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Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”
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Segunda-feira, Março 29, 2004
O Amor Comeu
Fui-me embora pra Pasárgada, já que nasci, assim, gauche na vida.
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Segunda-feira, Março 22, 2004
Que não tinjam com o sangue das calçadas a ternura muda do meu deus. Que não maculem ou ornamentem, que não derrubem ou tornem inalcançável minha glória. Que não sujem nem surjam absurdos, diante dos meus olhos ímpios, da minha boca aberta, dos meus gestos contrafeitos. Que não venha mais do que eu posso suportar, porque o ponto mais alto é o que preciso. Preciso da tua nudez pra me esquentar todas as ausências e metades. Tudo o que é em mim aquilo que não compreendem. A minha semente seca ao Sol. A minha febre, a minha ira. Moeda de prata roubada. Porque foi você quem mais me fez chorar por eu ainda não ter aprendido a suportar a beleza. E não sei ser passiva, preciso me relacionar com o que recebo. Boneca de pano, títere, nunca pude ser a massa que se modela, a massa que se acotovela ou acovarda pra buscar o sentido na multidão.
E a essência da vida, meu Amor, é tão delicada.
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Quinta-feira, Março 11, 2004
E se o maior desafio do Amor é conquistar a pessoa todos os dias, em estarrecimento e quebra de cotidiano, essa mulher venceu a batalha em mim.
Lispector me inspecta, me impregna, me investiga e denuncia. Minha Clarice, me (par)alise o Inferno...
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Terça-feira, Março 09, 2004
E chovia tanto que pensei em parar e te dar um beijo, escandalizado ou recatado, mesmo que estando escuro demais e que os pingos gordos te irritassem, molhando com ira e chuva ácida a barra da calça, caindo nas lentes dos óculos e o delírio dos ósculos passou, assim, eu quis que passasse, pra não agir mais como uma menininha apaixonada, querendo pôr em prática os filmes em preto-e-branco que via enquanto vovô revelava as fotos no estúdio que nunca pude entrar. Embora eu estivesse apaixonada e ainda tivesse limpos o rosto e o peito, denunciando minha pouca idade, livre de rugas e rasgos, aquele grito de ser moça-direita me consumiu as ações e espontaneidade.
Numa segunda qualquer, enquanto virava a omelete pra dourar o outro lado, cheiro de cebola nas mãos, avental molhado, você lia o jornal e eu te vi tão lindo, meus olhos umedecidos, o vapor subindo, "Liga esse exaustor, Fátima. A casa inteira fica cheirando gordura depois." Eu te quis interromper a fala e raiva e dizer que te Amava. Não como nos trêmulos tempos de namoro, de fazer unhas e não querer errar a cor do batom; não como nos tempos de recém-casados, de lençóis engruvinhados e café na cama. E mesmo que você não trouxesse mais as rosas que eram diárias e se foram rareando, até que não vieram mais e desde então, cheiro de saudades tem pra mim cheiro de flor. Não mais desse jeito que te Amava. Mas daquele que me fazia parar, de repente e te olhar lendo jornal, tudo misturado e inespecífico, mas por quê chamar pelo Amor em plena segunda, cheiro de gordura e cebola machucando tua leitura?
Tantas coisas não disse, tantas coisas não fiz.
Você volta mais tarde, tira os sapatos, teu cheiro de homem, um pouco suado, um pouco chovido, eu toda chorada, reprimida, me finjo em sétimo sono, te queria em sétimo céu, desabrigado de máscaras. Que me traia com as moças do emprego, de mini-saia e pouca idade, que ronde com o carro as ruas imersas na madrugada procurando prazer, que minta, Eduardo, que uive, guarde desprezo, rancor, eu entendo tudo, meu Amor, suporto tudo. Mas que nunca mais me deixe abandonada naquela estação, enquanto ainda chovia, em relâmpago e fúria, eu tendo de andar até outra cidade, onde não existisse tua memória na minha dor.
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Quinta-feira, Março 04, 2004
Seca, pinta a boca com o sumo da amora, pinta o peito com o suco do Amor. Espreme a casca seca dos dias, deita fora a saia desfiada da fumaça do fumo. Encosta a cabeça muito junto ao pano quadriculado e volatiliza úmida sombra da lua. Ainda pensa que enquanto houver horas nas quatro, flor no asfalto e vinho na taça de plástico, os astros rodam, o mar descansa.
A crisálida tece a vida: espessa luz de pano, por instinto ou determinação. Tem uma máscara de gesso no nome do rufião. Um dó sustenindo meu grito no pentagrama manchado de café e ira. Tem um homem dentro do meu peito, que por tão grande, me ronda ao avesso e, não cabendo, me resta.
Me fica o sorriso lento de quando acordo depois de te saber tendo as mãos sangradas às minhas num sonho lilás.
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Terça-feira, Março 02, 2004
Meu fiel público de... três, digo, duas... quero dizer: pra você, único leitor que me presti... Enfim. Falo sozinha, tem problema não.
