Terça-feira, Setembro 30, 2003
Me perdoe a demora, o quase mês de demora. Nem viagem, reunião, trabalho tresloucado, estudos urgentes, nada disso que me tenha impedido. Apenas um troço chamado "eu". Ou, mais especificamente, mudez, veias entupidas, palavras escassas. Entende disso? Acredito que sim. Será que existem os que precisam escrever e não têm esses momentos de seca, quando as letrinhas pingam, as reticências se alongam pelo inverno, solidão e deserto? Páginas, páginas de oco silêncio. Medo de mim. Desgosto de mim. Entende disso? Penso que fica em algum cárcere o tal alfabeto, abro os dicionários, folheio livros, encontro-o, mas dentro de mim, imóvel, nem palpite, nem sinal. Sequer sombra. É uma coisa que só sabe doer. É um vício, um remoer, uma nostalgia e silêncio. Meus gritos estratificados. Minhas válvulas interrompidas. Minha gaia internada, irresoluta, vadia. Queria esse vento que passa assobiando fora de mim. Queria esses sons desafinados e tardios, essas fotografias, algo que me exprimisse, decodificasse. E então falo das lágrimas quando elas me umedecem os olhos e espírito, falo do vinho quando ele me adocica o paladar cansado, falo da saudade quando ela me assalta, saudade de mim e daquele que não conheci, com quem não convivi. Saudade daquelas noites longas e nevrálgicas, o barulho seco do semáforo mudando de cor pra carro nenhum na madrugada inútil. Saudade da sobriedade dos sentimentos e mesmo de quando trocavam as pernas e os acentos de tão mágicos e ébrios. Agora sequer sinto e mal-escrevo. Tracejo, tropeço, impeço. Que me rodem essas enormes avenidas, que me subam esses íngremes degraus. Montanha, cachoeira, aqueles dias tantos, inteiros, despedaçados. Quero desperdiçar a voz e o riso, o risco. Só me importa viver.
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Segunda-feira, Setembro 29, 2003
Não consigo dormir. Não consigo. Tenho ganas de engolir o mundo e abraçar todas as pessoas. Estou jogada num colchão empoeirado, as lágrimas já não cessam de correr há minutos, rodeada por jornais recortados e livros abertos, fitas de vídeo que ainda não assisti e aquelas músicas absurdas no meu ouvido remoto. Estou sozinha e esmagada por turbilhões que partem de mim, mas não cabem em mim. Leio fragmentos de tudo, que me fragmentam, que me segmentam, que me desesperam. As coisas me parecem densas e sérias, fico tentando alcançar a simplicidade, mas ela exige tanto. Exige que eu me dispa, me fira, a tudo negue, que saiba sentir a nudez do corpo em contato com o indizível. A solenidade, gravidade das coisas a tudo anula, é estúpida, um fardo que meus ombros não suportam. Agüento, sim, o mundo, mas não a responsabilidade de carregá-lo. Se vocês não me avisarem que ele está nas minhas costas, sorrio de dor flutuante, levito na melodia improvável desse riso, mas, ai, se me disserem, eu despenco dessa galáxia e talvez um dia semierga-me do primeiro degrau, com os braços rodeados de plumas e os pés presos àquelas correntes de ferro. É com tanta facilidade que o prazer me enlaça, é com tanta nulidade de esforço que minha gargalhada estoura, porque, sempre à beira de um colapso, qualquer coisa e flor e tinta me convence da beleza dessa gente; meu desespero é tão profundo, meu medo da bestialidade, a constatação da barbárie tão gritante que se uma bola de sabão colorir-me as cores sorumbáticas e parciais dos dados estatísticos e pesquisas últimas do IBGE, o deserto da Educação, o caos da saúde pública, a elitização da Cultura, o reflexo da bola de sabão que me faz náufraga em reminiscência infantil, convence-me. Facilmente a alegria me arranca da solidão, a dança se desprende das minhas pernas. Ouço a tua voz clara e limpa atrás do meu Inferno, toco com os dedos enlutados a superfície quente da vida que se debate, violenta, na sua pele, sinto o cheiro ainda vindouro da tua carne exata e finita colada aos meus desejos rebeldes e intermináveis. Fecho o livro. Contemplo a sombra das coisas que ora me medra ora me distraí. Uma tela à guisa de lustre pende, improvisada, do teto. Oriente Médio, lobotomia, práticas da polícia militar, Portinari no MAM. Penso na Valsa número Seis, releio Tabacaria e a voz entupida e nasalada ressona pelas paredes do meu quarto, da minha insônia, da minha memória. Finco quadros imaginários, colo fotos com fita crepe, revejo um cenário, alguns personagens de mim, algumas cóleras sucumbidas e palavras lapidadas. Desde o início quis ser sincera e tua. Desde o início quis ser simples e preservar nos olhos o brilho inconfundível e ingênuo dos mal-informados. Não estou sendo cínica. Mas... está no teto do meu antigo quarto e nas garras da minha lembrança:
