. E tenho amor. Dou desenhos, dou textos, escrevo cartas. Sem contato manual, sem intimidade, sem entregar. Por que desenho, por que escrevo cartas? Minha arte é fruto da minha importância de viver com vocês. Um dia, vou rasgar o papel que escrevo, rasgar o bloco que desenho, rasgar até esse recado covarde e vou me melar e besuntar com vocês, tudo com meu grande beijo. Vocês vão me reconhecer fácil: vou ser o mais feliz de vocês.

Henfil.


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Domingo, Maio 01, 2005
"No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo: As andorinhas é que mudam"

Quintana


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Sérgio Castro
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Palavras e Imagens

Fernanda-Irmã
Cotovelares
Misson, O Cara
Jordani Sou Eu
Castilho
Cat, A Mina
Leo Caobelli, O Iluminado
Phasmo, o Fantasminha
Ed, o Coelho Branco
Fernanda, a Imersa
Cris, o Furioso
Yane, O Monstro
Daniela, O Mito
Vitor, o Freire
Arara, a Teresa
Filipe, o Displicente
Coletivo

Tom e Vinicius - por Biagio Di Carlo
Lugares Bacanudos

Silvio Mieli
Na Orelha
O Dilúvio
Memória Viva
Vozes do Brasil
Mercado de Pulgas

... Flávio encara Marco, seu colega que fora acusado de furto no trabalho...