Eu e Misson criamos um blogue juntas. A proposta e personagens estamos decidindo no decorrer das cartas. A idéia é essa: duas pessoas, que ainda não nos contaram que tipo de vínculo têm, se correspondem. E abrimos suas missivas. Sim, extraviamos. Quem tiver curiosidade e interesse, nos visite. =)
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Segunda-feira, Março 01, 2004
O que vem a seguir está pobre em argumento e estrutura. É puro sentimento. Se servir pra alguma coisa...
Hoje me aconteceu uma coisa engraçada... Ou curiosa, não sei.
Estava indo à casa de uma amiga, quando me dei conta de que havia dois moleques na minha cola há algum tempo. Comecei a recortar as ruas de um jeito esquisito pra ver se era coisa da minha cabeça paulistana desconfiada ou se a preocupação procedia. Era enrascada na certa, percebi duas ruas depois. Um menino me interceptou.
- Ô tia.
Abaixei o volume do radinho.
- Oi?
- Cê tem um trocado pr'eu tomar um café?
- Ih, rapaz. Acho que tô sem nada, mas vou ver.
Abri minha bolsa. Toneladas de fita cassete, rótulo de cerveja, chave de casa, escova de cabelo. Nem uma moedinha.
- É, cara, tô sem nada mesmo.
Olhei pra ele e sorri. Acho que ficou intimidado com meu sorriso - Não deve ser muito comum receber, pensei - e abaixou a cabeça.
-Tem nada mesmo não, tia? Só um trocadinho pra tomar café.
Devia ter a mesma idade que eu e me chamava de tia.
- Tenho não, se eu tivesse, falava.
Dito isso, pegou meu walkman e saiu correndo. Numa tentativa idiota e inexplicável (reflexo?) de não perder meu radinho tão fiel e imprescindível, fiquei com metade do fone por entre os dedos. Gritei alguns palavrões e continuei andando.
E daí me veio tudo aquilo que não me faz justificar, mas entender parte dessas coisas. Penso na criação que o moleque teve. Teorizar a miséria é uma coisa. Saber o que é fome de ouvir falar é não saber. Viver é bem diferente. Me vem a pressão da mídia, do consumo, do estatus. Os tantos vidros fechados, o desprezo que deve lhes queimar na pele em cada olhar, em cada não-olhar. A humilhação.
Eu acho engraçado essas pessoas que falam "Fulano é um monstro. Estuprou a mulher, picou e pôs numa caixinha." É um monstro, sim. Agora, quando um monstro nasce em Higienópolis (para os que não são paulistanos, é um bairro "nobre" daqui), taca psiquiatra, vigilância constante, sei lá, tem-se a ilusão de domesticar o monstro, que vai, de qualquer forma, exprimir seu ódio mais cedo ou mais tarde. Agora, nasce um monstro na Heliópolis (uma favela imensa), com acesso fácil às armas, ao tráfico, a falta dele à Educação, Cultura, Lazer, com os olhos absolutamente acostumados aos crimes mais estúpidos, gente sendo tratada como lixo e vai ver onde pára o monstro do homem.
Não estou justificando. A miséria faz coisas diferentes. Eu tinha um professor de História que dizia que a maior parte das pessoas que vive na favela é formada por trabalhadores que levantam às quatro e meia pro serviço. Por que nasce um Cartola e um Pedro Rodrigues Filho da miséria (seja de grana ou alma)? Por que Paulo Lins e Francisco de Assis Pereira? Não sei...
Mas, vinha eu, com todas essas inquietações primárias e confusas, quando um cara buzinou do meu lado, umas três quadras depois.
- Ô menina!
Eu parei, olhei pra trás e vi um homem me sacudindo o radinho.
- Não acredito que você foi atrás deles.
- Saí com uma barra de ferro, prensei os caras "Devolve aí", "A gente não pegou nada", "Devolve senão estraçalho vocês". Me deram e saíram correndo.
Fiquei com o queixo caído. Acho que ele esperava uma exclamação do tipo "Meu herói", seguida de um suspiro.
- Mas coitados dos moleques, meu.
Ficou ele sem reação:
- Porra. Coitados? Sacanagem com você.
- Tá, mas sacanagem com eles também. Cê acha que os moleques têm culpa? O mundo tá todo errado, moço.
Com o orgulho ferido e acho que com vontade de enfiar a tal barra na minha cabeça, o cara me estendeu o walkman. Eu agradeci, né? Ia fazer o quê?
Depois que processei tudo. Não queria dar lição de moral.
Contei pras meninas no bar, não acreditaram. Me liguei que devia estar pagando de politicamente correta. Oxe. Claro que fiquei com raiva, não tivesse, não teria xingado. Acontece que eu penso que se alguém tem culpa, não são os meninos. Ninguém me entendeu. Ficaram me cobrando postura mais sensata.
- Peraí... cê deu pito no cara que tentou te ajudar? - traduziu meu pai.
Não, não é isso...
Será que alguém me entende?
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Sérgio Castro
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