Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Segunda-feira, Novembro 24, 2003
Estou no sótão... Tão só. Não é bem medo, sequer o avesso. Me recomeço, final-mente. Um estado de torpor, estupor, um desejo inconcluso (Abuso). Fábulas em ato, sapatos me acham o chão. No frevo me fervo, no canto me encanto, lugarejo comumente e com gosto, ao invés do segredo ser dedo atado. É um tropeço, um pé que me engole, me lanha a proximidade dos dias. Entendo. Até recomendo. Me estendo, regresso ao Natal de mim, à terra donde vim, embrulhada no meu desespero. Redescubro minha pele, esse aperto, alumeio minha cidade que era longe e tão certa. Eu vim saber depois do Sertão. Ser tão nordestina sudestamente, modestamente, sãopaulicando, paulatinamente a Paulista me acabrunha, me mastiga, luzes dos postes que eram cegos. Sou cega. Sossega. O resto sempre foi o vazio, mesmo depois do silêncio, depois do acaso. Depois dessas trilhas que eram do meu trem e me desnorteiam. Meu desnorte é pro Norte, meu início, precipício ao contrário, salvação desde antes do parágrafo. Paragrafo na grafia dos meus sonhos contrafeitos, meu deleite marginal, marsupial, matagal, essa seta que me espeta o peito, me esperta os sentidos sonolentos. Tenho tudo com os braços estendidos, até voar apostaria, o vento calmo, a brisa recém-nascida, meus desejos esvoaçantes como a saia das mulheres que me beijam os olhos e o tédio.



São flores incores, são saltos mais altos, preferi o instante da pausa ao jazz alucinante. Preferi me ferir a descansar no previsível dos dias. Cigano aloucadamente sem casa, precipito-me ao navio que aponta a proa ao lado dos ventos sem ângulos.

(Alguém me acorde em Si menor.)

Entrecolho palavras que te enfeito como os índios antes da batalha. Meu menino guerreiro, certeiro, certeiro. Que flecha perfeita no meu peito acende, explodida.


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Sexta-feira, Novembro 21, 2003
A minha assiduidade na escola no quesito Turista e Lunática me fez adotar muitos personagens nos tempos (pra mim) vagos. Remexendo meu caderno do ano passado, me dei com alguns. Eis:

Caio - compra livros em banca de jornal, caçava gafanhotos quando criança, troca qualquer programa por um filme do Truffaut. Sua maior vergonha é ter tido uma vasta coleção de LPs da Xuxa e ainda por cima uma foto com a loira, autografada, não bastasse. Fez ballet moderno por dois meses. Perdeu a virgindade com a empregada e fugiram os dois, ele com quinze, ela com vinte e um, apaixonados.

Yara - fez aula de canto durante dois anos e meio. Se apaixonou pelas crônicas do Vinícius aos quinze anos e fugiu de casa para procurá-lo, afim de tentar casamento ou coisa que o valha, voltando três dias depois, sem a mochila, roubada na rodoviária enquanto dormia. Colecionava tatu-bolas. Carrega na bolsa atum enlatado e maçãs para eventualidades.

Carla - é frustrada pela casa na árvore que nunca pôde construir, morou na Alameda Santos por três meses, mas teve de ir pra outro apê por haverem muitas goteiras. Conseguiu trocar os anéizinhos de lata de refrigerantes por uma cadeira de rodas. É dona de uma banca de jornais.

Cris - é triste por não ter escrito "Vou-me Embora pra Pasárgada", cuspia fogo no circo mas abandonou a profissão por ter dado um chiclete de canela a um poodle, sendo expulso do "Circus Ferência". Até hoje está na justiça, lutando pelo nome que ele criou e continua sendo usado. Adora tomar café da manhã em hotéis só pra comer melão com presunto.

Frank - mais conhecido como Frankstein, contrariando o desejo da mãe, que lhe deu o nome por Amor a outro Frank, o Sinatra. Professor de Literatura, fascinado pelo Movimento Modernista. Ganhou, semana passada, uma caixa de potes de gel Bozzano do irmão, que trabalha na fábrica.

Fernando - aprendeu a fazer nhoque, gosta de refrigerante sem gás. Quando triste, resolve equações de segundo grau. Nutriu certa paixão por Marilyn Monroe quando adolescente. Tocava banjo na banda da escola.

