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Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”
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Quinta-feira, Março 31, 2005
Interminado
É tão complicado, meu Amor, é tudo tão dolorido. Quando as coisas deixam de fazer sentido, fica tudo tão custoso e longo, arranjar motivo pra levantar da cama e escovar os dentes, marcar o tal exame de sangue, dizer bom-dia, porque ele parece meio desbotado, cuspindo essa chuvinha rasteira e a música contorce uma bailarina que não sabe nem por quê dança.
E daí tudo parece mesmo equivalente, sem gosto, salvar uma vida ou comer um cachorro-quente na esquina, machucar alguém ou aprender química, pular do décimo andar ou escrever Crime e Castigo.
A minha angústia, antes, vinha da voracidade. Querer aprender russo, italiano, espanhol, assistir Buñuel, ouvir Hermeto, pintar um quadro, o sete, conhecer... vamos ver onde meu dedo pára, Estocolmo, conhecer Estocolmo inteira, o tédio, os fins-de-semana, o cheiro triste que fica apegado na carne quando o dia começa a se perder no horizonte, escurecendo as ruas, deitando os amantes nos leitos, família reunida ao redor da mesa. E fazer alpinismo, corrida, ballet, rapel. Queria açambarcar o mundo numa caixinha de sapatos e conversar com a moça que vende coxinhas, com o velhinho que sai antes que amanheça, com uma caneca de café preto, dia inda escuro e volta com cheiro de maresia debaixo da pele e quilos de peixe no barco.
Agora a angústia vem do desinteresse. Nada parece pôr água na minha boca.
O inferno que devem viver os moleques na Febem, todos milhões de subnutridos, um terço da população abaixo da linha da miséria, eu tinha obrigação de ser genial.
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Segunda-feira, Março 28, 2005
Que noite fria esse dia.
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"Yo no buscaba nadie y te vi..."
(Fito Paez)
Depois de tanto tempo atravessando as pessoas, de tanta mutilação e destroços de noite, de tanta pele, tanto vínculo e vício, tanto rosto e estranhamento, passadas manhãs brancas e silentes, os passos a se arrastarem indefinidos, depois de me haverem reclamado desse tom ríspido, acusado mesmo de desumano meu trato, eu pensei que a próxima pessoa a quem meu olhar fosse tombar, encantado, devesse ser selvagem como uma flor que vinga no deserto, que fosse passional e intempestivo como um bicho que se cria sob o signo da solidão e têm incandescentes os olhos feitos de madrugada.
Alguém desconfiado e esquivo, como um moleque que conhece a cidade depois que todas as luzes se apagam e dormem merecidas oito horas os justos, esses que têm em dia as contas, depois que todas as mortes se consumam. Alguém que tivesse tempestade nos olhos, trouxesse rijos os gestos indecentes, ira e impaciência nas relações e, fundamentalmente, alguém que mal recordasse meu nome (Marília? Marina? Marta?) e não reconhecesse minha voz ao telefone.
Esperava mais uma fera que um homem, alguém cuja doçura, em existindo, seria tão recôndita e pálida que desapercebida, um bicho cuja carência se transfigurasse em maldição e que carregasse junto ao corpo, secreta e pronta, uma navalha de corte preciso, que perpassasse todas as veias e caminhos.
Alguém que mais houvesse machucado que amado e me perseguisse, indissolúvel, em intermináveis estradas internas, meus passos sempre em desenfreada corrida, pra longe, pra tão longe dos seus.
Alguém que me perturbasse, violando qualquer carne descoberta, a paz, o sono, a fome.
Homem que mantivesse cerrados os olhos, se para mim.
... e você me apareceu sambando ...
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Sábado, Março 26, 2005
- Feliz Páscoa, cara.
- Mariana, hoje é sábado.
- Ah, a Páscoa é amanhã?
- Discernimento, né?
A gente ia compor um sambinha que começava assim, Meu Amor não é favor... Andor, labor, pudor, não lembro a rima. Se você pensa que meu Amor é favor... A idéia era essa, deu pra pegar? Uma coisa vingada, sentida assim. E o dia nasceu branco, carregado de nuvens. O samba lá, na ponta dos dedos batucando na lata, na ponta dos pés dançando na Lapa.
