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Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”
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Quarta-feira, Outubro 29, 2003
26 de agosto de 1994.
Princesa,
te imagino os desejos por baixo dos meus desertos enquanto fumo um cigarro de palha. É um pouco além pra onde a fumaça vai, fico longe, fico antes, estou tarde.
Me dói o ocaso indefinido, a mancha de cores no infinito, as sombras das onças, preguiças e luxúrias que me naufragam os olhos.
Sinto saudades. Sinto os livros espalhados sobre esse quarto, o preço que pago, a pressa que vaza pelas frestas das portas e de mim.
Um tanto de vinho.
Me esforço.
A vida é meu deleite preferido, tenho sentido(s). Corro os olhos e o sexo pelas matas. Quero preservar meu doce paraíso e ouvir o cavaco dos meus mitos, dos meu gritos e eixos. Subo, indócil as escadas de madeira e ganho o quarto úmido em que uma lâmpada pende, débil e nenhuma. Coleto frutas e ontens. Protejo.
(Di Cavalcanti. Baile Popular, 1972)
Rimo desrumo com rota.
Prescrevo fórmulas afrodisíacas.
O resto desse cais (desse caos), o vento gelado desses lados. Um conto que te escrevo, inaudito. Converso tantos. São vozes, são vezes.
Meu fio desencapado eletrocuta os anjos que descansavam nos postes da minha cidade; da minha infância remota e tão dentro desse som. Gasta, putrefeita e rara.
Meu batuque
atabaca
florificundo nesses passos
ex-paços escassos
Minhas cores, a lã desfiada borda um sonho fotográfico, um ensaio. Escrevo, choro, era. Guerreira, metida a poeta, lunática, inconclusa, adjetivo e costuro. Corte e cole. Rompa. Um gosto de sangue, de terra, vinícolas caligrafam meus versos inversos.
Tropeço. Impeço. Sambatuco.
Dessa luta, não desisto. Sou o rubor da tua vergonha. O calor subindo à face.
Meu parto gera o sêmen
o gozo
Assobio o velho samba que compuseram em delírios etílicos numa mesa de alumínio, na calçada de um bar. Praça central, 328. Maracoteio um maracatudo, rio graça importantíssima, minha dança e dor é o melhor de mim.
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Segunda-feira, Outubro 27, 2003
E eu que estava com um discursozinho todo cheio de quero-coisas-além quando vi minha irmã sair de casa, casando com o primeiro namorado, indo morar num apartomentozinho de classe-mérdia pra Constituir Família & Ter Uma Vida Direita... Ainda penso assim. Ainda quero coisas além. Mas foi só ver meu sobrinho de três dias que fiquei assim: chorando, chorando, chorando...
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Esse cheiro, esse cheiro de terra depois da chuva é o que restou de você em mim. Sempre fica um pouco mais que as fotos e as cartas. Um pouco mais que o gesto e o suor. O cheiro de colônia barata depois do banho e as roupas trocadas, os livros abandonados, aquele parágrafo que anotei enquanto te esperava no metrô. E você não veio. Foi a noite, a chuva, o trânsito, a zona. E você não vai. Nem com as bicicletas, as luzes acesas nessa cidade deserta, as avenidas íngremes como meus passos, meus traços. Estilhaços. Fica sempre esse cheiro, esse cheiro de terra depois da chuva. Essa cicatriz intumescida e anônima que dizem que desaparece. Porque uma hora tem de desaparecer. Depois que seca, que apaga, que apega, que lateja. Mas meus sentidos, doloridos, choram essa solidão canhestra e estúpida. Minha sombra iluminada pelos prédios, rodo mil vezes em volta de mim, eixo absurdo e intranqüilo. Quiseram-me "casada, fútil, tributável"? E resta esse trauma, osso quebrado, dor amputada. Esse cheiro. Esse cheiro de terra depois da chuva que é o que restou de você em mim.
