Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Terça-feira, Fevereiro 22, 2005
"No entanto, é preciso cantar
Mais que nunca, é preciso cantar"

Deliberados, meus gestos libertos e agressivos, têm sido minha forma de expressão. A ira, a mágoa, a dor em flor. Por haver, hemorrágica, tanta forma de miséria e padecimento. Eu preciso usar essa angústia pra afiar meu instrumento e me reergo, sobrevivente de batalhas surdas e incríveis (imaginárias?), movida pelo meu ódio, desejo de cutucar e atrapalhar o andamento dessa carroça que se traveste de desenvolvimento. Uma formiguinha tentando mastigar a pata do elefante. Esses que se alimentam da fome, alastram a ignorância, distribuem vendas, profetizam o apocalipse.
Por sentir que tenho que contribuir, balas de metal ou mentol, fazendo cócegas ou poesia, insisto. Quero ajudar a quebrar o pragmatismo, a arrogância, a mesmice.
Gaguejamos. Sofremos. Arranhados e bêbados, pra suportar. Seguindo a marcha de uma massa visguenta e niilista. Por tantas dores, apesar das dores, mais que nunca, é preciso cantar.


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Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005
Ando descalça pelos subúrbios de mim e meu pé sangra, caco de vidro, terreno lodoso. Quero desaparecer, desabar muralhas, Você fica usando isso de escudo, menina. Sou cheia de escoras, tijolo por tijolo num desenho lógico, cavo mentiras, inteira profana, minhas veias inchadas sobre a carne dilatam o sangue das minhas mentiras. Não tenho. Fui a nódoa.

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Domingo, Fevereiro 13, 2005
A Pedidos

... eu acho que cultuo vaidadezinhas inventadas pra aliviar meus grilos metafísicos...


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Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005
falta palavra dentro do espanto, encanto, falta letra pra dizer quando se chega e nada sabe. Ali, no ponto luminoso, vem a mudez como brasa, a nudez como casa, por dentro, fogo brando quebrando a razão, falta metro, grau, falta língua de gente e jeito de pé, torço um tropeço porque nem o verbo redime, nenhum som carece vivo, olhos esbugalham-me o feijão na sala de estar-não-estar. Estarreço sem fuso, não sei desenhar espera, grito de bombeiro é tarde já me incendeia o que de pensa-mente vinha e era, não sei desenhar espera, faz café a elétrica com cheiro de pó na manhã inteira, grudada na insônia das minhas horas caducas, lambrusco, finji que eu era menina, mas de olhos fechados ninguém me vê e aí aconteço-anoiteço como bem me aprouver o susto e o gosto da língua caiada, caída, alguém me serve um verso?

Escuta, a tua menina me enrola na noite de outrora, a tua verdade me nada diz.
e foi aí que a poesia nasceu, entendeu? raiou o dia que mexeu o café co cabo da colher, raiou o latim desesperanto a nave da boca e o olhar pousou entre o quase e o cais, onde não existia som nem água, canto primevo das ondas tristíssimas, ele desceu até o minueto, dorémifez famirétudo e acabou me esquecendo na ponta da praia, da língua, do lápis.

(Eu ia salvar o mundo quando tinha quinze anos, mas daí fiz dezesseis.)

Quebrei o vaso da mãe, Zinho.
Mas já quebrei as esperanças de ser juízo de posse, o luto de Dinda me refez ao avesso e chorei dentro da madrugada, mas daí não cabia mais meu corpo na noite e amanheceu, a lágrima borrando o céu que era preto-retinto e foi virando todas as outras cores de que ele é feito, porque do preto vem a luz, a primeira preta que deu a luz macumainhabrasilicamente, desertou o miseritudo. Surtiu efeito lá pelas três da manhã, quando o brinquedo nas mãos do acaso era marionete nas mãos do descaso. E eu chorei. Não quis saber do solasidólar.