- Quando eu morrer, me enterre na Lapinha...
Esquece essa idéia de jerico, pô. Todos sambas bons já foram feitos, ó.
- Amor não é só juramento / que muita gente faz / Tem as conseqüências, aiai / Que são demais
Seus olhos estão sorrindo. Ficam tão bonitos assim, mais próximos. A pupila trêmula, a pele triste e arrepiada, os desejos na ponta da língua. E essa lua que mingua. Qual a obsessão dessa semana? Vamos tentar adivinhar o nome da próxima?
- diz que eu sou subversivo / um elemento ativo / feroz e nocivo ao bem-estar comum
Tsquidum, tsquidum.
Olha essa lâmina contra a luz. Meus sentidos já tão defasados, certo cansaço em lidar com o mundo. Tantas expectativas a serem cumpridas, supridas, superadas.
- Que bom que você veio.
Ele é tão bonito, sabe? Tão bonito. Homem desses não se encontra em toda esquina, em qualquer quinta. Casava facim-facim com ele.
- Mas não sei o que será / Quando chegar a lembrança dela / E de você apenas restar / A mesma rosa amarela
Preciso tomar um banho. Tirar esse cheiro de orgia do corpo.
Tá fazendo um ano, cara. Parece que foi ontem, nem ontem, parece que foi hoje.
- meu sabiá, meu violão / e uma cruel desilusão foi tudo que ficou
Porra, pelo menos nesse o violão ficou. Aquele da Rita, sabe?, nem isso... Acabou mudo.
- Me faltando as suas carícias, as noites são longas e eu sinto mais frio.
Esquece, véi. Esquece. Todos os sambas bons já foram feitos.
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Sexta-feira, Março 25, 2005
Sexta-feira da paixão. Da Paixão.
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Quinta-feira, Março 24, 2005
"O Amor é a dor mais obsoleta", ele sentiu sem palavras, sentiu só de sangue corrido, quando Vera tirou a rabeca de cima da cama como quem tira um pedaço de madeira, não de ternura. Era o instrumento que seu avô lhe havia feito, imerso na escuridão e encanto daquele comodozinho no fundo da chácara, que recebera o nome de Casinha dos Milagres. O tio falava debochadamente, pitando cigarro de palha e rindo seu riso comprido, rouco: "Seu João deu pra endoidar, depois de velho quer reconstruir o mundo". Não era bem o que tencionava, esquecido mesmo de que ele - o mundo - existia, girante, enquanto obrava, cantarolando, inventando caixinhas, tirando peça de radiola pra testar liquidificador, botando tubo de ensaio em vidro de mostarda, consertando bonecas da meninada, recitando cordéis de memória. Seu Juca dizia que dia qualquer, perigava sair um Frankenstein lá de dentro e fato foi que ficaram todos meio alardeados, anteninha em pé, quando seu João começou a olhar demorado, expressão pensativa, pupilas vítreas pros sapinhos na beira do riacho: quando as experiências atingissem o reino animal, a coisa ficaria mais séria e todos seriam -quem sabe?- vítimas em potencial.
Tudo isso aquela rabeca lhe arrastava à memória, bem como o cheiro dos tempos esmorecidos e doce de abóbora, a velha figura imponente, de galhos a se perder de vista, a bicicletinha azul e a sopa de cebola da avó, seis horas da tarde, ssshurp, e as colheres fumegantes levadas à boca.
Ter memória era ferida que o tempo não supurava, ao avesso: acendia. Folha de pimenteira, algodão embebido em álcool, simpatia de rezadeira: não havia paliativo. Deixava a fotografia em preto-e-branco pendurada à parede de madeira e infância. O pião, pretérito, rodava as horas sangradas da tarde.
Gostava de tirar a casca das uvas e partí-las ao meio, então escondia as sementes debaixo da terra molhada, enquanto rezava uns versos de improviso pra ser sombreado por uma árvore bem doce. Aos 15, conhecera uma parreira, desistindo da sombra, esquecido da reza.
Mas Vera não sabia, não tinha lembrança de avô nem baú com recorte de mulher pelada, figurinha e botão debaixo da cama, não lembrava de prima alguma que espiara pela fechadura do banheiro, nos instantes trêmulos de uma noite perdida no tempo. Não carregava nenhum cemiteriozinho de lembranças brancas.