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Ando com energia suficiente pra dar conta de todos os eletrodomésticos que ligo juntos. A música que toca é mais bonita. Não sei por quê ando tão feliz assim. E emocionada, sobretudo. Qualquer coisa me leva às lágrimas. Alguns apostam-me apaixonada. Nem eu duvido. Vontade de correr o mundo inteiro, mesmo com tempo nublado, tudo chovendo, vontade de andar, andar, cantando. Fica até ridículo. Às vezes penso em sair de São Paulo, às vezes penso em seguir sem escoras. Às vezes penso, às vezes sinto. Inventar-me mais forte do que tenho sido. A vida me parece longa, a tarde, a arte. E antes, afobada, querendo transitar por todas as avenidas, descaminhos e vanguardas, o futuro envelhecido, agora acho que dá tempo, pra tudo dá tempo e dos meus dezoito anos, desses séculos e segundos reclusos na minha adolescidade, componho ilusões que me liguem ao resto, ao resto da vida que me resta, dos anos que me aguardam, do maracatu, das cidades que respiram, ofegantes, junto comigo, com meu ritmo aceso e pneumático. Minha velha idéia de reciclar os meses, ignorar o calendário embriagado e indeciso: às vezes pinga, ampulheta entupida, às vezes corre, tresloucado, moleque fugindo da polícia. Da polícia que sou eu, com meus cães farejadores, o moleque também está em mim. Hoje, eu juro por Deus, o mundo inteiro coube nos meus olhos e espaços.
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Terça-feira, Outubro 21, 2003
Estávamos na Paulista, fazia noite e poesia, eu flagrei os versos camuflados entre as gentes, refletidos nos retrovisores das motos, na garoa contra os faróis, num carrinho de pipocas. Ste estava extasiada com o filme que tínhamos acabado de ver; eu, contando trocados, inventando centavos, embriagada com as cervejas e a sensibilidade aguçada demais. Tentava explicar os microcosmos que eram meus e ela enxergava, às vezes tropeçava, passava batido, mas eu lhe chamava atenção pra que entendesse. Pra que me entendesse. Então ela ria, suplicava pra que eu continuasse.
- Faz três anos que eu vejo isso e ainda não encontrei palavras. Ah, como eu queria saber fotografar. Grafar com a luz. Se eu conseguir, um dia, pôr em palavras isso que sinto, que vejo, acho que vou ter sido feliz.
Dançávamos, enquanto eu choramingava estou-com-medo-de-me-apaixonar-por-ele. Nos restava rir, porque a vida é muito simples.
- O melhor solo do Brasil tá debaixo dessas calçadas. Que merda.
Eu queria pegar os diálogos, os olhares, o tênis pendurado nos fios telefônicos, o grotesco, os bêbados, o cotidiano. As feridas e excrementos, o humano. Espontâneo, inesperado. A foto que é tirada sem que a pessoa se saiba fotografada. Como eu queria alcançar o muito-fundo. A televisão ligada, a luz azulada refletida na parede, a caligrafia do meu poeta sobre o meu desespero. "Superfície e símbolo", eis tudo que somos?
Jogávamos futebol com os sacos de lixo, recitei alguns versos às pessoas que esperavam os últimos ônibus, ela comeu sonhos e fez pedidos.
Que persista, que resista, que isso se multiplique. O nordeste, o samba, esse outubro impronunciável. O Rilke me disse pra que eu tivesse calma e consciência: ao cerne, à essência mesmo, nós nunca chegamos. Ficamos rodeando esse desejo, são tudo palpites e tentativas, tiros cegos que bem às vezes atingem uma superfície macia, na qual adentram ferreamente. Mas deve ser sorte. Me enchem o peito de lanças, aterram fundo na carne, mas, ah, deve ser o acaso.
Deve ser o ocaso.
"Na ausência da água
tomei a sede"
(Alessandro Palmeira)
E na sua ausência, toquei o desejo, como se consentisse, por fim, o delírio da presença no desencontro.
Tudo era tarde, madrugada definitiva. Isso tudo só alarga o subjetivismo dos homens.
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Sexta-feira, Outubro 17, 2003
Fragmentos
Recortes da Minha Metrópole
Túmulos da minha necrópole
Revisito meu passado
Ai, que preguiça de viver.
"Por que tu ficou velho antes de ficar sábio?"
Descanso, alívio.
Ah, causas perdidas... São tantas as minhas.
Quero jogar um molotov no seu desespero
Ela lavava uvas. Eram duas horas da manhã e ela lavava uvas, enquanto pensava em coisas como preciso-rever-meus-conceitos, mas na verdade não sabia nem que conceitos. Prestava rasa atenção no que dizia, deixava os pensamentos num ir-e-vir sem barreiras ou memória. Tinha mais coisas que fazer. Como lavar uvas e andar sozinha pela casa com uma vassoura na mão. Não que fosse louca. Tu já deves tê-la visto com os cabelos despenteados, um vestido velho em farrapos, de uma cor meio salmão, meio rosa esmorecido, desbotado, inteira indefinida. Mas não: andava com o cabelo trançado e comprido, dentro de um vestido velho, em farrapos, mas verde.