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Aqui Dentro

"Estou me contradizendo? Muito bem, estou me contradizendo.
(Sou enorme, contenho multidões)."
Walt Whitman

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

e. e. cummings / tradução : augusto de campos



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A Mesma Rosa Amarela - Carlos Pena Filho
(Musicado por Cabipa)

Você tem quase tudo dela
O mesmo perfume
A mesma cor
A mesma rosa amarela
Só não tem o meu amor

Mas nestes dias de carnaval
Para mim você vai ser ela
O mesmo perfume
A mesma cor
A mesma rosa amarela

Mas não sei o que será
Quando chegar a lembrança dela
E de você apenas restar
A mesma rosa amarela


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Terça-feira, Fevereiro 08, 2005
Por Estes Dias Banais

Que bom, meu Amor, você voltou. Pensei, pensei que nunca mais viesse. Sempre que vais embora é assim, afinal. As ruas ficam vazias, o tempo nubla, tudo cinzeia tão de repente, tão infinito. O gosto, sabe o gosto das uvas, do tédio, o ar frio de São Paulo, da garoa, o cheiro da gasolina, tudo fica meio pastoso, insosso, tudo fica assim, meio indiferente. É terrível. Sair pra comprar pão de manhã e receber o dia, receber os dias, terça, domingo, feriado, é tudo tão igual. Eu tento discos na vitrola, trechos de livros que sempre me deixaram na carne uma sede de coisa que eu não identificava direito o que era. Busco as companhias que, no normal, me botam dança no passo e um sentido bonito, uma cor brejeira, qualquer reminiscência, bebo mais, café? Umas dez xícaras por dia. Em compulsões e colos, em braços vazios, me posto na frente de tudo e rasgo meu peito, rasgo blusas, rasgo mágoas, machuco, escolho lâmina, esfarinho veleidades e tudo me parece tão banal sem você. Sem você.
Ah, poesia, minha poesia, "nunca te ausentes de mim/ pra que eu viva em paz/ para que eu não sofra mais/ tanta mágoa assim/ Num mundo sem você".


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Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005
Eu abracei seu corpo nu tão vazio de tempo, quantos séculos enfileirados e mal-quistos não havia nos meus olhos?, lambi sua alma exposta como um filhote, entendi sua inconstância e do meu desejo ao teu, desci a escadaria do metrô, pra que nos despedíssemos e sua imagem fosse se distanciando de mim assim, milímetro por segundo, ao mesmo tempo que eu digerisse teu vôo, que aceitasse seu desprendimento sem cordões. Pássaro que canta fora de estação é tristeza. Eu quero te compreender quando voltar cansada do trabalho, eu quero te absolver quando matar um policial, eu quero te amar quando formos a saudade do que ficou.
A memória é branca, te vejo lavando os panos de prato com cândida, debruçando no tanque de quando em quando pra avistar a existência frágil de um bem-te-vi, pra se espantar com a aquarela do céu desbotado, pra passar as costas das mãos na testa.
Eu quero te querer quando formos velhinhos, bem velhinhos, dando boa-noite pro cara do jornal nacional, eu quero apagar o abajur que te incomoda a noite e desligar a tevê, mesmo que você diga que os olhos fechados são só pra escutar melhor a notícia, tentar imaginar, quem sabe? Quero um cachorro bobo e marrom que substitua o outro, que nos cubra as ausências, que nos negue a carência, o buraco que sempre estamos a tapar, a encobrir, a falsear.
O silêncio é terrível porque esconde a possibilidade de todas palavras, de todas verdades. Então me calo pra dizer o não-dito, pra que ele fique iminente, em sobressalto, feito chuva em dia de nuvem preta, algo que te desassossegue porque não te quero de uma maneira certa e límpida e justa.
Te quero feito um açoite. Testando o corte da minha faca na sua carne de espanto. Encanto pássaros e desejo.


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Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005
Eu quero morrer enquanto a chuva não pára, vou colar os caquinhos desse edifício que desabou dentro de mim antes do tempo. Quero compor algo sobre a nossa ausência, meu amor, quero descobrir a melodia do nosso silêncio, esse respirar úmido da tua boca perto da minha. Quero alegrar teus abismos.