"Você não pode voltar atrás no que vê
Você pode se recusar a ver
O tempo que quiser, pode se recusar
Sem necessidade de rever seus mitos
Ou movimentar-se de um lugar confortável
Mas a partir do momento em que você vê
Mesmo que involuntariamente
Você está PERDIDO"
(Caio Fernando Abreu)
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Sábado, Setembro 27, 2003
No ônibus
No início, meu desejo era aquilo que eu chamava de Uma Outra Coisa, tão inatingível aos outros e mesmo a mim. Com o rodar dos seixos, da violência e daquilo que ouvi dizerem "tempo", fui me moldando de acordo com os ócios, ódios e ossos, então meu desejo virou uma massa irreconhecível e espessa, tardia, dura e castanha. Dos meus olhos secretos, dos meus pés sem passos, dessas águas que correm, do meu resto, desse espectro de aspecto insosso e febril, que vegeta e se esgueira, tumultuado e fantástico, que se delicia no escuro dos entre-tempos, se acalenta no gosto de beijos oleosos, desse eu-em-mim complexo e deduzível, dos esparadrapos que me calam os dialetos estreitos e iletrados, desse tudo-meu delicado, fica uma imagem de fábula, de coisa irreal e certeira, uns lances de escada que ora galgo, ora despenco. Que se entorta, que se cria desse resto forjado e faminto? Que se pronuncia nessas cáries preteadas pelo tempo e pelo açúcar da esperança?
Desço oito degraus e vejo a luz fraca e inútil sobre um moço que revira os sacos de lixo. Me sinto só. Me sinto ontem. Me sinto além de tudo que detona e ressona. Espectadora do acaso. Principiante. Esquisita e enfim... triste. Das forças que se ensaiavam, sobra este olhar que aguarda e tudo guarda, registra, impreciso e dócil. Da espera longa, autêntica, que recende às orquídeas vorazes do meu desespero, que ostenta os ares da minha tolice... Ai. Que queria sorrir mais sinceramente. Ou então chorar, se isso fosse tudo. Ai. Que queria viver se o gesto se estendesse além do cimento. Que queria sangrar lentamente, em desapercebida hemorragia, essa solidão canhestra e miserável, que mendiga partes de braços e olhos atentos. Aquele blues sem vitrola. Aquela dor sem agudos, vapor, aquele vazio. Aquele fôlego. Aquele dia. Se você entender. Memória sem oxigênio é como estrela que se consome. Fobia sem hidrogênio. Inalação forçada. Meu dia. Teus olhos.
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Quinta-feira, Setembro 25, 2003
"Mas teu sangue encontro
Sangue derramado
É nos teus meninos
Correndo, correndo
Me parando a vida"
(PAULO HECKER FILHO)
A ordem é correr, sem diretrizes, sem erros, sem deslizes. Corta aqui, desvia ali, sinal amarelo, acelerar. E, serviçais do tempo, vassalos do espaço, se multiplicam e se diminuem, cabem entre um milímetro e outro, entre um ônibus e um táxi, entre um instante e o seguinte, correm. Buzinam, ouvem gritos, palavrões, se esgueiram, com o fôlego que já não cabe mais no ritmo do corpo, reinventam o tempo, comprimido, em pílulas, pra fazer caber no dia; pedem hora extra às horas, fazem hora extra aos patrões, ignoram o resto, o trânsito, as gentes. Fila de banco, penúria, disquetes, elevador, escada, recompõe o rosto e a infância subtraída dos traços. Não podem. Em alívio, com o capacete na mão, acompanham com os olhos secos do vento, esses olhos que guardam o espectro de um quando sem semáforos, acompanham os números vermelhos do elevador, odeiam as cores vermelhas do sinal e pensam em misturar as caretas e línguas às câmeras que os sufocam, aos empresários que reclamam da demora, às madames de roupas coloridas. Pedem um pão-com-queijo, "frio, não dá tempo de esquentar", entre um arquivo entregue e um documento recusado, rápido, rápido, o tempo, volátil, arteiro, tem nos braços esguios e compridos demais todos os segundos que lhes faltam, mas não cedem, e essa sede, esse limite, esse invólucro, ninguém lhes devolverá, então aprendem a roubar e entortar o pescoço, denunciar o desvelo do mundo para com eles, para com a vida, mas nem pensam muito. Não podem.
