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Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”
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Terça-feira, Fevereiro 24, 2004
E pela angústia desoladora que é caminhar sem haver caminho, pelo desespero das mãos úmidas de suor que tateiam sem dar com gota de luz, pelo absurdo de confiar que o chão se faça, salvador, ante meus pés que se acostumaram ao abismo - como descer um degrau que não existe - pisar em solo que inventamos.
Enquanto espio secreta madrugada à janela, ouço rumores. A lua em perpétua cópula com o mar que escuto ao longe. Subo morro, desço morro. Asfaltados e ferozes. Com dentes de pára-choques, garras de pára-brisas.
Me tomam nos braços: eu, minúscula mancha a mover-se do cinema ao bar, do bar à praça, da praça ao raiar da poesia.
Ouça-me: ousa-me. Reinicio a saga dramática, ando até onde me leva a caneta e defronto-me com O Vazio. Loura madrugada, puxo o cobertor e me descubro sozinha: eu e os olhos do mundo.
- Onde me trouxeste? - medro à caneta; procurando farelo de pão, farol de lanterna em alto-mar.
Mas "ninguém responde. A vida é pétrea."
Tanta coisa aconteceu depois de você.
É a poesia que se desprende da minha língua. Paro a um passo do Amor, pois quando houver a guerra, haverá a cidade em ruínas e abandono. "Nenhum ferido foi encontrado", ouvirei no noticiário. Nenhuma mácula no lençol ou marca no pescoço. Sem provas do meu hediondo crime de querer a boca que não me encontra. O corte bom de sentir.
E nos tempos da oferta da carne, onde todos os excessos são, não só consentidos como admirados - como entra-se num açougue e pede-se um par de seios, uma bunda pra dois ou um coxão duro - dei pra transcender e só precisar do Amor; metafísico e inescrupuloso Amor. A oferta da insanidade prescrita por doutores e psicólogos. E eu dei pra me apaixonar, devotamente, cantando Paulo César Pinheiro, em estúpido êxtase por um telefonema às quatro e meia da manhã, enquanto tantos passam de mão em mão.
(Quisera eu conseguir mergulhar raso na terra dos Afogados.)
E meu Carnaval se fez cinza(s) antes da quarta-feira. A brasa de uma paixão incendiou meus ânimos e solidão. Resta-me, agora, uma saudade e alucino, em lembrança da nudez tão inútil e incompleta, porque distante da tua.
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Quinta-feira, Fevereiro 19, 2004
Cansaço...
Porque eu me identifico mais com o neguinho maluco que erra nas ruas que com as gentes daqui. Porque nasci em desequilíbrio e explosão numa família de normalidades e harmonia. Porque sou a que vaga, transita e não está... como era o termo? encaminhada. Estou mais pra perdida. Serei sempre. Hoje, mais do que nunca, me sinto como Álvaro de Campos. Eles são educados, doces e têm uma vida certinha. Eu às vezes sou doce em demasia, noutras tão áspera e rude. Ou falto ou resto.
Ela vê a arte como um bibelô desses que enfeitam a sala. O que pra mim sai vomitado, sem que eu possa dizer de outro jeito, digo assim porque sinto assim, pra ela é ornamento: diz-se assim porque é mais bonito, porque rima. Vê o poeta como um homem que olha a lua e disserta sobre o-amor-a-flor-o-mar, uma tríade meio bossanovística, sempre como algo agradável. Não calcula a dor que há atrás. E, se calcula, é algo romantizado e heróico, Que lindo sofrer.
À merda com tudo isso.
Não, não quero falar sobre o esmalte ou o filho da vizinha. Não assisti ao último capítulo de Um só Coração. Não tenho nenhum palpite sobre quem será o próximo eliminado do Big Brother e não sei os filmes que vão concorrer ao Oscar. Também não quero falar sobre o existencialismo, que é um humanismo; nem absolver ou condenar Capitu. Não tem nada a ver com nada disso, vocês não entendem.
Só estou cansada.
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Sábado, Fevereiro 14, 2004
(Música de fundo: É tudo Um Real, do Pedro Luís e a Parede)
Vendo. Vendo carta, revista, sopa de camarão, pilha usada, colírio vencido, cartucho de impressora, originais de Frida Kahlo, punhado de lembranças caducas. Vendo faca sem corte, navio em garrafa sem Norte, braço de violão. Espelho partido, crônicas em jornal envelhecido, fitas gastas, falas gagas, medo de morte, envelopes coloridos. Vendo desespero e espera. Corda, saltos altos, antanho, bobagenzinhas ao pé do ouvido, poema do Chacal, espada, bonsai. Vendo flores secas e olho de vidro, lata de nescau, vinte reais, suicídio e gaita de boca. Cobertura em Marte, escada pra Pasárgada, estrada. Rosa-dos-ventos, guardanapo, canção inédita, guarda-chuva. Vendo tubos de tinta, negativos de foto, positivos na escola. Resumo de obras literárias pra Bestibular, receita médica assinada, cocaína ou solução. Vendo cerol, anúncio nos classificados, mentiras, flauta indígena. Vaidade, tomate fresco, trejeito de malandro. Conselho certo, crônicas do Fábio Fujita, eu vendo. Rodinho de pia, radinho de pilha. Reconciliações, álbum de família, pedaço de lua, forno de lenha. Protetor solar, lápis de Itu, macaco. Paixão infinda, songbook do João Bosco. Dose de pinga, merthiolate, estepe, caixa de fósforo, imã, simpatia, pena de pavão. Vendo remédio pra gastrite e chulé, semente de mostarda, Biotônico Fontoura, fotos inéditas do Michael Jackson no berçário, café com Fefa. VHS com execução em praça pública do João Kleber e Sérgio Mallandro, ensaios que Sócrates não escreveu, travesseiro de espuma, bala de goma que não acaba, All Star. Zíper, durex, dieta infalível. Saia rodada. Talco, vai, eu vendo... Dicionário do Houaiss. Borboleta amarela, Misson, eu tenho! Quem tiver interessado, me ligue. Preciso comprar passagem pra Pernambuco.