Joana - vende bijuterias na praia do Recreio, comprou sete blusinhas por vinte reais que se desfizeram na primeira lavagem. Aprendeu a tocar gaita de blues na espera de um ônibus, descobrindo depois estar no ponto errado; o que a fez encontrar a verdade num chavão: "Há males que vem para o bem". Dorme quatro horas por noite e só toma sorvete de pistache.

Luana - faz coleção de All Stars e conchas do mar, pagou dezenove e noventa e nove em uma foto ampliada da Paulista antiga vista de cima, em PB. Trabalha no centro de São Paulo. Trocou uma caixa de talheres de prata da mãe por dez revistinhas da Mônica no mesmo ano em que soltou três canarinhos da gaiola da vizinha.

Guilherme - faz plantas de mil ambientes diferentes, desde criança, embora seja advogado. Leu a obra inteira da Agatha Christie, quando pivete se vestia com trapos para pedir dinheiro na estrada e sentir o que sentiam os mendigos.

Jéssica - nunca se deu bonecas de porcelana, só com as de palha. Tem um tique discreto que a faz repuxar os lábios pra baixo quando nervosa. Só ouve bossa-nova. É dona dos olhos mais lindos já vistos. Tem uma saia quadriculada de estimação desde os quinze anos. Toca violoncelo.

Jorge - Tem a coleção INTEIRA das Playboys, aprendeu a tocar violão com revistinhas de cifra, embora odeie Legião e não seja fã de Cazuza. Guarda zíperes e fotos ¾ de desconhecidos. Gosta de girafas e escala nos fins-de-semana.

Alexi - leciona História e seu maior ídolo é o Lampião. Tem uma teoria pra tudo e embora nunca tenha aprendido a se relacionar verdadeiramente, diz que o Amor nunca mais o atingirá. Tem o espírito gasto, gosta de cerveja. Seu maior orgulho é ter feito USP. Acha que o sexo é uma violação e considera o poema "A Bunda", de Drummond, uma das descobertas desse ano.

Tiago - poeta, gosta de "Dois pra Lá, dois pra Cá" na voz da Elis, não esquece uma menina com síndrome de Donw, de quem cuidou. Aprendeu que "quanto maior a expectativa, maior o tombo", mas mesmo assim, continua subindo o Everest. Sempre que desanimado, lê "O Último Discurso", do Chaplin. Sabe de cor um soneto da Florbela Espanca. Escreve Amor com o A maiúsculo, adorou "As Brumas de Avalon", vê fadinhas de vestido e não gosta de manteiga.

Alcídes - tem como ideal de vida: "aja duas vezes antes de pensar". Nos anos 80, cantou na noite, inspirado na "Língua de Trapo" e no grupo "Premeditando o Breque". Sabe fazer massagem como ninguém, sempre lembra de pegar os pacotinhos de sal que ficam no andar de baixo do restaurante onde almoçamos juntos, é matemático e foi mulherengo até nascerem seus filhos, por quem é perdidamente apaixonado.


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Sábado, Novembro 15, 2003
Plástica Memória Paulista

Agachada pra procurar o novelo que o gatinho havia jogado em algum canto difícil e empoeirado, se viu num silêncio agudo; o mundo se desfez e, únicos, levitantes na galáxia, os seus olhos doíam, assustados, na pasta.

De tudo que ela fora, sobrou aquela pasta com um elástico arrebentado, estúpida e verde, embaixo da cama e do bolor da memória. Registros, fotos, cartas, contas, cotas, certificados, convites e umidade. Um cheiro triste de passado.

Porque alguma coisa ficava, sempre.

(Sussurro drummondiano nos ouvidos internos: "De tudo fica um pouco. Não muito: de uma torneira pinga esta gota absurda, meio sal e meio álcool, salta esta perna de rã, este vidro de relógio partido em mil esperanças, este pescoço de cisne, este segredo infantil...")



Dourada borboleta que aplana num vôo calmo e inconsciente. O reloginho sobre a cabeceira sem pulseira e com a bateria já falha, cada movimento do ponteiro era um canto agônico. Restava o botão do paletó de lã do marido, o ranger da cama, o reumatismo, a eventual visita dos netinhos e uma espécie de desbotamento na vista e nas roupas, a cândida da lembrança, aquela saudade espessa e indefinível que já virara parte do seu corpo, como um músculo cansado, depositada no amarelo opaco do carne, entre uma ruga e uma lágrima. Um samba antigo do Ary, que ainda respirava no cavaquinho já sem cordas esquecido no quartinho dos fundos. "Um sabiá, meu violão e uma cruel desilusão foi tudo que ficou".