Solta palavra amplifica voz de metralhadora pisa então apavora, queda louca dos braços brancos enquanto desce teu mundo tanto, entretanto chove a noite aqui embora sou-me pranto em cais de outrora, estoura a língua presa preta anuvia meu gás antanho, câmara de sufoco em estribilho, falo fundo em profecia, já jazia o corpo doce, a hora plana, céu de estanho, roldana, Estácio no samba palmeira onde canta meu império indeciso, impreciso, batucando, sol quebrando poenteia, dá cadeia esse discurso, sobe em mesa de boteco, panfleteio essa desgraça, embora haja, haja sonho no meu dentro pra caber além do peito, vaza o cada, resta o tudo, antes de muito, quase.


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Prática da Relatividade
(Cacaso)



Meu namoro com fulana foi uma trepada
que durou 6 meses. Minha trepada com beltrana foi
um namoro que durou uma tarde...


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Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005
O homem vesgo de idéias trombou comigo no metrô, eu sorri descompassada, eu queria a estrovenga, quebra queixo no meu decote, sou alabastro, segue seguindo, chove chuva choverando, eu não tomo banho, eu tomo café, eu não tomo coragem, eu tomo pinga, não sei de instrumento, viagem, sei da cabaça, cachaça, que rói por dentro, me espeta por fora, pode sair um bilhão de idéias da centopéia de dedos longos como os da minha tia Gylsa, ela tinha uma caixa de esparadrapo e um instante de colecionadora: catava morcegos e delírios na escuridão, ela tinha os olhos dourados de futuro e quando dormíamos no sótão, desamarrava o tédio porque eu sentia medo de saudades de pai e mãe e acordava sem poder me levantar a hora que eu quisesse, não podia brincar de insônia e construir amigos nas cabanas de cobertor.
Eu queria ser feliz de uma felicidade desmontada, tresmilinguida e instável, assim, tremelicante como o laguinho quando a gente joga uma pedra que ressona e vai doendo até a casa do sapo na beira do rio, quando o sapo canta, ó maninha, diz que ta com frio. Maninha de trancinhas e pés corridos, ela voava com meus desenhos, a capa de superman, era uma menina de óculos de mergulhos, eu queria saber assobiar e tomar sorvete de framboesa, as cores me desfuncionam o amargor, taca um pouco de sabor na solidão do grito, amplifico, as casas presas de grades e bichos, eles uivam, a dor me estremece os sentidos e a câmera não clouseia no meu pânico, não saio de casa, não saio de mim, se eu der um passo pra fora vai doer e me ladram, me roubeiam em golpes, me estupram as dessemelhanças, eu tomo iogurte com cereais, eu como torradas com queijo branco, eu ligo a tevê, eu desligo a tevê, eu sou livre na mansão dos meus centímetros quadrados, eu sobrevôo a tardinha com a vista panorâmica, eu parapeito na piscina transatlântica, quero me afogar, esconder debaixo dessa tua saia pra fugir do mundo, eu não to entendendo o sentido. Deve haver um Sentido haver deve um Sentido um sentido deve haver.

Grande sertão de dentro enfurecido pela sua lábia, pela sua cor em desmonte cega feito alumeia, paralisa meu desnorte branco, cadavera o meu deslumbramento, fazei do ódio, senhores, fazei do meu ódio borbulhado, espesso, a minha arma de afiação, eu desafio seu império torto com meus monstros de assombração. Faço armadilhas de riso e tropeço, teço poesia com sua ignorância, eu sobrevivo,


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Sérgio Castro
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Palavras e Imagens

Fernanda-Irmã
Cotovelares
Misson, O Cara
Jordani Sou Eu
Castilho
Cat, A Mina
Leo Caobelli, O Iluminado
Phasmo, o Fantasminha
Ed, o Coelho Branco
Fernanda, a Imersa
Cris, o Furioso
Yane, O Monstro
Daniela, O Mito
Vitor, o Freire
Arara, a Teresa
Filipe, o Displicente
Coletivo

Tom e Vinicius - por Biagio Di Carlo
Lugares Bacanudos

Silvio Mieli
Na Orelha
O Dilúvio
Memória Viva
Vozes do Brasil
Mercado de Pulgas

... Flávio encara Marco, seu colega que fora acusado de furto no trabalho...