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Terça-feira, Setembro 23, 2003
"(...) um escritor escreve para não explodir. (...) Um escritor escreve porque não agüenta mais. Quem suporta mais um pouco, não escreve. Simplesmente vai pra casa, janta, vê televisão e dorme em paz. Dorme o sono dos justos, dos ignorantes ou dos otários."
João Antônio
E eu não agüento mais. E ainda que não sendo escritora, escrevo, porque não saberia não fazê-lo. Rio. E é sincero meu riso, vem do mesmo ponto íntimo e secreto da minha dor, vem do mesmo desespero do meu choro, do mesmo não-entender que me norteia do nada ao nada. Estou lendo Rainer Maria Rilke e ele me açoita em tranqüila inquietação. Me rega o germe da solidão, do monstro. "Quem me vê sorrindo, pensa que estou alegre", mas acontece que estou e mesmo assim me dói, me fisga, ininterrupta, lenta, drástica a mesma sensação. Estou exausta e sedenta, estou vencida e empunho, ainda, a arma, tenho a estrada e meus pés esfolados não aceitam mais os passos, mas ganho asas. Tenho o paradoxo e o vinho. Tenho a descrença e os sonhos. Tenho a língua. O Amanhã. O desejo. Milhões de folhas rasuradas em versos inúteis e dóceis que nem os olhos levanto pra reler. Tenho essa poesia, ainda, grudada nos olhos, que é o que me salva e me condena. Tenho a repetição que me cansa, me persegue, me desmotiva. Mas tenho os dizeres de Rilke, que me fazem levantar e chorar e temer. Isso que se chama futuro ou estrada. Eu tenho asas.
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Segunda-feira, Setembro 22, 2003
- ...
- ...
- (começo a rir um riso nervoso)
- Você tá rindo pra preencher o nosso silêncio?
- ...
- Sabe o que o silêncio é?
Rimos, eu já sabia, o Guimarães já nos havia segredado, silenciosamente:
É a gente mesmo DEMAIS...
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''Acordo tarde, e ando pelas ruas. Não quero chegar. Quero é andar, ver, olhar.''
Eu queria te dizer, Orlando, que aprendi muito pouco sobre a vida, tanto menos em pílulas e frases e definições. Mas o que entendi sobre a dita cuja até hoje, tem algo a ver assim... com andar e reparar e respirar mais fundo, entende?
Algo como "Não chegamos, sempre estamos caminhando" (Mario Costalunga)
Você, quem diria, quem diria, definiu assim, com tanta simplicidade, a vida pra mim. Ai. Que isso é tão perigoso.
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Domingo, Setembro 21, 2003
Queria pular a cerca, o mato, a dor. Queria ultrapassar o caminho, a crença, o óbvio. A morte das horas, dos lugares, sobretudo os comuns. Me cortar na navalha enferrujada do passado. Aguçar o tato, o fato, o nato. Se eu pudesse... ouça, se eu pudesse mais uma vez encontrar o olho do furacão, onde tudo é calmaria, depois do abismo, do perder, do se perder, encontrar a dialética, onde nada satisfaz. Segui o trajeto perfeito, desinventei os passos, as sensações, as relações. Desmanchei na boca o gosto do orvalho, dos dedos o toque adocicado de veneno.
É uma pena
Mas você não vale a pena
Não vale uma fisgada dessa dor.