Tudo que ficou. A gaiola enferrujada sem pássaro, sem canto, migalhas de alpiste. Um colchão empoeirado e a pasta verde. Alguma espera já seca e pálida, o controle da tevê com os números apagados pela constância do toque, os dedos ásperos roçando a superfície cinza e plástica dos botões. Uma caixinha de música e o dançar moderno de uma bailarinazinha clássica. Um recorte de jornal. O aprendizado que não deixava de ser um jeito de se estar cansado. A maturidade insuportável era a dor dos traumas e esperas. As perdas, as folhas, as falhas, o registro.

Ateou fogo no colchão, que por seco demais, crepitava violento, mas resignado.
As últimas gotas de colônia, um esmalte cristalizado, o espelho trincado e um par de brincos, falsas pérolas na cômoda. A vaidade murcha e dolorosa, habitual e afiada. Uma camisa florida, de estranha seda, com a mancha de creme de espinafre que, vitoriosa, nunca saiu.

O fogo iluminando o salto vermelho, a face sem espanto. Jogou a pasta, que se foi derretendo, a composição estranha entre o que era pasta e virava vazio. O cheiro preto que era um grito que se sentia pelas narinas foi dando lugar a um odor tranqüilo, híbrido de naftalina e daquela espécie de saudade.

Lélia, ouviu, Lélia.
Mas ela já não tinha passado, não tivera ontem e deixou envernizada ao rosto aquela expressão resoluta, como soubesse sempre daquilo, como encarasse a dança nervosa da brasa em delírio desde menina. Já não tinha passado nem ruína nem estátuas de mármore, lembrança de gelo derretendo à pia. Poderia descer as escadas pelo corrimão, ganhar a rua, pegar o bonde fantasma que ainda passava, atropelando Gaetaninhos e personagens de argila, naquele trem que o asfalto mais insinuava que cobria. Aquela âncora. Lélia poderia sentir derreter sob a língua o açúcar dos anjos e se confessar aos padres: "Eu vivi". Pendurar a roupa no varal do quintal e retomar uma música do Noel. O apito, a fábrica de tecidos. Pião e refrigerante sem gás à porta da geladeira. Agulhas de crochê no fundo do armário. Esta vida que é efêmera como um espirro.


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Segunda-feira, Novembro 10, 2003
Quem é esta mulher?
Que se traja de desespero e cores
Que me trança nas pernas a dança do riso
- Aquela que esqueci numa quarta-feira
em meio aos destroços do Carvanal -
Que me liberta em compulsivo choro
Que me maltrata

(Pés presos ao chão
Quem é esta mulher que voa?)

Em qual rosto estará a máscara que lhe revela?
Em qual insônia seus vestidos me desestruturam o corpo?
Com quantos colares me enforca e me inaugura?
Em que olhos agoniza meu avesso
em festiva dança diversa
e divina?

Quem é esta mulher?
Que silabeia os versos absurdos de mim
De qual explosão de estrela se designa
- insinuante-
essa fêmea
que mais não existe que se toca?
que é mais transcendente que palpável?

Quem é esta mulher?
Que se desmente
Que se traveste
Que se desveste
e me alonga o paraíso
Esta que é a própria Gaia
O barulho de chuva batendo à vidraça

Quem são esta mulher?
Que se finge uma
pra ser permitida
Mas se multiplica através da divisão

Esta dama, esta dona, esta velha
Esta Yara, esta chaga, quimera
A cera desmontando a própria vela
Criança, doutora, neurótica, brincante

Mulher, quem sois?
Quais sóis?

Quem sou esta mulher?
Em espelhos quebrados
Meu rosto nenhum
(Anônima)
Voz dilatada
Eu, mutilada,
tateio às cegas
o que restou de mim
Que se deixou
Bebericando um café amanhecido
Em meio aos farelos de um bolo de batata
A quem espio à fechadura
Madrugada adentro
Rosa diversa
Voyeur de mim mesma

Quem és?

