Tenho algumas dores que se recobrem, que me descobrem, tirando a casca lenta da superficialidade. Não estaciono em campo nenhum, meus prazeres sangram, meus pesares desobedecem, vou vivendo com garra, lágrima e flor, me despedaçando quando alguns olhos se fundam cá dentro. Tombam letreiros em néon, saudades em folhas de outono, amarelecidas pelas veias dos meus deuses vingados. Ah, de sóis me farto nesses dias enferrujados. Nuvens e desastres pairam, secretos e eu musico com Gismonti meus amanheceres. Ele me chama pra ver Stanley Jordan, "esse cara tem dois cérebros, não é possível" e a guitarra distorce, amplifica meus infernos. Como dói ser humano e não entender porra nenhuma dessa vida, desses homens que ora me maravilham, ora me destroem. E à noite eu o levo pra me ver no palco. Adeodata se consuma, me consome, multiplicando mil rostos no seu, botando trinta corpos na sua elasticidade, joga facas que me acertam, me rasgam: eu sou isso, pai, vê bem. Minha fotografia pulsando. "O MST ataca o Brasil que dá certo", é o bom-dia que recebo da Veja e não sei a quem matar, volto pra casa co'as armas em punho, os nervos histéricos. Como a imprensa pode ser tão escrota? Mas a poesia me salva, meu sobrinho me desmonta na sua alegria em descobrir os pés, os pássaros de ferro, os brinquedinhos de pano. Uma xícara de café. Recortes de jornal. Os antigos LPs que madrugo com meu pai garimpando. Mais garimpo sua essência, um grande homem que encontro no vulgar. Te demorei a conhecer, pai. Adolescida tinha o olhar da revolta, desmoronado meu ídolo de infância. E hoje, se ergue humano das minhas trevas, dos meus erros. "Amor começa tarde", me disse Drummond. Nós que o críamos fecundo e explícito nos dias de glória, em almoços oportunos, festas ansiadas, damo-nos com sua fagulha em noites destroçadas, caducas, antigas. Ah, o Amor, o Amor. Que te encontro nas horas doces, mais no tédio que no desespero, mais na garoa que nos dias iluminados por um deus ou sol. Amor, que te encontro, que te espero. Que te sei, Alessandro, mesmo tão ausente. postado por Maroca 10:47 Fala que eu te escuto: . . .
Hoje tente me amar. Venha, levante o queixo. Deixa que eu te dê uma rosa, um escravo, um torrão de açúcar. Hoje, tente fazer com que eu seja indispensável, com que eu seja matéria-prima dos seus dias, esse que, quando se ausenta, torna a respiração dificultosa e inútil, porque viver, sem mim, se torna inútil. Hoje. Me dispa em ternuras tão ingênuas pra que quando estivermos inteiramente nus, um vele com inconsciência e febre a existência do outro e então, finalmente, não existiremos. Não seremos senão vultos morenos e plásticos, nódoa no lençol alvo. E a rosa, o escravo, o torrão de açúcar descansarão em esquecimento enquanto o fogo emprestar sua dança furiosa, enquanto o pavio arder submisso e intranqüilo. Hoje me faça sua essência, sua causa e efeito. Faça com que esse gesto de adoçar com colônia tuas veias e vestes seja um jeito de dizer que me ama. Hoje borde detalhes em teus vestidos compridos, costure flores de vôos longínquos. Espere eu voltar de uma guerra infinda, mesmo que receba carta que me acuse morto, cotovelos envelhecidos no parapeito, me espere com resignação de viúva e fervor de amante. Componha uma sonata, traduza um soneto. Hoje tente me amar. Venha, levante o queixo. P.S.: A primeira vez que vi essa foto num ensaio de Pedro Martinelli, fiquei algum tempo de queixo caído. Claro que a ampliação era maior e o impacto também acaba sendo. Foi o tipo de foto que quis escrever um conto sobre, mas depois descobri ser inútil, redundante: já está tudo lá. No entanto ontem, escrevendo, me veio a imagem dos cotovelos envelhecidos na espera. A espera. E quis colocar essa fotografia. Que Martinelli me perdoe o pleonasmo. postado por Maroca 22:54 Fala que eu te escuto: . . .
E então ele pediu desculpas, mas teria de citar Paulo Coelho. - Faz isso não, Amor. Ou faz mas mente pra mim, fala que foi Pessoa ou Poe, mas não cita Paulo Coelho. Inútil: "Quando alguém quer alguma coisa, todo o Universo conspira para que se realize esse seu desejo". Pior que era. Ridículo, pára-choque de caminhão. Mas que conspira, conspira, pô. E pensando nisso fui falar da Energia Maior, um papinho meio zen, o Cosmos, o religar-se, "levanta aí o braço, tá se depilando ou virou hippie de vez?". Conspira, tô falando. Não vou dar nome pra nada -"a gente dá nome quando começa a ter medo do que sente", e domesticar essa febre que é mansa e vulcânica é tudo que não quero- mas existe alguma coisa. Nunca tive tanta certeza. Nunca tive tão pouco medo de dar o passo: eu sei que só poderia ser esse. Que só poderia ser pra lá. Me dilacero delicadamente, triste, mas absoluta: sei o que estou fazendo. Romper é sempre dolorido. Navalha na realidade. De cá me transporto a mim, distante de onde estou: estou. Distante de onde sou: estou. Eternidade acreditada, Amor, é mais eternidade. E que todos os seus outros vindouros anos - e lindos dias, nossos - existam dentro dos meus. postado por Maroca 00:33 Fala que eu te escuto: . . .