Às vezes a ausência dela me doía tão aguda -como uma doença- que eu mais era aquele vazio do que a minha presença. Era uma coisa tão funda, como a falta da mão, de ar, um estalo de ossos, era um medo. Eu vinha querendo chorar, de não existir, de desespero, uma coisinha fina rasgando a gente por dentro, rasgando pra depois costurar, sem anestesia nem o consolo de verdades, sem testemunhos. Não havia o calor de ter encontrado... sei lá o quê, sei lá o que se havia pra encontrar, mas o desejo de um colo que preenchesse aquela angústia, angústia era o termo pra tudo o que eu não sabia, e andava vagando, pra todo aquele errar incerto, caótico; mas eu pernoitava, descascava batatas, lavava os cabelos, por dentro só podia chorar, por dentro só não sabia, só esperava, com a ânsia de quem carrega bombinha de ar na mochila,com o desejo que era um corte, eu não sabia, e andava por dentro da madrugada, comprar cigarros, procurar emprego, vezenquando eu inventava um norte pra me sentir mais forte e saber o destino dos passos, mas no mais das vezes era aquele desrumo, desviando dos carros, das rotas, das mulheres de bota comprida e saia preta, eu fugia da lua, do apelo, era estar vivo e não saber o que fazer - ah, esses existencialistas. Poderia usar óculos escuros e comer sardinha enlatada na porta do cinema, porque nada andava fazendo sentido, poderia roubar livros, andar de patins, pintar minha cara de branco, usar panqueique, tirar as sobrancelhas, mudar meu nome no cartório, porque nada andava fazendo sentido, queria poder imaginar um fantasma, uma lógica, algo do que correr ou pra que correr; porque correr, corríamos, contra o tempo, contra as cidades, numa guerra de guarda-chuvas e multidão, eu andava estrábica, eu era tão gauche, sem você, meu Amor, eu inventava um você, inventava um Amor pra ser a causa da minha náusea, da minha angústia, daqueles passos incertos, daquela lua murcha, daquela dor exausta e o corte cego, andava pichando muros, gritando causas, despindo freiras, cometia assassinatos noturnos, Que tempos doentes, meu deus, era a dor de dentes, o cansaço, João Kleber, era a tristeza, me rasgando, descomedida, fanática, por dentro, por fora, enquanto perdurasse o rock e as meninas de preto entravam e saíam exibindo suas olheiras e seus olhares, mergulhados num profundo niilismo, Isso é crise de adolescente, véi, mas tá doendo, tá doendo pra caralho. postado por Maroca 20:47 Fala que eu te escuto: . . .
Para Patricia Misson Meu Amor, minha menina, meu desmantelo, minha causa, minha busca... Por que será que quando a gente gosta (eu to falando de gostar à vera) de alguém, parece que a pessoa vira seu Amor, sua menina, desmantelo, causa e busca? Tipo a-resposta-pra-todas-as-perguntas, o-sentido-desse-vagar-incerto? Pois com você, se abate um pouco das minhas crises existenciais, aquela coisa de que se sentido não faz, fica bonito, fica tão mais bonito com você. Com sua tristeza, seus carinhos, seus silêncios descompassados e contínuos. Tão bom acordar do seu lado e ver seu sorriso, tão bom estar do seu lado, no ônibus, na sarjeta, na empreitada, no soluço da solidão, sem haver salvação. Estivéssemos pra nos afogar e eu lhe estenderia meu pecado. Você faz mais suportável minha dor, ao mesmo passo que mais profunda, você me faz menos sozinha dessa solidão de dentro, dessa que ninguém responde e que a gente lê Sartre, lê Camus, discute Dostoiévski no boteco pra abafar, aquela sensação de estar batendo batendo batendo batendo na porta que não abre nunca. Eu gosto de ti de um jeito assim pro-resto-de-tudo, queria que estivéssemos de mãos-dadas além do depois. Eu tenho medo de um dia sentir dor como algumas vezes senti no Recife, aquelas calçadas vazias, os fins-de-semana se estendendo como tentáculos tristes ao longo das minhas horas e por dentro um eco louco, fogo brando me comendo tão lentamente, e daí eu penso que se me lembrar dessa compreensão que você me inspira, vai tudo se anuviar, vai soprar um vento silente, vai meu rosto crispado e franzido ficar mais doce e eu vou perdoar meus crimes bárbaros, vou entender o haver-nascido. Porque passamos juntas por estados de profunda melancolia e êxtase, ternura e arrependimento, embriaguez e explosão. Porque, essencialmente, dói, em ritmos, e rimos tanto disso tudo. Das madames, do show de Truman, das misérias. Minha poesia, Misson, você é minha poesia. postado por Maroca 20:00 Fala que eu te escuto: . . .
