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Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”
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Domingo, Junho 27, 2004
Um Homem de Verdade (Textura e Ventania)
Mas era preciso uma britadeira para quebrar aquela solidão que sentia. Uma britadeira segurada por um homem que fosse de verdade, que não trouxesse aquelas flores de crepom, aqueles escudos, que não tivesse aquela consistência tão perecível e trêmula, que não se fizesse fumaça quando ela estendesse as mãos que o queriam mais dentro, um homem que houvesse vivido e soubesse ser inteiro, ousasse a legitimidade.
Ela precisava acreditar - e andava tão descrente... Ela precisava de um naufrágio, mas andava tão terrena. Ela precisava, agora, nem tanto da britadeira, mas ainda de um homem de verdade, um homem sem miragens, sem histórias mirabolantes, um homem de carne e metafísica, dor e paladar, sangue e sêmen, um homem de pulso e complacência, que soubesse chorar e beber, que pudesse voar e temer: que fosse coragem, mas também consciência.
Enquanto isso, contava trocados e histórias, solitária, sem britadeira, sem homem, sem discurso. Tremiam as oito horas da manhã, ela lacrimejava num passo incrível de ballet, se recompunha, hermética, impenetrável, mas quase-doce. De sorriso quase-fácil. Com uma alegriazinha quase-falsa, embora nem ela mesmo soubesse. Foi subindo, subindo. Tinha desejos delirantes. E o avião decolou.
Via a cidade se perdendo, diminuta, acesa, pasma. A aeromoça lhe abriu um sorriso plástico, maquiado:
- Coca-cola, suco ou cerveja?
"Um homem de verdade", pensou em pedir. "Ah, isso anda em falta", talvez ela dissesse, com uma espontaneidade tão artificial e acrílica quanto aquele sorriso de há-pouco. Então balançou a cabeça, não queria nada. A cidade, a cidade se perdendo. Encostou a cabeça junto à janelinha e adormeceu.
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Quinta-feira, Junho 24, 2004
"Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim"
(Mário de Sá-Carneiro)
Me posto insensível e bruta a tudo. Sou capaz de descer os degraus do abjeto, da moral, do suportável. Rude e inconsciente, metralhando rancor. Perdi a vaidade e tanta foi a dor que me serviu de anestésico. Exponho meu rosto moribundo, os cabelos desgrenhados, vagueio com a expressão de quem já não ama, não verte lágrima por tragédia ou óbito, alheia como um soldado que volta da guerra, sem perna ou textura, assassinado em qualquer emboscada. Seu corpo foi retirado, absurdo e sobrevivente, mas de seus olhos e viço, nem paradeiro.
Onde erra aquela dor que me trazia insone aos meus próprios braços, ensangüentada em ataduras e gemidos? Onde zanza meu espectro, minha palidez, a devoção que eu erguia como espada à vida? A fome de farejar poesia no mais espezinhado pelo cotidiano, a ânsia, a espera, o pecado: onde?
Rondo a casa em que morei, a casca em que fui, loja de discos, ruas íngremes, parques vastos.
Onde me pus?
Alguém me viu por aí?
Não ofereço recompensa aos que acaso me encontrem, já sei não valer um pedaço de pão. Só a título de curiosidade, não trago foto ou afeto, pêlo ou apelo. Só trago meu vazio.
Alguém me viu?
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Terça-feira, Junho 22, 2004
Eu tinha medo de te Amar pelo avesso, com cheiro de cravo-da-índia, com mãos fundas e irrestritas, com toque nevrálgico, apelo e meia-noite insone em flor. Tinha medo de te Amar descabelada e impudica, brasa me detendo o passo, boca me roubando o peso, morte me comendo por dentro. Destroços. Eu tinha medo de te Amar inteiro, de te saber cariado, indevido, maltrapilho e sacana e te querer ainda assim, ainda mais. Eu tinha medo.
Folhas de outono cobrindo a calçada machucada de tempo. Doer o sonho errado, fabricar doença sem cura, noite avulsa, quarto escuro. Fomentar solidão de cárcere, bálsamo de éter, bravura de leão sem carne, de mãe sem calma. Olhos aflitos, desejo perturbado. Eu tinha medo de te Amar sem nunca. De te querer por perto, te perturbar as zonas, dependurar caos no teto da tua paz como fossem móbiles. Rasgar partituras, solfejar melodias, desarticular teu embaraço, fundar olheiras, fundir maneiras, manias. Macular os lençóis alvos da tua pureza, parir madrugadas desesperadas, botar cálices nos teus dedos vazios, ímpeto de carícia nas tuas mãos sem intenções.
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Mas ela decerto teria coragem, bastaria que se clareasse o dia, bastaria que algumas horas doces lhe fincassem na carne dura, bastaria um punhado de conjugações insólitas que a distraíssem, brincando com palavras, trançando memórias perdidas, bastaria que tudo se lhe recompusesse ilusoriamente e ela pudesse descansar, por débeis instantes, numa paz artificial.