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Quinta-feira, Setembro 18, 2003
Teu Desabrigo
Não consigo esquecer o gosto cálido e fundo do teu beijo no meu insuportável desengano. O inferno e o paraíso de Dante, traduzidos diretamente do italiano à sua língua doce e indiscreta, me revirando o que estava há eras no departamento de isso-um-dia-resolvo (junto com os regimes que segunda-feira-começo e os estudos que semana-que-vem-eu-planejo), me tocando os pontos inconclusos, protegidos pelos meus anti-corpos, glóbulos brancos, escudos de ferro e carne, cacoetes e reflexos inconscientes, rodeados por falsa e espessa cicatriz; fazendo brotar da calmaria rendada por fino fio de tédio e labuta da poça, os mares revoltos e adormecidos; eu tinha guardado no peito todas as tempestades oceânicas do meu desejo e, no entanto, sorria docemente com o leito previsível de um rio, em relacionamentos parvos, parcos e rasos, sem saber antes -ah, doce ignorância- que teus lábios me reservavam os vendavais e eu teria de aprender a nadar quanto mais cedo, ou me afogaria, com os barcos virados, a saliva me solvendo as tintas de um glorioso e estúpido passado. Tudo o que me faria amaldiçoar depois a puta que pariu o mundo, esse tanto de coincidência, a concomitância de tantos tudos tornando a vida viável na Terra.
A leveza perturbadora da tua língua (como uma menina tocando flauta transversal no meu jardim) em contraste com a trêmula e domesticada agressividade dos teus dentes me causando invisíveis feridas nos lábios e irreparáveis desacertos na tristeza. Os teus dentes: cordas tensas de um contrabaixo em desafinado desatino. Minha alma decomposta, desfeita, dissolvida. Eu cortaria a linha, descosturaria meu pecado, "pra reviver a tempo de poder"... Poder interminar as frases e inconcluir os traumas e chagas e apostas se assim bem resolvesse.
O espectro da tua boca naufragada no meu espasmo é o que resta de lúcido e lúdico nos meus relógios sem corda, ponteiros ou números, no meu relógio que gira contra as horas, a favor dos meus desleixos atemporais e irrefreáveis. Essa vida suspensa num tom maior, sustenido, escala diatônica, danço insensata dança num mísero pentagrama, sempre ao fim o símbolo da repetição, voltar, voltar, um som abafado de violoncelo depois da chuva.
E como a lembrança se molda na argila da saudade, como os dedos que tateiam obstinados a forma são suspeitos e parciais (ai, eles também arranharam tua pele), como essas mãos cegas que maculam e transformam hoje a memória são as mesmas que te enclausuraram os morcegos internos, que te rasgaram o ventre em busca de imagens inéditas, sentimentos inauditos e brutos, tão antes do esôfago, da mente, fecundos no primitivismo do âmago; as mesmas mãos que te ensandeceram a noite da carne rija, o cerne intacto em anônimo canto maldito; como todos meus olhos ultrapassando a miopia, o daltonismo, o astigmatismo, devorando as imperfeições e limites, meus olhos rodavam o oculto do teu lado, o grito do teu desânimo, fotografavam as cenas, as pálpebras, os sestros, as fobias, os traços e obscenidades, fotografavam como um surdo-mudo que aguçou demais vista e não sabe outro dialeto mundano e transcendente que não o olhar e capta o nevrálgico, o repentino, a fonética, a eloqüência, capta o "invisível para os olhos", o essencial. (Minhas fotografias de pupilas dilatadas.) Pois esses olhos, tão ativos e presentes no que chamei de ''nós'', que tudo viram, mesmo que fechados, contrafeitos e delicados, deliciados, mesmo que respeitando o que era íntimo demais até pra que nós dois víssemos, voyeur de si mesmo, meu olhar interno registrou e é o mesmo que agora vasculha inquieto, atormentado, viciado em algo entre o ópio e o éter, algo como o teu beijo químico, rígido, subversivo.
E eis que percebo que tudo é inútil e dúbio, à procura do teu registro, é tudo ilusório, sem parâmetros. Você em mim, esta estátua impenetrável de azeviche e presságio que é você em mim, o cheiro quieto e úmido dos corpos exaustos, esta língua, este drama, este conhaque e lábios, esta fúria e colchão sem lençóis, esta marca impronunciável e indelével que resgato, saboreio, desnorteada e impudica, este sangrar aceso que é você em mim, tudo isso, todo esse amontoado de fantasma e trauma pode, afinal, nada ter a ver com a dita realidade, com você, palpável e registrado no cartório lá no centro da cidade e de mim. Esses moldes, recortes e fotografias, o baixo, a flauta, a língua, a estrada, o morcego, a exaustão, Dante e a tradução, a mesma cena repassada tantas noites, o menear de cabeça, os cílios compridos contra a luz, o ceticismo, o mesmo olhar estratificado e silvestre, tudo pode estar num longe incabido no próprio espaço, incorrompível, vertigem, miragem, sabe?, tudo muito aquém de você, em realidade. Delírio das minhas enzimas, neurônios, madrugadas, síndromes, delírio do teu afastamento, da tua distância fraca, deprimida, estúpida, delírio do orgasmo, meu Amor.