Não. Amor é coisa obsoleta.
Deixar que o trator passe por cima dos meus enredos, disco de bolero, negativos. Reinarão impérios de poeira sobre meus escombros de poesia. Deixar o velho engenhozinho virar fábrica, a quitanda do seu Mané, hipermercado, a Vale do Rio Doce ser vendida a preço de banana, estatizar a Petrobrax, deixa. Deixa as multinacionais assolarem nossas possibilidades, o negócio é abrir as pernas, se juntar aos fortes se contra eles não podemos, cinquenta anos em cinco, eu sei, a história é antiga e tome milico invadindo as esquinas calmas do domingo, tome grupo de extermínio, tome Plano Patriota, viva o milagre econômico, governar é abrir estradas.
A minha, de terra batida, foi asfaltada. E vamos deixar de ser selvagens. Pra que saber quem foi Câmara Cascudo? Deixa o Patativa cantar noutro galho. Gonzagão é coisa de matuto, bota aí Britney Spears, jaqueta blue jeans, vamos socializar junk food, Mac Donald's e Coca Cola pra todo mundo.
Ah, que cansaço! Queria cachaça do alambique de seu Zé, som do piano de meu pai rasgando o corredor do que fui, comida de casa. Queria poema de Manoel de Barros, olhar demorado, um livro de páginas amarelecidas.
Vinícius tinha razão, para viver um grande Amor, o mistério é ser o homem de uma só mulher, pois ser de muitas, poxa, é pra quem quer, não tem nenhum valor.
Ter um vestido branco guardado no fundo do armário, a folha rota de um poema escrito em mesa de bar e uma lua pro inconfessável, pra uma dor obsoleta como essa que carrego, fardo que me levita, crucifixo pro meu ateísmo, glória da minha guerra.
Não caio nesse conto da carochinha, neo-futurista, pós-pós-moderno: "Você é um parafuso, substituível, perecível, facilmente (es)tragado por essa engrenagem que faz o mundo rodar".
"Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos... vai reduzir as ilusões a pó..."
Já admirei o Amor das últimas putas errando uma madrugada dentro de mim, ácido, passando cigarros e tragos, de mão em mão, sem rosto nem gosto, se marca deixava, era o escarlate de um batom barato no lençol rasgado. A alucinação das metrópoles, desconforto em elevador: ninguém se encara porque pode acontecer da gente se lembrar que é gente, quando o seu olho esbarrar, em desaviso, no meu. Pode acontecer de Vera entender o que não é madeira na rabeca, o que não é nota na partitura, o que é entrelinha no homem. Daí a máquina pára, a produção pára, a economia desestabiliza. Pode acontecer de uma dor carcomer tudo por dentro furiosa, violenta: irretrocedível.
Melhor não, tchá pra lá. Amor é dor em desuso.
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Terça-feira, Março 22, 2005
Fraco, tristíssimo, exausto. Enxugou as lágrimas no lençol branco. Na minha retina, gravada pra sempre a imagem, os rictos de febre e convulsão, a boca de onde espumava uma dor branca, espessa. Perguntou pela minha mãe. Quando seus olhos se cruzaram, se anuviou a dor, a maldita tarde, a vida toda que poderia ter sido e não foi. Sorriram.
Agora posso acreditar no Amor.
Tudo vai ficar bem. Não é?
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Viva Wandi Doratiotto!
(observações inconclusas e embasbacadas sobre grandes pessoas)
Eu acabei de ouvir uma das histórias mais lindas da minha vida.
A impressão desses últimos meses é de ter atravessado períodos de tanta dor que fui ficando um pouco calejada e o choro em tempos outros tão recorrente, abafado e secreto, foi se tornando menos costumeiro, mas quando vinha, era sempre doloroso e contínuo, com os fones no ouvido e um aperto que ia se estendendo ao longo do peito da casa do dia.
Dessa vez as lágrimas me assaltaram, vista fixa no monitor, nos gestos daquele homem de fala parca e um brilho nos olhos que duvido muito que proveniente do reflexo da câmara, luz do estúdio incidindo na pupila. Aquilo eu reconheço: é vida.