Enquanto procurava entre os vidros pequeninos o de bicarbonato pra pôr nas uvas, como sua mãe lhe havia ensinado que era bom pra matar os bichinhos e impurezas, cantava uma música estranha. Ela tinha um pouco de medo, medo de perder o chão, o norte, os dias. Por isso pensava com tanta leviandade. Era do tipo subversivo pra si mesmo. Acendeu um cigarro e apagou as ilusões. Teve um receio muito grande. Não queria se perder. Se tivesse um bicarbonato pra matar as impurezas do medo. Se tivesse um salto que pudesse dar e fosse seguro. Se tivesse seguro. Mas viver, desde que tivera notícias do ato e do fato, era perigoso, guimarãesrosamente perigoso.
Acendeu uma vela, rezou mistura de umbanda com poesia e pensou, quase sem querer:
- "Se eu casasse com a filha da minha lavadeira talvez fosse feliz."
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Quarta-feira, Outubro 15, 2003
Muitas orquídeas, especialmente as do Ártico e das regiões temperadas, crescem no solo e são, portanto, terrestres. Não há espécies parasitas, embora algumas das orquídeas desprovidas de clorofila se desenvolvam intimamente associadas aos fungos, dos quais dependem para a sua alimentação (simbiose).
Nas regiões tropicais americanas, a maior variedade de orquídeas encontra-se nas florestas, onde as noites são frescas e o teor de umidade elevado. Muitas vezes as árvores estão tão carregadas de orquídeas, fetos, begônias, bromeláceas, gesneriáceas e outros epífitos que os ramos chegam a quebrar com o peso. A maior parte das orquídeas cresce em zonas onde há uma estação seca e uma estação úmida; estas espécies necessitam de um longo período de repouso, mantendo-se secas para florirem convenientemente.
Os habitats variam desde áreas arenosas até lodaçais e habitats aquáticos, desde as florestas sombrias das zonas temperadas até os topos de árvores das densas florestas úmidas intertropicais.
É possível encontrar orquídeas em praticamente todas as partes do mundo, mas a espécie mais linda, mais rara, mais viva se encontra na região nordeste do Brasil, em Pernambuco, mais especificamente em Afogados da Ingazeira.
Agora que você me encontrou, flor exata do meu inverno quase russo, estou ferrada. Mas tão feliz...
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Terça-feira, Outubro 14, 2003
Não tenho muito o que te contar. Te chamei aqui só porque queria... queria de volta as cores, quaisquer que fossem, que sejam. Queria a sensação de levitação, pés tateando o ar impossível dos quartos, dos cheiros, o veneno, o cloro absurdo das piscinas da minha infância. Inventar uma taquicardia, uma solução ao tédio. Mas nada, não, esquece. Mesmo dos sonhos, esquece. O que murmurei, o que silenciei, o ultraje, o murro, o muro, as sombras; o esquecimento é sempre o melhor fim ao que não poderia de novo se fazer desenhado nos meus olhos. Então, te peço.
(...) Mas não me fariam mal novas promessas, mesmo que incumpridas, quiçá mesmo imcumpríveis, a delícia de arquitetá-las, de, minuciosamente, escolher as melhores linhas que perpassassem os menores furos das agulhas enferrujadas que ainda guardo, mesmo que um futuro glorioso não me assaltasse, pelo menos a ingênua euforia de ter planos, um ímpeto maior do que a água gelada da torneira pra me fazer levantar da cama todos, todos os dias. Depois viria o trabalho irrevogável, à base de suor e lágrimas, às vezes gotas de sangue: acreditar. Fechar os olhos e crer no pacto dos homens, na vingança, no vir-a-ser, sei lá no quê. Não sei, não tô te propondo nada... mas um negócio -negar o ócio- inventar a beatificação de alguns pecados, sucumbir a uma religião perniciosa, acreditar, acreditar como as crianças nos monstros e super-heróis, como o menino que se joga da sacada, num vôo cego e último porque acredita, ouça, ele acredita nos seus poderes. A gravidade, o resto do mundo, o impacto, a poça de sangue, eles todos não têm a mesma verdade, mas enfim, esta é outra história. Acreditar como os homens que entrecruzam constantemente essa avenida no dinheiro como valor; como os adolescentes, na indestrutibilidade. Depois, a queda. O acidente. As paredes brancas de um hospital, o gotejar aflitivo e raso do tempo, do soro na enfermidade. A doença, quem sabe depois a doença e ainda, a cura.