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Terça-feira, Setembro 16, 2003
Por Andarmos Distraídos, Venceremos *
Noite Estrelada, Van Gogh
Ai, era tanta coisa pra escrever, mas a barrinha piscando (essa, que quando a gente clica com o ''rato'', fica intermitente, mostrando o campo onde devemos digitar) me mete medo e então não consigo mais dizer vírgula da Bíblia inteira que escrevi mentalmente no banho e enquanto os semáforos não abriam. Estou passando da glória à impotência em instantes. Há minutos a vida me parecia rara maravilha, uma combustão de acasos e arte, inteira arte, transpiração de expressões. Bem agora a certeza da cobardia, o asco das minhas atitudes, o temor das minhas dificuldades me põe no último degrau da escala humana. Transito, trôpega, entre o gozo e a ira, entre a dança e a queda.
Cometi uma insensatez hoje: fui com a Fê até uma livraria-papelaria e gastei o dinheiro que eu não tinha com uma tela, algumas tintas e pincéis. Voltei radiante com o saquinho nas mãos, mas cheia de expectativas e olhares, incertezas. Nunca pintei. Ando cansada do que traduzem minhas pupilas, ando cansada do que escrevo, achando tudo igual, as construções, os temas, os termos todos repetidos. Falei pro Pedro: ''Parece que uso sempre a mesma linha, as mesmas cores, o mesmo bordado'', ''Será que você não está precisando trocar de alfaiate?'' (Tradução VideoLar: ''Não está lendo coisas muito semelhantes?'') Respondi que achava que não, mas fiquei pensativa. Alguma coisa em mim tem querido passar ao lado de fora por outros poros, se desgrudar da minha boca por outro canto. As pinturas e fotografias andavam me perseguindo. O meu olhar, me enlouquecendo. A garoa fina contra o farol dos carros, o entoar bêbado e alegre de um homem fodido, fala de Jesus sua prece, uma menininha suja e assustada dentro de um carrinho de carregar tijolo, o rastejar úmido e doido de uma amiga num chão de madeira envelhecido, a música no intervalo do meu suplício, os óculos, a aresta, a minha estupidez. Eu não pintaria girassóis nem guernicas, vôos, nada que os psiquiatras se interessariam mesmo séculos passados, nada pra se deter o olhar por mais de alguns segundos, não seria esta uma noite estrelada. A mediocridade provavelmente seria o resultado dos meus traços histéricos, coléricos, pretensiosos. Mas que pelo menos me distraísse, me divertisse, me abrisse os horizontes viciados. Depois que o pincel fez o primeiro risco (vermelho), um grito miúdo e pálido de alegria me tingiu, contagiando meus desencantos. Eu quero mais telas brancas, quero mais destinos cegos, quero mais estradas azuis. Talvez, no futuro, eu consiga me deixar nas linhas, num palco, na mistura de tintas acrílicas num pote de metal. Talvez, qual um leproso, eu abandone pedaços vitais, mas prescindíveis, do meu corpo e assim eu não morra, mas acabe, ''me encante'', como diz meu Rosa. Fragmentada, esquartejada, no cheiro de um quadro, na tessitura dos meus enganos, na rima poluída dos meus prazeres. Como alguém que esquece o guarda-chuva no ônibus, esquecer-me, desavisada, dentro de vocês.