José Luis Zagati, catador de papel e apaixonado por cinema. Dessas histórias que parecem ficção, por fantásticas e incríveis, Cinema Paradiso, as Bicicletas de Belleville. Foi juntando películas, como em retalhos, pedaço em preto-e-branco, pedaço colorido, "cada fotinho dessa conta uma história", achou projetor no lixo e fundou o primeiro cinema em Taboão da Serra. Ia andarilhando e passando pela periferia, encontrava uma favela, conversava com o pessoal da comunidade e num domingo combinado, exibia o filme na praça, a mulher estourando na panela pipoca pras crianças. Custeando tudo, sem verba nenhuma da prefeitura. Depois de algum tempo, conseguiu que uma locadora deixasse ele alugar fitas sem pagar nada. Foi chamado pra política, mas recusou, seu talento não é esse e meneia a cabeça de modo a dizer que não tem nada a ver com essas gentes, não.
Olhem pras periferias, ele suplica no final do programa.
Há quem veja "o povo" - massificar é tão confortável - como uma mulher que chora copiosamente num dia em que o Gugu visita sua casinha tão humilde, oferecendo pão amanhecido, abrindo as portas do armário da filha do meio: "A gente adora seu programa, olha só, Larissa tem três pôsteres teus".
Só passa lixo na tevê porque o povo - ó lá ele de novo - assiste e gosta, não houvesse audiência, não estaria no ar. Você tem o controle remoto nas mãos. Pode escolher entre o Ratinho, o Faustão e o Leão Lobo. Entrar no zoológico e escolher a jaula dos horrores, fica a seu critério. E ainda tem tevê por assinatura. Vai dizer que não é a maioria que pode pagar payperview? Ah, que absurdo... Tanta gente perdendo os melhores momentos do Big Brother. País mais injusto, meu Deus...
Na Febem estouram as rebeliões. Os monstros, faca no pescoço, arma improvisada. À toa, nasceram assim, tá no gene. Porque o pai bebe, a mãe é puta, o irmão morreu no tráfico, vai perdendo as gentes, ouve mais som de tiro que de batucada, a vista do morro dá prum lindo outdoor, Just do It. Ele nunca teve Nike. Ia pra escola ganhar leite em pó, déficit de atenção, tendências agressivas. No primeiro dia só não desenhou um homem degolado caído do lado de uma faca porque não tinha folha sulfite nem lápis.
Dostoiévski - Wandi Doratiotto
Se Dostoiévski viveu lá na Sibéria
E não se congelou
Entre facínoras, dementes, assassinos
E gigolôs
Se Dostoiévski vivendo na cadeia
A tudo observou
Recordações da Casa dos Mortos
Ele ali gerou
Por que que eu, vivendo livre em Ipanema,
Nada produzi?
Será que o Sol em demasia em minha testa
Foi queimando o meu QI? que é isso...
É muito chato, gente
Me sinto um empecilho
Eu não plantei uma árvore
Não escrevi um livro, não tive um filho
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Domingo, Março 20, 2005
Quantas vezes precisarei tecer tuas estradas para desinventar meus caminhos?
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Queria ser menos pulha às vezes...
Fui passar remédio num corte que minha mãe fez no braço. Comecei a chorar, porque fiquei pensando em quantos mais fundos eu não fiz por dentro dela. E não tem gaze pra passar polvedine lá.
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Sábado, Março 19, 2005
É que no fundo, a gente é isso mesmo: uma vontade de ir, outra de ficar. Algo que quer emergir, coisa que quer ancorar. Barco que sonha partir, remo que afunda no mar. É um jogo de forças, opostas. Uma mão que impede, outra que chama. A direita estende o veneno, a esquerda, o antídoto. Algo procura a saída, o que me salva, o que me ceda. Algo se detona e resigna, pára na estrada. Um corpo prostrado.
Eu aqui, tentando falar com você, não consigo. Te queria agora, pra me anuviar as confusões e culpas, pra me ajudar a entender que cada um, bem ou mal, sofre do seu jeito e Ama de forma igualmente pessoal. Essa coisa de ter de fazer a conversão é que é complicada. Às vezes fica um falando em hebraico, outro em italiano, um terceiro em russo, os nervos à flor da pele, sem entender
que estão a sentir dor conjunta.