Foi caminhando na calçada contrária à praia, observando as pessoas que corriam, desprotegidas pelo destino, desarticuladas, pareciam insetos se debatendo contra a luz. "Tenho vinte e cinco anos de sonho e de sangue e de América do Sul", cantarolou por dentro e torceu pra que de repente chovesse. Muito. Pra que houvesse enchente, dilúvio, novas religiões e tratados. Novos ensejos tortos, desejos mortos.
Afinal, queria... queria... o que mesmo queria?
Atropelada por um bonde que perdera os trilhos por não existir mais há um século, se esqueceu.
Que mesmo queria?
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Tenho me arrepiado em lágrimas ouvindo isso.
A Palo Seco - Belchior
Se você vier me perguntar por onde andei
no tempo em que você sonhava,
De olhos abertos, lhe direi:
"Amigo, eu me desesperava"
Sei que assim falando pensas
que esse desespero é moda em 76
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente eu grito em português:
Tenho vinte e cinco anos
De sonho, de sangue e de América do Sul
Por força deste destino
um tango argentino
me vai bem melhor que um blues.
Sei que assim falando pensas
que esse desespero é moda em 76
E eu quero é que este canto torto
feito faca, corte a carne de vocês
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Quarta-feira, Junho 16, 2004
Tomo um gole de velhice e dor. A beleza acesa é essa inquietude que me amansa por fora e me destrói por dentro. Uma fera mostra os dentes pra mim, os meus nervos desorganizados e excitados pedem flor de camomila e pasmo, diante da estrada bifurcada, diante da festa de centelhas que explode. Tento deixar que cantem meu caos. Um tango argentino. Tourada. Música mexicana. Cana. Si, si, si. Volver a los 17.
Retorno, retorno. Revisito Frida Kahlo e a revolução.
Porra, pára de tomar café.
Tá me destruindo. Estou me destruindo.
Geandra, meu Amor, queria hoje picar o cabelo em pedacinhos e ver no chão a vida espalhada pelos fios.
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Segunda-feira, Junho 14, 2004
Pedante, Pedante, Pedante
- É, eles estão envelhecendo... e nós também.
Ele me disse aquilo sem o menor pudor ou receio de usar aquele termo - envelhecer - diante dos meus dezenove anos.
Isso era: apodrecer ou aperfeiçoar, esfarinhar ou soerguer; poderia ser estrada onde nos fazemos medíocres ou geniais.
Eu pensando que quero ter oitenta e dois anos e manter a capacidade de indignação do Saramago, já que passei dos dezesseis sem ser Rimbaud. Me lembro de Luis, com quarenta anos e aquele apartamento cheio de livros e discos, tomando cerveja com sua solidão, "Quarenta anos", repetia, me segredando sem qualquer sentimentalismo que não durava mais muito, não. E vejo minha avó, ofegante e triste, comendo escondido, vivendo sem prazer, esperando a morte, sem coragem de ir até ela, apegada a seu cemiteriozinho de memórias.
Então olho a sala escura desta casa que não é mais minha e já não me encontro confundida com as madrugadas - tínhamos a mesma carne sobre os mesmos nervos: éramos a mesma dor - remexendo nos vinis do meu pai, absorta com a vida pulsando naquele silêncio de estrelas, ouvindo jazz na vitrola e então amanhecia, eu seguia as ruas que me jogavam à escola, à última cadeira, aquele meu êxtase que as pessoas recebiam com sonolência e estranhamento, "São sete horas, Mari!", mas eu não tinha tempo a perder e escrevia, escrevia, com as lágrimas manchando o caderno, atropelada pelos meus sentimentos e julgando parir a poesia, estar criando imagens inusitadas, conjugando substantivos, agrupando absurdos. Tudo, por fim, uma merda, quando eu lia sem a ebriedade do que chamava Inspiração (e que João Cabral não me ouvisse).
Não, não sou a mesma menina daqueles meus treze anos, quando a professora deu como título pra escrever uma redação "No Banheiro" e seguiram-se os textos mais escatológicos, a molecada esfuziante, numa excitação quase ingênua, quase febril, pré-adolescidos. Quando chegou minha vez de ler em voz alta à classe, a alegria se foi assentando, todos meio sem reação, entre assustados e curiosos, à escuta da minha voz insegura, crispada, lendo meu relato sobre um aborto que era consumado, veja bem, onde? No Banheiro.
(Aquele olhar que distenderam a mim, indeciso se não me focavam por respeito ou desprezo, foi o que conservaram, em formol, até os dias de hoje.)
E quem se contorcia por paixões inventadas, ia sozinha ao cinema, quem só assistia às aulas de História e se envolvia com professores, quem rodava as ruas catando flores, versos, cantando alto, trêmula e incontida, quem... era eu? Quem era eu? Quem era? Eu?
Ah... também aquela a quem a psicóloga, preocupada, queria encaminhar ao psiquiatra, "início de depressão", diagnosticava, aquela também já se mostra distinta dessa que já não sei que(m) sou.
