Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Sábado, Janeiro 24, 2004
E quando a festa acaba antes da hora? Pensei, com o rímel escorrendo, subindo a escadaria do metrô, chutando os copinhos de plástico com refrigerante quente. O vestido longo rasgado e a nossa linda festa finda. Voltei chorando e talvez tenham pensado que eu era uma louca muito miserável de alma, que havia perdido um gato ou ideal. Que havia perdido. Voltar pra casa sozinha e escutar o silêncio das horas, nenhum corpo, mesmo doente, no meu colchão. O travesseiro ainda com o cheiro dela. E jantar um macarrão meio frio, cumprir ritos noturnos e secretos, até que o sono viesse e algum simulacro de paz abrasasse meu corpo e a tua memória dilacerada.
E quando a festa acaba antes da hora? Agora o barulho cotidiano, as cenouras raladas, o exaustor sugando a gordura da carne, o cabelo em desalinho, as mãos espalmadas, o espelho partido a acusar os sinais da falta. O meu peito em estilhaço, os meus dedos sem soluções e na bagunça do meu coração, tantas linhas, tantas veias, esse sangue onde rodam as músicas que você cantava num espanhol de quinta, com uma graça que outra pessoa não alcançaria.
Nossas verdades amalgamadas, umas opostas, nossas discussões e poemas interpretados, eu chorando no seu colo e você a me dizer que algumas pessoas deveriam ser eternas.
Algumas festas, meu bem, deveriam também ser eternas.
Compro a passagem, tu preenches no colo, sentada num metrô que balança. Te dou o passaporte de liberdade. O meu ritual. Eu esperava que quando viesse a solidão, esta teria certo gosto de alívio ou descanso, algum prazer em estar sozinha com meus fantasmas e vozes dissonantes. Mas o que minha língua tateia é a áspera ausência dos teus olhos, do teu riso. Distantes aquelas discussões, dê-me de novo tua mão, a gente come pastel na calçada e briga na entrada do cinema, voltamos pra casa sozinhas, recitando Tabacaria e eu sei que não existiria nada tão fugaz e maravilhoso como tua presença. Nem nada tão pungente e largo feito tua falta. Suporto, me viro bem, lembra? Mas queria tanto...


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Sexta-feira, Janeiro 23, 2004
Me vem a imagem de uma criança que chora, desesperada, quando a mãe lhe pega pela mãozinha frágil e diz que a tarde está se indo embora, que o parquinho já vai fechar. Essa criança sou eu. Essa memória é minha.
Eu fiquei lá, triste, solitária, entardecida. E veio lua e veio sol e veio chuva e veio festa, passou maio, correu outubro, acabou 1989, caiu um dente, perdi um bichinho, perdi o medo, perdi-me de vista.
Não é só o tempo que passa, é a gente mesmo que vai se deixando nas sombras do trajeto, nas sobras dos sonhos, nas mesas do bar, é a gente se indo nas palavras; eu ainda não me levantei da calçada, tu te deixaste naquele sorriso, tu creste que meu ombro era repouso? Pois era neblina, era meia-noite te sugando pro buraco negro.
Ainda tem muita cerveja e a noite é uma criança, é essa menina lindamente desesperada, que agora atravessa a rua do parque e pergunta pro pai se depois que a gente morre ainda come galinhas fritas.


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Terça-feira, Janeiro 20, 2004
Impronunciável silêncio.

(...)

Tempo este de vacas magras.


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Sérgio Castro
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Palavras e Imagens

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... Flávio encara Marco, seu colega que fora acusado de furto no trabalho...