Me chamou de Adeodata das Flores
Mas das quais flores sou
Se este teu nome
É a rosa
a ROSAne
Se este nome é a minha lenda
Rosane Almeida


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Quinta-feira, Novembro 06, 2003
Fui um monge adoecido de solidão e fui o tempo de uma saudade. A tentativa inútil de um besouro se virar, a transformação do lagarto.
Fui o parto, fui o porto

O desânimo salgado pela maresia
o cinismo do quadro torto
do soldado morto
do vestido roto

Vim do agreste
da batalha
Caravelo

Tenho a dor pessoalista, apolítica
e um crisântemo perfeito
sem o suor da luta
corpórea
dos amantes

Te adivinho o desenho do rosto
o contorno indevido dos lábios
tristes



Meu desejo é um prego enferrujado
do tamanho de um Lorca

E mesmo com o pranto em desalinho
As rotas à deriva se indefinem
(se engalfinham)
para além do Horizonte

Rechaço
Se versão primária de um filme de quinta ordem
A língua trêmula
de onde pende um penhasco
um segredo decomposto
As letras humilhantes de um Amor extenso
e cariado

Os ossos que se dobram, elásticos
a osteoporose
que espaça
meus desertos
o caminho contorcido

Me trajo de graça
me finjo palhaça num enterro sem flores
Tenho lágrimas delineadas
com um lápis de olho
ao longo da ânsia
E vaidades que largo aos mitos
aos ritos

Te fito
te sinto
Me embalo no teu ritmo aflito

Você sabe.


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Terça-feira, Novembro 04, 2003
Era um dia melodioso e triste. Como escutar "Gymnopédies", algo doce e antigo. 665, avenida Moaci. Uma das últimas casas daquele bairro, vítima do que chamavam ascensão. Só porque o número de almofadinhas por metro quadrado aumentava. Mas ela não era almofadinha e nascia junto com aquele dia cosido a silêncio e linha crua.
Abriu a janela, por alguns segundos refém absoluta da rua ensolarada, "cruzada constantemente por gente" e "inacessível a todos os pensamentos".
O último quadro que pintara, com a tinta em despudorada dança, vibrava acendendo as luzes da casa calada de tanta noite. Mas era cínico o quadro. Não sabia bem...
"Eu quero estrelas e tenho uma rosa amarela". Silenciosa e rústica noite, sobretudo falsa, pois que o Sol já corria nas calçadas quentes. O sumo doce das frutas recendia, os cajus maduros como o olhar de Ana, pronto a ser apanhado, devorado.



Era tudo aceso demais, intenso. Era tudo embebido de século, de vinho, uma garrafa tombada que conservava o gosto gasto do dia, maná prometido nos anos de outrora. O ruído seco da agulha no disco, o cheiro forte de incenso que vazava pelas janelas. Fotos da Palestina. Tudo sangrava.
Seu nome ecoava na casa toda, como fosse um banheiro inteiro feito de azulejos, sem toalhas. O peso dos dias compridos era só amortecido, combalido, por uma espécie de calma interior, uma adestração de verdades, todo movimento cortava a superfície áspera do ar, um gesto de bailarino, trágico, em última dança.
Num desespero molhado, ela cravou a faca que serrara horas antes a carne triste de um boi naquele último quadro, que parecia o desenho do fracasso, um escárnio. O desenho do fracasso.
As tintas confundiam o verde envelhecido do carpete, uma mistura caótica lhe perturbava as idéias e sempre que o vermelho lhe ardia na vista, o som de Ana lhe doía na boca. Mistura de sentidos que a chuva que agora estourava, inesperada e sem nuvens na rua, abafava, fazia parecer que aquele entorpecimento, aquela letargia e sonolência dos gestos, a preguiça de lutar contra seus fantasmas era por conta da chuva, que deixa a tudo mais lento, mesmo as pessoas que correm na rua parecem de um tempo antigo, vagaroso.
Tudo ultimamente lhe remetia como que inevitavelmente aos braços macios da infância. A chuva, a avó, o café da tarde e aquelas estórias besuntadas de manteiga e outras delícias. "Quando eu conheci teu avô..." e tudo desaparecia, tudo era branco e preto e o bonde cortava a avenida central, em atropelo e espanto.
Ah, mas não se fazem mais chuvas como antigamente. Passou os dedos no vidro embaçado, descosturou um vestido verde e deixou que o resto da vida fosse uma maravilha dissonante, um gelado de orvalho depois da madrugada e aquele som... o espantoso som de Ana que lhe doeu fatalmente nos ossos, no eco das mumunhas que um dia sua menina lhe segredara.


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Sérgio Castro
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Palavras e Imagens

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... Flávio encara Marco, seu colega que fora acusado de furto no trabalho...