Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Terça-feira, Setembro 28, 2004
E de tanto trocar de máscara, pintando feições, misturando cores, adorando detalhes, ele se olhou no espelho e viu que havia esquecido seu próprio rosto. Umideceu um chumaço de algodão e friccionou com desespero suas ilusões, via a tinta plástica se descolar, misturando as fantasias d'antanho, enquanto repetia com ira, com susto, com dor: "Que pincel me apagou o rosto primevo? Meus olhos mais ingênuos, turvos, doidos, em que esquinas esqueci-os, dobrando à minha frente?". E se os músculos se faziam rijos, contorcidos, não sabia se eram reais, se seus.
Que idade teria? Seria de estrelas por dentro, teria areia, desânimo, esferas, pecados? Estaria aceso? Haveria acesso? A escada que levava ao sótão, aos sustos, rangeria caso ele tentasse se aproximar de si?
Ah, que desespero experimentava, não se lembrando, nunca mais se tendo ouvido, já não se sabendo, entre roupas rasgadas, ficções, uniformes puídos, latas de refrigerante.
Hoje sairia para dançar, indecente na sua ousadia, protegido pelos orixás, pelo negro que tingia a madrugada, trançando gengibre e zabumba, Iemanjá e Bastião, um Dionísio ianomâmi, absolutamente despido do peso do tempo e dos panos, o rosto de restos fundidos num tubo de tinta, Édipo no fundo do espelho, Zapata no início da alma, sou a (con)fusão, fagulha de Bakúnin, a sombra verde nos olhos, cheiro de pitanga machucada, Macunaíma tocando pandeiro, mancharia seu esquecimento de urucum ou nunca mais encontraria o próprio corpo, já putrefeito, fuzilado, caduco de slogans sem tradução. Sem tradição, ele era um homem sem rosto, tomando café sem sentir gosto, correndo caminho sem viver gozo.
(Tanto tempo matando tempo...)
Onde estaria seu nome, perdido em outro passo, estrada de ferro, de aço, ressonando em galáxia desconhecida?
Hoje não! Ele não deixaria que seu corpo de barro, curvo de século e delírio, esculpido com ciência e presságio, noite virada, candeeiro pingando azeite e solidão, sua história parida com dor, batalha, ele que descera o Tocantins numa canoa de lua, que agüentara o açoite da escravidão, quedasse, inerte no sofá, prensado numa máquina de fazer hamburguer.
Fôra nômade, fôra inca, fôra feliz.
(Traço de amêndoa e canela no ar, viera no porão d'um navio de especiarias.)
Era o Amor desmembrando fibra por fibra a morte do homem sem rosto. Esta noite, ouviria o som dos tambores doendo no centro da Terra, aquele canto primitivo, cigano, entoado o grito das guerras de sangue e botões, indígena, a melodia dos massacres, africano, banzo ecoando choro errado no peito, torturado no DOPS, ibérico, asiático, selvagem, eterno: esta noite, pátria nossa brasillis, traria o homem ao seu próprio ventre, mistura de vinho e sêmen, leite e coragem, batuque silenciado, enfim reencontrado. E liberto.

(das potências impotentes, das grades enferrujadas, impérios soerguidos e roídos, ouço ruídos: muros cisjordânicos, metafóricos, tão tristes...)


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Não, hoje nada faz sentido. Hoje não, hoje nada. Tinha um pé de pitanga no fundo daquela rua e um homem botou sentimento estranho no meu peito. As avenidas vão se parecendo, confusas, familiares, malditas. Mas hoje o sentido me escapa e aquela dose que ontem queimou por dentro um menino de verdade, hoje me falta. Debaixo da pia. Hoje nada.

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Sérgio Castro
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