* Mistura de Leminski ("Distraídos Venceremos'') com Clarice (''Por não Andarmos Distraídos'')
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Alegria (Arnaldo Antunes)
eu vou te dar alegria
eu vou parar de chorar
eu vou raiar um novo dia
eu vou sair do fundo do mar
eu vou sair da beira do abismo
e dançar e dançar e dançar
a tristeza é uma forma de egoísmo
eu vou te dar eu vou te dar eu vou
hoje tem goiabada
hoje tem marmelada
hoje tem palhaçada
o circo chegou
hoje tem batucada
hoje tem gargalhada
riso e risada
do meu amor
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Os meus dias têm sido contornados pela casca espessa e inútil da tristeza. Eu sei que é desagradável ficar falando nesse tom e é por isso que não tenho escrito, ''se não tem nada de bom pra falar, que se cale''. Mas do meu silêncio ando exausta e estive largando minhas andorinhas em telefones públicos, salas de aula, conversas estilhaçadas. Há sempre alguém que me coroe com a intensidade que preciso, alguém que se dispa na minha frente e chore, chore, imite homens velados com a cor da tórrida insensatez dos hospícios, grite e aumente mais o rádio, entorne na privada o resto da garrafa de vinho e me passe um trago de ilusões. Alguém que me puxe, me sorria, me ofereça soluções miraculosas ou o gesto sincero de uma mão simbólica e física. ''Estou aqui'', me dizem. As cartas não chegam, me desencontro dos meus desejos, tenho tido insônia e rodado às ruas tarde da madrugada. Tenho me comportado como um lobo, mas acamada, exigindo mais agressividade nos meus atos, um berro ou tapa que lhes fira do mesmo jeito que me têm ferido, porque não sabem que tanto têm me machucado com essas frases estúpidas e risos insuspeitos, essa mediocridade que lhes transborda das bocas e pende, sangüínea espuma e brilho violáceo dos olhos insepultos. Passo algumas horas debruçada sobre pinturas, chorando. Terrível, delicada, remexida descoberta: um livro do Manoel de Barros com ilustrações da filha, as imagens me transfiguram, me inauguram, me reconheço em estranhamento e contorcido deleite. Mendigando sorrisos e tardes feitas do nosso café, implorando pelo teu choro, pelo teu desastre familiar, pelos nossos encontros que nos jogam no precipício de nós mesmas, depois de tanto tempo. De novo. Pedinte. Me esfolo nas sarjetas desses peitos, deito à beira de qualquer luar descomposto, tardio, minhas sombras e exaspero. Mensurando o tempo. Quarenta e cinco dias letivos, teóricos, acadêmicos. Moribundos, alheios, estéreis, impotentes. Fôlego, sobrevivência, amargor. Esse gosto de terra na boca, essa víbora mastigada entre minhas dores, letal veneno injetado nas pílulas que prometem noites tranqüilas e ininterruptas. Um dia você volta, com menos sufoco nos olhos, um dia volta e me convida pra sentar do teu lado, enquanto guia o carro e meus ensejos, muda as estações do rádio e do meu ano. Me sintoniza entre essa paixão insuportável e os quartos que nos dividem. A sala da terapeuta, aberta, me espera. O ânimo, os sentidos, as febres me aguardam, urgentes, com precisão. Ainda não. Tenho cansaço, embora nas ruas anônimas do meu percurso eu tenha, de novo, descoberto em alívio que a poesia não apodreceu nos meus olhos, o que me dá muita luz, raiar delicioso nas horas da madrugada. Me alinha o sotaque, a breguice, me fala da ruína das minhas composições de cores, roupas, arranjos dialéticos, poéticos, inoportunos. Pó falá.
(Meu irmão chegou e sorriu. Apertou os olhinhos, foi à cozinha procurar restos de comida gelada e me gritar as velhas gracinhas que ainda me provocam esses intermináveis risos. Disse que está bem. Como a rosa que, mesmo que feia e desbotada, ainda flor, fura a calçada de Drummond; meu irmão, ainda que com restos de amor-mal-curado e reflexos imperfeitos, ainda ele, me fura o gosto sombrio da tristeza.)