As roupas brancas, o rosto lívido, as velas acesas. Primeiro foi o medo. O desejo de me desprender do que me acorrentava. Mas era, também, segurança. A maldição do apego, o fantasma da acomodação.
Agora, avulsa, nua e sozinha, procuro. Quem sabe. Procuro a gaia. Não quero conquistar o mundo, nem mesmo o teu. Queria só acreditar. Nem que fosse num homem que aqui viesse, a quem eu pudesse dizer: "Não tenho muito o que te contar."
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Sábado, Outubro 11, 2003
Daqui posso ver Muriel sem entornar a cabeça: sigo-o secretamente pelo reflexo da janela partida. Ele anda de um lado ao outro, inquieto, e tenho ímpetos muito fortes de ir, finalmente, abraçá-lo e dizer que se acalme, que as coisas são mesmo assim, os presságios, tolos apegos de quem não preserva a racionalidade. Mas apenas sigo-o, com a cabeça mal-voltada, fingindo-me chafurdado num trabalho-que-preciso-terminar-hoje. Ele deveria saber que eu não era a pessoa certa pra morar com ele e compartilhar o fel do cotidiano, o desencanto dos dias rodados; os dissabores das pastas-de-dente abertas, dos tapetinhos enrolados depois do banho, das contas que "você tinha ficado de pagar, pombas!". Cada vez que o encontro pelo corredor, quando se torna impossível não olharmo-nos nos olhos, sinto o brilho que ele volvia a mim mais fosco. Se o olhar é a janela da alma, como dizem, o dele está embaçado como naqueles dias em que aqui amanhece geando e tudo é aquela névoa tornando as coisas -essa vidraça e o mundo além dela- tão pouco nítidas, que outras.
Já pensei em lhe dizer muitas coisas. Às vezes paro de digitar e o encaro. Ele olha pra depois dessa rua preta, desse céu cinza, dessa estadia estúpida. Ontem Beatriz nos veio ver e fiquei ruborizado com a beleza dos seus movimentos. Muriel... esse senti-o hipnotizado como uma serpente. Maldita hora! Maldita hora que nos veio essa gente do circo. Tudo neles, essas cores, esses segredos que inspiram, essas traições que flagro, essa orla de mistério que os envolve, tudo nessa gente me repudia até o vômito. Donde já se viu uma menina assim, assim, tão graciosa o tempo todo. Ai que isso tudo me enoja.
Ontem Angélica também veio aqui, nos trouxe uma vitrola nova (ou o mais nova que é permitido às vitrolas que o sejam) e compotas de fruta. Até forno de barro tem. É um lugar, assim, meio atemporal, creia-me. Parece congelado como essas manhãs depois da geada.
Muriel pega um cigarro e no momento em que a brasa do fósforo toca o fumo, vejo seu rosto lúcido e como que também em brasas. Nos olhamos, ele sorri forçosamente, ainda não se despiu desses costumes bestas introjetados, não suporta meu rosto sério. É todo cheio de muralhas. Tomo fôlego -também eu tão pouco espontâneo- pra lhe dizer: "Quer conversar? Não tenho mais medo dos teus olhos de abismos"; mas olhamo-nos e só me sai um fio de voz: "Já dorou a pizza que estava no forno?" Ele abre a porta (sua tristeza me pesa nos ombros) e enfrenta a garoa do mundo de fora. Volta com os olhos nublados e desafina: "Falta um pouquinho ainda". "Deveríamos ter acendido o forno tão logo chegamos", eu penso em dizer, mas digo com os olhos que aceito o desafio, que venha a tempestade do seu pesar incontido, dos nossos arranhões avermelhados, de novo me consinto presa dos teus sentimentos bravios. De novo abro a porta dos meus braços e, abrasados, sei que de novo a força do meu silêncio dá ao seu corpo perfeito a possibilidade dos gritos sufocados.