Ele já não é o mesmo, meu Amor. Eu ia dizer que desde que voltei, mas me lembrei daquela viagem -lembra?- a viagem de despedida, em que ele me acenou, últimas forças. O humor cáustico e certa confusão, não conseguia direito amarrar os cadarços, achar a chave na blusa, mas qualquer coisa como um brilho secreto no olho, ele preservou. Agora a figura se esfarinha, o homem que vida toda tive já se cansou e às vezes me espia pela fechadura, me chama pra ver as vespas gigantes no discovery chanel, põe chantilly no café que faço à tarde, algum comentário engraçadinho depois de uma mudez dura e triste, fala que o baixista desse disco do gismonti já esteve hospedado naquela pousada em que fomos.
E é difícil olhar pra esse homem muito alto e magro, que mais ostenta ossos que carne. Esse homem que reclama das coisas todas porque já exausto delas, do computador que não funciona como devia, da lígia que fala mais do que devia, da faca que não corta como se anunciava no reclame, da carne salgada demais. E a exigência obsessiva dissimula certo desgosto pela cidade pelas pessoas pela vida.
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Pra que Entender?
Eu tendo a achar que só quando estamos com nossas carências e frustrações devidamente bem-resolvidas podemos nos dispor a gostar de alguém, verdadeiramente. Mas isso tudo se mistura. Talvez porque esse ideal de nos termos entendido não exista como realidade, porque sejamos sempre esse pai que não tivemos, a filha que não fomos, a amiga que não veio. Sejamos sempre a espera, a iminência. Sonho de ter uma vida sã. Porque dependência e amor são coisas tão diversas. Se escorar no outro pra encobrir o vazio do tempo, dos dias, de dentro. Culpar o outro por não suprir as expectativas que NÓS criamos.
Eu sou um lobo, poço de carência que não se supre com carinhos. Me esquivo da mão que protege, do corpo que abriga. Busco a tempestade e os subúrbios, não me venham com guarda-chuvas e promessas de coisas que nos satisfaçam as misérias, com argumentos de calma, aguardentes pra alma. Eu gosto das calçadas e da vida por detrás do vidro, do vídeo. Eu já ouvi o canto desafinado que trazem as mulheres de realidade mutilada e peito em carne-viva. Não conhecem a língua das partituras.
Tantas foram as vezes que não cheguei a te entender. Você já deveria ter se dado pelo fato de que, sendo tu quem és, há de sempre suscitar desejos que, por grandes ou maciços demais, não serão saciados. A sensação de impotência, depois aprendemos a sublimar, passadas as madrugadas frias por fora, em brasa por dentro.
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Quinta-feira, Março 17, 2005
Por todas as noites convulsas, meus olhos se pregam nos teus e só quando começa a amanhecer, me lembro que eu te Amo, menina, você do meu lado. A gente sempre tão disposta a se machucar porque a viver e desconfiamos desses que preferem se preservar. Além de todas essas vaidades e incandescências, a brilhantina dos meus amores de duas horas, que entre assim, como o Sol desvirginando a madrugada. Quero sentir a dor dessa manhã.
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Quarta-feira, Março 16, 2005
Doce de Coco
Tu sabes bem quantas portas tem meu coração.
Essa coisa de que quando homem pega pelo estômago a coisa fica séria pode até ser verdade. Mas deve ser porque não sabem o que se dá quando pegam pelo ouvido.
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Segunda-feira, Março 14, 2005
Foi então que da minha infinita tristeza aconteceu você.
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Sexta-feira, Março 11, 2005
Eu não entendo muita coisa. Quer dizer: nada. Eu não entendo nada. Dos dias que rodam, sucessivos e comigo dentro, segue girando e eu no encalço do tempo, das horas inchadas de tédio e ternura. Estou mergulhada num niilismo que me arrasta até a beira da praia, onde me choco contra as pedras da realidade, onde a vida prossegue seu ritmo constante, como uma respiração, como militares se exercitando no pátio, um-dois-um-dois-um-dois. Vai até a náusea, onde estouro num grito de decibéis desconhecidos.
Às cinco e vinte da manhã, desço do ônibus junto com três moços, calça social, compenetrados no passo e no dia que ainda não clareia - deve ser mistura de sono com pressa e nojo. Marcham. Tudo me parece triste, faz calor. As noites perdidas, noites sujas, perdida. Ao menos não acendo cigarros imaginários.