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Quinta-feira, Setembro 11, 2003
À sua Ausência
Antes de se ausentar de mim, enquanto arrumava os quartos, ele me deu um pacotinho cheio de sementes de girassol. Mas outras sementes que me dera ou que eu, naufragada em distraída exaustão, furtara, vingaram mais agressivas. Ríamos muito, principalmente. Ele é bonito como um desejo, me fala das coisas mais doloridas com um humor que a tudo alivia e me faz suportar. Está sempre por me ligar, sempre nessa semana, nesse dia-seguinte, pra almoçarmos juntos numa casa de sushi, porque estamos distantes e era de certa forma confortante sabê-lo tão acessível nos meus escombros e nas minhas noites; nas nossas insônias. Um dia nos abrimos tanto que selou-se um pacto implícito e grave, quase-eterno, feito de cigarro, uma janela e aqueles devaneios sobre as ruas e pessoas. Sua companhia me dissolvendo o dissabor, a desgraça, a incompreensão. Sua cumplicidade me acariciando os presságios, o medo do fracasso. Toca violão como extraísse de si a dor e a cura; já me explicou sobre os bemóis, as quadraturas e a harmonia, mas tudo que me restou daquelas aulas foi a memória de um estado pasmo e assim, meio bestificado, admirado, quando estávamos juntos. Lutávamos sumô no tapete da sala e ele me ensinava a equilibrar laranjas atrás do pescoço, as guerras de guardanapo e água se estenderam até nossa suposta maturidade, se alongam jogando cores no meu desespero. Às vezes há o mau-humor e os desencontros, o abraço que arranca um pedaço dos meus crimes e percepções, o beijo que desvia da face e das intenções, é jogado aos muros caiados, às nossas guerras e garras, desentendimentos. Temos medo e sentimos que ainda há muitas curvas imprevisíveis que escondem ensejos de incontáveis bifurcações nos caminhos que tateamos às cegas, às vezes iluminado pelo grito brilhante de uma estrela muda, pontiaguda, nos ferindo os sentidos fragilizados. Ele pensa em ir à Europa estudar música. Eu penso em ir ao Nordeste entender as cores. Conversamos sobre filmes e ele deu pra se interessar por Física Quântica; dia desses aparece no meu quarto, que era dele, e me pede livros do Dante, folheia, deixa umas fitas de vídeo sobre o Cosmos descansarem na minha mesa e fica sério e ri e se esquece de tudo porque ultimamente tem fumado demais. Rimos muito e não entendemos nada. Dançamos, confusos, os compassos de uma nova dança. Agora, o Amor. Os chás de bebê da Bia, os vídeos do ultrassom, os almoços silenciados, corridos; em puro deleite de compreensão, eu o encaro e, mais uma vez cúmplices, extasiados, sorrimos. Sem muita consciência. Sem muita virtude no meu exaspero, sem muito caráter nas minhas atitudes. ''Eu, tantas vezes vil'', que só aprendi a gostar muito ou a não gostar, que pratico com convicção os meus prazeres e excessos, que abro aquelas garrafas de vinho dos nossos segredos. Escolho um princípio, um detalhe, um Amor. E a ele, que é meu irmão e desenho, meu pedaço e princípio, por ele, eu choro discretamente uma hora inteira jogada no sofá, numa sacada que não existe e, velada pela brisa da madrugada, silabeio esse desejo impróprio de estrela partida, o explodir inaudito de um astro que era inteiro. À sua ausência, o meu silêncio.
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Quarta-feira, Setembro 10, 2003
Eu me lembro. Estava esperando o painel eletrônico anunciar meu número (6528) pra tirar a segunda via de um documento que havia perdido. E aconteceu. A vida se dissolveu, como se eu a tivesse desvendado, completamente; como se houvesse, por fim, resolucionado A Equação. Me pareceu simples; óbvia e efêmera como uma flor de cheiro adocicado e adoecido. O assalto, o sufoco, a bomba de Hiroshima, o delírio, a navalha, a febre, um tiro no peito, trespassando a caixa torácica, a vida, as dimensões. Um sorvete, um café na padaria, uma crônica do Rubem Braga, a fila de espera nos hospitais públicos, a urgência, a garrafa de vinho deitada, o latim, o Bolero de Ravel. Foi como se eu pensasse ou sentisse tudo isso descompassada e descompromissadamente. Então, afinal, era isso a vida... E pra que o Vestibular, o cinismo, a estratosfera, a insulina, as línguas ensandecidas em beijos grisalhos, antigos, tardios? Pra que a segunda via de um documento perdido, as traças, o trânsito, a lipoaspiração? Pra que a terapia, a Tabacaria, o Esteves, o prozac? As promoções, o estrangeirismo, Zapata, os erros, um quadro de Bosch? Aulas de aritimética, as dúvidas, as dívidas, as favelas, o DRT. Tudo desvelado, o Maluf, a insônia, o marasmo, o orgasmo, tua mão me desfigurando o paraíso. Prestes, o câncer, a família, a lógica, esse inútil maço de cigarros. A Xuxa. Todas as coisas estranhas, antagônicas, compridas... Que grau esse de complexidade ou extrema simplificação que atingi, como o olhar de um jardineiro postado sobre as flores silvestres, num milésimo de segundo, no fragmento de um instante partido, perdido, sem artifícios; um lírio branco entre minhas reentrâncias, um sopro de alívio no meu desespero, a pura sensação de ter entre meus dedos a vida. Respirei, coletaram minhas digitais, sorri e senti sono. Ônibus lotado, diálogos interrompidos, o vendedor de balas, a loja de sapatos, o carteiro, muita poesia me sufocando. Dormir, enfrentar, ressurgir, ignorar.