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Terça-feira, Outubro 07, 2003
(Sebastião Salgado)
O atabaque soando qual grito distante, distante
Em tribo alguma, o meu desejo vibra na pele retesada
De um tambor proibido, de um bicho em extinção
De um homem tristíssimo
Canto longo de um povo que resiste
(Quiseram-no colonizado
Deram-lhe calças jeans e vocábulos im-pro-nun-ci-á-ve-is)
Fome aplacada
Dança liberta
Dialeto que, de milhares, hoje um único homem detem:
um professor velho, de voz rouca e trêmula, na sala vazia de uma faculdade em eterna falência
Heróis em destroço no ladrilho da cozinha
As gotas de sangue que me inaugurem o fim da ânsia
Se nada me acalma
Se essa sede secular
Essa brasa acobertada pelas cinzas
De bichos inanimados, de zumbis paraplégicos
Homens sem precipício
Esses movimentos tolhidos por ossos e curiosidade calcificados
Se tudo isso ressona distante do meu início
Uma trégua, um limite, uma dose
Uma dose de pinga ou de gente
Uma carícia de mão desconhecida num caminho inventado
Preciso de uma dose nessa dor
Cadáveres exaustos
Não me silenciem o grito
Com seus olhos de vidro
E suas bocas escancaradas
Por uma voz que ninguém alcança
Mas a mim, ensurdece.
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Sábado, Outubro 04, 2003
O Centro do Furacão
De novo a sensação e o ímpeto de querer tragar o mundo pra dentro do meu esôfago espavorido, entupido. Não cabe. Não cabe mais gente, mais céu, mais fome, não cabe mais planetas girantes, gigantes em mim. De novo o desejo que me consome e me faz assustada criança, querendo embalar e cuidar dos mistérios que me cercam, trapezista no meio-fio da vida, meio-dia gritando no meu paraíso. Eu sei que é possível e exige muito mais de mim e dos meus nervos esses passos precisos na corda de aço, náilon ou poesia. A obsessão me joga em um canto único da calçada, extremo: caminhar no meio da rua, entre buzinas e motos é audácia mais deliciosa. Me sinto resistente, ainda que consumida em lágrimas e tão alegre. Tenho em mim todos os sonhos do mundo. Um pequeno mas eficiente arsenal pra me jogar na lona desse império de desejos. Tenho gritos. Um livro de contos do Tchekhov, um colchão empoeirado, ilusões empoleiradas, algumas roupas coloridas e esse pranto já dito, mal-dito, aflito. Esse samba que me anima, essa gente que me atrai, conversas e cartas e danças. Eu, sim, vim aqui pra sentir prazer, porque encontro-o em cada brecha, nas fotografias que vejo nas folhas impressas ou nas cenas que congelo entre um ato e outro dessa peça que de mil atores, parecem todos protagonistas. Às vezes represento, escrevo, dirijo, às vezes inter-firo, às vezes somente observo, comovida, condoída, enojada. Sem intervalos. Depois descubro que é Ato Único. Suassuno alegremente, o riso me parece justo, se sincero. Eu sei de vocês que cheiram cola pra esquecer a fome, que são fuzilados, anônimos e ignorados, alguém lhes notou a falta? A Revolta da Chibatada, a minha revolta, "rubras cascatas" do meu sangue inútil. Eu sei da morte, espectadora do espectro do câncer, morro de balas em desrumos estúpidos, ouço Stravinski, tomo um gole de cerveja, tomo sereno no estacionamento entre uma aula e outra, entre os carros que não me guiam, com tua cabeça deitada junto a minha, enquanto me pede ajuda e me cede afeto e versos. Paradoxo do meu canto, reciclo lixo, almoço lasanha, recebo mensagens enigmáticas e sobretudo rio meu riso histérico; como é gritante minha alegria. Pinto estrelas que coleto, entre notas que sussuro e letras que soletro. Bendigo o samba, os Joões (Cândido, Bosco, Antônio, do Rio, Ninguéns). Espero. Entre tudo isso, um espetáculo de circo, o globo da morte, a fantasia, o palhaço e a pipoca, entre tudo isso, sobrevivo, entre um passo e outro, um lado do abismo, faminto pelos meus destroços, o outro, pela esplêndida queda, última obra, último ato, despenco do alto, milimetro meu tombo. Achei que cairia, que a dança desajeitada de um harakiri nos ares mancharia o cimento com meu sangue. Eu não sabia, não sabia que entre a queda e o chão, havia as asas. E não sabia que sabia voar.
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Sérgio Castro
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Palavras e Imagens
Fernanda-Irmã
Cotovelares
Misson, O Cara
Jordani Sou Eu
Castilho
Cat, A Mina
Leo Caobelli, O Iluminado
Phasmo, o Fantasminha
Ed, o Coelho Branco
Fernanda, a Imersa
Cris, o Furioso
Yane, O Monstro
Daniela, O Mito
Vitor, o Freire
Arara, a Teresa
Filipe, o Displicente
Coletivo
Lugares Bacanudos
Silvio Mieli
Na Orelha
O Dilúvio
Memória Viva
Vozes do Brasil
Mercado de Pulgas
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