Problemática, psico-depressiva, "A Mari é uma escritora", "A Mari é louca, você é louca", que bela merda, "Olha a risada dessa menina", só ela, só ela.
"Eu era muito parecida com você quando tinha sua idade", ouvi de bocas tão desiguais e várias e pensava se ia me tornar parecida com as donas daquelas bocas. Umas borradas de batom, outras com a dentadura amarelecida, se ia me tornar como aquela professora, aquele músico, aquele fodido. Medíocre ou genial?
Não, você é essa que dança sozinha no tapete da sala, que traz gatos famintos à cozinha, que cozinha cebola às duas da manhã, que lia Camus e Kafka aos quatorze anos - muito bem que não tenha entendido porra nenhuma, mas essa parte a gente pula. Você é aquela que sofre de um Amor desenfreado, bestial pelos Homens, aquela que não tem medo e até desafia a solidão e a solidez, que adora os bêbados, os mendigos, as putas de qualquer rua suburbana, aquela... que não tem a menor noção do que está se tornando.
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Terça-feira, Junho 08, 2004
Tu tens nas mãos ciganas um baralho
Tu tens na alma tirana um barulho
E ele a me fazer desvendar que foice, que muro ou lágrima viriam no momento seguinte. Eu era um papel que se deixava ser dobrado pra virar barco e arrebentar em correnteza de aquarela, pra ser avião e rasgar o toldo do circo. Sumo da fruta escapando do paladar de deus. Viria o espião, a palma, a suçuarana. Eu era estilete e fantasia. Uma xícara, a geometria. O cadáver estendido na pista, um pássaro de rapina, máscara de papel maché. Era a saudade, visita imaginária de um doente esquecido em hospital suburbano. Uma sigla, uma saga.
Nesse teatro de fantoche, eu fui a miséria de olhos pétreos e mãos estendidas. Suor de cera pingando no pires de porcelana ("dragão partido"). Bailarina de crepom, tristeza em cabaré. Fui soturna em seus braços de alcance infinito, em nossas madrugadas de um segundo.
Acendeu o abajur, o rosto aflito no espelho, a reconhecer se era ela mais noite que fêmea. Esse susto lhe acelerou as batidas, era vida e com o pincel nas mãos, desabotoou as grades do penhoar, se viu nua da velhice, se viu nua de sandice, era esplêndida, foi inteira. Fez as tintas matarem a noite, foi-se clareando o dia que não era seguinte. Carvão, sentiu o cheiro branco da lua, acendeu o último cigarro e se fez de novo folha lisa de sulfite nas mãos de um palhaço cansado.
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Sábado, Junho 05, 2004
Eu nasci num pé de serra
E quem nasce em minha terra
Não existe outra saída:
Ou vira escravo da fome
Ou sai e vai ganhar nome
Longe da terra querida.
(Dona Dedé)
Vem. Vem conhecer a África que em mim retumba. Tamborear na minha noite de aço. Vem encarar minhas sombras dúbias, meus clarões, flagelos, lampejos. Vem dançar na festa que improviso, subir no balão que coso com linha e altura. Eu tenho rabeca, batata-doce, tenho lanterna que alumeia quando 'scurece cá dentro, mais fundo. Diversos sonhos: humanos, caóticos, mal-quistos. Pra trás das montanhas que as nuvens cobrem, não há mundo e eu nem tenho tevê. A gente canta, zabumbeia, serpentina e quando vem o sono, quando vem a fera, quando farejo inicinho de dia, o que se faz é trocar de turno e sobreviver ao cansaço. Acende lamparina com o fósforo que colho na esperança de um raiar definitivo. Vem. Vem conhecer meus negros que lamentam, que inventam, que atormentam.
Meu Brasil é mais caboclo, mais matuto. Meu Brasil é mais astuto que esse seu made in USA. Que esse seu que samba errado, não tem graça nem gingado. Meu Brasil é mais abrasileirado.
Eu queria que tu viesses e só me olhando, assim, soubesses de toda essa fome que plantaram - e não aplacaram - todo desgosto que comeram, a amargura com que se reza, o dia-seguinte que se espera, que se improvisa.
Por que não estoura o colapso? Por que tanto esparadrapo, band-aid, por que tanta emenda? Tanta lenda. Ah, se tu soubesses... Quanta gente boa. Tanto batuque. Tanta vereda.
Quando vai dar certo, meu Deus, essa experiência que somos?
Eu quero um Brasil sem legenda.
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Sérgio Castro
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Palavras e Imagens
Fernanda-Irmã
Cotovelares
Misson, O Cara
Jordani Sou Eu
Castilho
Cat, A Mina
Leo Caobelli, O Iluminado
Phasmo, o Fantasminha
Ed, o Coelho Branco
Fernanda, a Imersa
Cris, o Furioso
Yane, O Monstro
Daniela, O Mito
Vitor, o Freire
Arara, a Teresa
Filipe, o Displicente
Coletivo
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O Dilúvio
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