Ainda não posso chorar.
Me perco entre comentários de destruição, entre meus destroços. Eu já procurei por ali, sentido. Devia ver em outro canto. Eu tava achando, tava vendo beleza, mas de novo se turvou.
Eu preciso comprar um pandeiro.
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Quinta-feira, Março 10, 2005
Da Necessidade de Comunicação
- Moço, seu cadarço tá desamarrado.
Ele levantou o rosto, num sorriso meio atabalhoado, desses de quem é, de repente, requisitado pro mundo, tão imerso nos próprios pensamentos que havia esquecido que existia um desses, girantes, com guerras, senhores, tomates e cadarços desamarrados dentro. Olhou a menina nos olhos, de onde proferia a voz, o chamado. Seu cadarço. Desamarrado. Trouxe-os de encontro ao pé e viu as duas havaianas, já bem sujinhas. De novo, olhou a menina. Nos olhos. Desamarrado? Cadarço?
- Desculpa, é que eu queria puxar assunto, não sabia como.
- Podia me perguntar as horas, funciona.
- Você tá sem relógio.
O pulso soerguido.
- Filho da puta! Me roubaram o relógio.
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Terça-feira, Março 08, 2005
Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa:
É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem.
Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.
(Eduardo Galeano)
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Segunda-feira, Março 07, 2005
Agora te aceita, menina banhada de noite, empunha essa espada afiada pela ira, azeitada pela glória, te aceita entregue à nudez, expectada por olhos desconhecidos, tardios e trêmulos. Tu, que já não sabe que(m) és, e traz incertezas e vestígio de dor, carne-viva. A pele se avermelha, em ruptura. Às vezes a poesia se desfaz, em areia, o que há antes da palavra, do som, a angústia que fez o primeiro homem inventar voz e chamado, criar a fome e o desejo de estancá-la. Tu és inteira libertina e já desconheces o pudor. Costuramos a roupa pra nos despirmos, a palavra, pra silenciarmos.
A menina que dança e morre em mim todos os dias pede um pandeiro e o sossego de um colo. Estende a palma da mão para encontrar a pele do teu rosto de olhos profundos. Atrás desse corpo, deve haver uma alma.
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Sábado, Março 05, 2005
Eu não sei, querido, porque eu faço essas coisas, porque ajo de maneira tão displicente, coisa de moleque, de quem não tem vínculo com nada mesmo. Agora estou pensando, uma ressaca moral absurda, desnorteante, a gente sempre busca voltar pra casa mesmo, esse velho conhecido, emergir das nossas profundezas, desse inferno. Eu tenho chafurdado na minha merda, na miséria, essa coisa de ser filho da puta conscientemente, sem entender, com requintes de crueldade. Que temos esses covis fica inegável, mas por quê morar nessa caverna, fazer dela nosso cartão de visita? Eu tenho vestido essa roupa de canalha, me olho no espelho e tenho vontade de quebrar o reflexo, a menina, o rosto, deixar meus dedos sangrando. Porque parece que me odiar me redime um pouco, a consciência disso nos torna distintos. E como eu sei machucar as pessoas, como sei fazer mal, tirar a patinha dos insetos, lentamente. Talvez por isso não estejamos juntos. Você me respeita demais, parece que eu busco quem me espezinhe, porque dá a impressão de que vamos nos fortalecendo assim, ouvindo na cara o que somos. Eu busco ser desmontada, busco acordar na sarjeta, arranhada, maltrapilha, roubada. Me sentir bem me desnorteia, parece que estou cega pra alguma coisa. Porra, tem gente morrendo de fome, comé que eu posso estar me sentindo bem? Como se o fato de estar me sentindo uma merda salvasse a humanidade. Acho que precisamos acreditar nos valores humanos, acreditar mesmo que indistintamente, de dentro pra fora e à vera. Eu preciso acreditar que não somos calhordas, que vale a pena estar nesse grupo, Homo Sapiens Sapiens. Sim, Adélia Prado acha que deveria pedir perdão todos os dias por não ser Deus. Eu preciso criar flores, ter um jardim, preciso acreditar no amor, levar o café da manhã pro meu pai. Mas só tenho feito cagadas. Só tenho me estragado, e parece que eu busco isso. E você diz Não, Má. Me perdoa, me seca as lágrimas. Parece que eu busco quem me xingue, me aponte todos os defeitos, em ordem alfabética, numa lista. Menina mimada que sempre teve tudo. Eu sempre tive tudo, porra. Às vezes fico brincando de desmontar as pessoas, coisinha estúpida. Agora quis te ligar. Chorando, chorando muito. E pedir desculpas, não por não ser deus, mas por não ter conseguido nem mesmo ser humana. Tá doendo tanto, meu menino.