Um Conto Cretino (Pra reaquecer as veias da escrita) Agora ele dorme o sono profundo dos anestesiados. Disse que estava confuso e deitou a cabeça no meu colo. Agora eu vejo a Augusta do décimo andar, antiqüíssima e iluminada; a vida escorre por suas calçadas como morfina nas veias, procurando o consolo, o estancar de carências e fúrias, misérias. Agora ele dorme. Sem a consciência de que desmontou a minha, de que me fez uma criança desesperada no meio da sua verborragia e sinceridade, o mundo era cruel e não havia saída. Tenho a lucidez patética dos que esperam e espio seu rosto, a boca entreaberta de onde pende um fio de baba. Posso ouvir sua respiração. De vez em quando, ele resmunga palavras desencontradas, quem sabe se palavras ainda, ou anteriores ao verbo, talvez amargas e obscenas. Como Artur sabe ser obsceno... Parece adolescente querendo chocar! Então ele pára e me lança aqueles olhares demorados, alguma doçura se desprende, violenta, e eu tenho medo de, de repente, Amá-lo. Amá-lo como uma velha ama uma árvore, como um moleque, a espada que ganhou do avô morto em guerra. De quando em quando a lua berra, nevrálgica, e eu tomo goles de vodca pensando que talvez haja tristeza. Que talvez haja tristeza. Ele me disse que tinha pressa, por isso não saberia esperar. Fechei as cortinas amarelas pra esquecer as nuvens cinzas, a proximidade do céu, o décimo andar mais perto do pulo. "Nothing is real", sussurrava enquanto me levantava a camiseta, Bêbado, Artur, você tá bêbado e com a outra mão ele me afastava as pernas e o raiar do dia. Misto de prazer e medo, talvez depois eu pudesse entender. Agora só posso enfrentá-lo dormindo, inofensivo como um passarinho ferido sob o manto do meu olhar, alguém incapaz de agir, por dentro, por fora, nem pensar, ele não pode saber de meus olhos percorrendo seus defeitos e possibilidades. Não pode virar o rosto pro outro lado nem se defender: se eu quisesse roubá-lo ou amá-lo, em segredo -sempre em segredo- eu poderia. Que bichinho estúpido você se tornou, pensei logo de manhã enquanto me barbeava, estúpido e subserviente, abaixa a cabeça sem qualquer tipo de resistência, nem mesmo que interna. Eu poderia me vingar do mundo, mas a faca entrava no pão e eu assava na frigideira minha vontade de reagir, cheiro de manteiga me inebriando os sentidos, era fácil esquecer e ir pulando dia em dia sem quebrar as telhas, sem incomodar as pessoas, sempre pedindo desculpas por ocupar lugar e fazer a cadeira ranger o piso. Mas Artur me estourava qualquer revolta, eu me via capaz da agressividade, talvez de afastar as pernas lentamente de todos aqueles babacas que gostaria de estuprar, só pra sussurrar "Nothing is real, nothing is real", e eu o faria de um modo tão morno que não se saberiam agredidos, acordariam com hematomas e desespero cinza por debaixo da pele, por dentro dos ossos e talvez só se dessem conta num quando, assim, longínquo como as luzes da Paulista me parecem agora. Elas se vão enfraquecendo, evanescidas e o dia vai nascendo desbotado. Artur respira o ar frio e vira de lado. Mira meu rosto calado e sorri um riso branco de saliva. Põe os braços pra trás da nuca, olhando o teto, lento, lento. Amanhece. Mas não. Mas nada. Nada é real. postado por Maroca 19:15 Fala que eu te escuto: . . .
postado por Maroca 21:29 Fala que eu te escuto: . . .