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Sexta-feira, Fevereiro 13, 2004
Algo piegas e sem-graça... Ando tão vazia, gente...
Do sétimo andar. Ela pensa em pular do sétimo andar. Ou em comer um sanduíche na padaria da esquina. E como a vida é rasa e pétrea, opta pelo sanduíche, já que tudo vale a pena... assim... como era? Se o Amor não for mesquinho e a alma não for pequena.
Decididamente. Com um pouco de catchup e um suco de laranja - sem açúcar, por favor - tudo desce mais fácil. Mesmo esses dias vazios, com cheiro de tinta fresca, a fumaça subindo e aqueles olhos.
Dor e certa calma. Lençóis brancos. Duas tampinhas de amaciante, comprar prendedores de madeira. E o livro de poesias, aberto na página 362, jogado no chão da sala.
"Eu não preciso de muito dinheiro, graças a de-eus" e se lembra daquele filme com a Fernanda Torres e um outro menino... Fernando Alves... ele morrendo no colo dela, perdida entre o choro e o canto... Terra Estrangeira.
O filme e a fala, outra folha. Outubro se indo no ano que vinha. Vinho e reveillon. Aquelas pessoas todas de branco, felizes demais, maquiadas demais, irritantes demais. E ela fora da festa, como de tudo.
Do sétimo andar. A vida paira, o grulhar das pombas, a névoa que embranquece o mundo visto de cima das estrelas, onde cambaleia nas noites.
Comprar um maço de cigarros e um sanduíche. Esperar a chuva, procurar a chave, abrir a porta, elevador, térreo, boa tarde, seu Zé, segurar o portão pro velhinho, topar com Clarice na rua de trás, convidá-la prum café e encontrar, assim como quem não quer nada, o Amor da Sua Vida usando uma camiseta de pôneis no bar.
Foi aí que descobriu que, sentido mesmo, a vida não fazia. E que viveria com uma aquarela na mochila pra pintar o nada dos dias.
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Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004
Para Alessandro Palmeira
- Mente que eu sou o sonho lin...
- Você que está com problemas sentimentais, ligue agor...
- ... tenta e nove ponto se...
- rádio cento por cen...
- Se o telefone toca, eu penso que é vo...
Aaaah, Dindi
Se soubesses do bem que te quero
O mundo seria, Dindi
Tudo, Dindi
Lindo, Dindi
Aaaah, Dindi
Se um dia você for embora
Me leva contigo, Dindi
Fica, Dindi
Olha, Dindi
E o tempo doce e frio, época dos jasmineiros florirem com tanta raiva e urgência.
Desço a ladeira que dá na minha rua, subo à lareira que crepita tua ausência e assim, enquanto misturo vermute às reminiscências gastas e ocas da tua voz no meu ouvido, penso em como conseguir ficar mais perto, mais, talvez assim, confundida, amalgamada, pra podermos inventar um negócio quente e úmido, fundo, que chamaríamos de nós; entrelaçados com um desejo constante que me fazia rir sozinha, enquanto lavava alface ou andava no preto das madrugadas.
Uma vontade que me subia aos olhos, em forma de brilho ou lágrima.
"Assim, não esquece: um dia eu te roubo, meu anjo, um dia roda polícia, parente, cidade atrás de você e a gente compra os jornais com notícia do nosso desaparecimento e ri muito."
Quando eu desistir das gentes, te alcanço no luzir absurdo d'uma estrela exausta, meu farol te acudindo a tristeza.
Num vôo rasante e agudo, quebrado como uma música qualquer do Hermeto, minhas asas de pano e linha azul, uma agulha que espeta a veia dos demônios nessa solidão de você.
Muita gente, meu encanto, minha falta, distimia, muita gente a rondar essas ruas, a assobiar musiquinhas, muita gente costurando avenida e pressa, mastigando torrada e infarto, muito lixo, muita casca, muita gente e essa insuportável solidão de você tilinta como pedra de gelo no uísque da saudade.
Uma dama decotada e toda escarlate, os olhos pontiagudos quais alfinetes e os saltíssimos altos, com o dedo no copo me seduz e me tenta. Dama-da-Noite, Saudade, moça que me abrasa nas noites de inverno, me contorce no compasso dessa valsa ou ilusão.
Ajusto, desajusto, mudo a estação.
"Se um dia você for embora..."
em forma de beijo, o Tejo me corre nas veias de ti. Um gosto, molho o miolo duro de um pão de há-dias no leite espesso e quente dos desenganos.
Pra que ninguém veja nem saiba, um segredo abafado, afobado, caótico. Não conto. Preciso, assim, dos teus olhos vivos diante dos meus.
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Sérgio Castro
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