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Quinta-feira, Março 03, 2005
Três coisas, eu tinha três coisas pra resolver. Ladrilhar a rua, se fosse minha, pegar o ouro, houvesse arco-íris e chorar até o fim da tarde. Depois viriam as debêntures, todas muito dispensáveis. Cenouras, Bombril e o jornal de ontem. Ler de trás pra frente e embrulhar um pedaço de fígado cru, misturando o sangue das tragédias com o da vaca. Eu sei que tropecei num pedaço dela em mim. Um sutiã amarelo, esquecido. E fui farejando, sobre as pontes do meu rancor, o cheiro do meu erro, do meu erro na pele branca da menina, da menina. Fui ficando assim, meio surdo, assim, meio avesso, o amor na prática é sempre ao contrário, ouvi a rádio mal-sintonizada informar. Um pedaço de lua entreposto, salgado, no meu prato cheio de sopa. Até que eu me fisgo, meio lunático, no fundo do prato minguante, deserto inteiro em mim. Uma flor do cerrado, uma mosca. Eu não tenho altura nesse tédio, não, não tenho verdades agora, rumino o essencial, esse verbo solto e inútil, inútil. Relógio que ladra e me escapa, morde o próprio rabo, ponteiro atrás de ponteiro, segundo. Péra só um segundo que eu resolvo todos os problemas do mundo, o barril de petróleo, a inflação, a chacina, a carga tributária, o narcotráfico, a falta de diálogo nas famílias. Só um segundo. Não vai mais precisar de hospício, terapeuta, dentista, não vai ter um moleque no sinal, analfabetismo erradicado, um segundo, só me ensina que o amor existe, ainda existe, porque tá tão difícil acreditar...
P.S.: Juliana, querida, eu tava lendo seu blogue, achei lindo, umas coisas muito bonitas, umas dores muito minhas. Mas a idiota aqui não conseguiu achar seu e-mail nem entender como faz pra deixar comentário lá...
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Quarta-feira, Março 02, 2005
Umbigo, meu nome é umbigo. Se me fez tombar de angústia, é porque fez sentido. Não dou ouvidos nem peço conselhos. É, é uma vida autista. Só é real o que convém à realeza. O mundo não é um jogo de palavras. E ainda tem quem financie minhas crises. Sem estímulo, sem sentido. Mas o quê? O que era mesmo?
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Resposta (Maysa)
Ninguém pode calar
Dentro em mim
Esta chama que não vai passar
É mais forte que eu
E não quero dela me afastar
Eu não posso explicar quando foi
E nem como ela veio
E só digo o que penso
Só faço o que gosto
E aquilo que creio
Se alguém não quiser entender
E falar pois que fale
Eu não vou me importar com a maldade
De quem nada sabe
E se a alguém interessa saber
Sou bem feliz assim
Muito mais do quem já falou
Ou vai falar de mim
Muito mais do que quem vai falar
Ou já falou de mim
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Minha Sina
É assim: meu canto enlouquece. Se eu paro, morro. Se continuo, mato.
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Sérgio Castro
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Palavras e Imagens
Fernanda-Irmã
Cotovelares
Misson, O Cara
Jordani Sou Eu
Castilho
Cat, A Mina
Leo Caobelli, O Iluminado
Phasmo, o Fantasminha
Ed, o Coelho Branco
Fernanda, a Imersa
Cris, o Furioso
Yane, O Monstro
Daniela, O Mito
Vitor, o Freire
Arara, a Teresa
Filipe, o Displicente
Coletivo
Lugares Bacanudos
Silvio Mieli
Na Orelha
O Dilúvio
Memória Viva
Vozes do Brasil
Mercado de Pulgas
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