Não sei, meu Deus, não sei. Que ousem as Ciências, Religiões, Doutores me explicar. Foi pouco, rápido, por um instante, entre um número e outro, entre o soco e a dor, ação e reação, delta tês e Nietzsche. Mas eu juro que entendi a vida.
(E quando vier a morte -porque a eternidade não está entre minhas alucinações- espero que seja algo assim, resoluto, definido. Como uma resposta.)
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Segunda-feira, Setembro 08, 2003
De tudo que me medra, me açoita e me inferniza, de todos meus tormentos, há um que reina, absoluto: a possibilidade da solidão. Não a solidão física, nem o desolamento que sinto muitas vezes por dia, debaixo do cobertor ou respaldada pela multidão; é uma outra coisa... Como definir? Um terrível medo de sermos, afinal, sozinhos, de todo o resto ser tentativa de camuflar a incompreensão que carregamos, de todo contato, toda intimidade significar, no fim das contas, das estradas, de nós, só uma vaga centelha, um aceno de mão que treme em desespero distante anos-luz, uma pequena estrela de brilho difuso. Medo de correr todos os universos, procurando pessoas pra me tapar o buraco da noite e, sim, encontrar gente, mas, quando haver, ser ''igual à outra''.
A super-população, o alarme já tardio de que o planeta não suporta esses seis bilhões, contrasta terrivelmente com minha solidão, torna mais inexplicável e rouco esse ''frio de inverno em terra estrangeira'' que Caio um dia me definiu. O choro, o vinho, o riso, o estribilho, a bancarrota, o ombro, o cigarro, a boca, a ira, o sexo, pode ser tudo delírio, talvez sejamos, afinal, lobos da estepe, da urbe, do caos. Tudo impreciso. Por todas as vezes em que me senti só e não estivera, por todas as vezes em que estive só e não me sentira, por toda inclassificação, dor e presságio dessa tal, como vencê-la se sequer ouso encará-la? Se nem entendê-la, contê-la, esfaqueá-la posso?
Ontem achei um poema do Renato Rezende no caderno ''Mais'', da Folha:
O Outro em Mim
Presta atenção: a vida inteira
esperando que um dia algúem nos dê a mão.
Na adolescência, para mim, era uma sombra feminina
que eu levava para todos os cantos, e amava.
Eu amava estonteantemente aquela menina.
Nunca veio, nunca virá: meu próprio espelho.
Estamos essencialmente sós neste mundo, mas não tão
sós a ponto de poder fazer de cada momento
um momento sem qualquer desejo,
puro e pleno.
Nunca veio, nunca virá: meu próprio espelho.
Já fiz essa pergunta há semanas atrás, retomo: Será o Amor puro narcisismo?
Eu não creio.
. . .
Quinta-feira, Setembro 04, 2003
Ultimamente tenho pensado que se eu soubesse fotografar, sofreria menos. Estou tão sensível. O mundo inteiro se debate dentro de mim e ela sequer supõe que me tortura tanto, privando-me do seu respirar que eu adivinhava no entrecorte dos seus murmúrios tardios. O mundo inteiro. Ah, se eu soubesse fotografar o que meus olhos registram... Um dia, andando nas ruas, eu estava num filme, juro, faltava-me a câmera e a sensibilidade exata de um diretor; mas as cores eram tonais, perfeitas, as falas, meu Deus, as pessoas não faziam idéia de que eram protagonistas de uma película que se estendia em mil rolos dentro de mim... Comecei a chorar. Algo que me puxasse, por favor, daquele torpor, daquela fúria, daquele cinema tão dentro de mim, alguém que me batesse naquelas portas ocas dos olhos, que fizesse soar o alarme de incêndio, que viessem lanterninhas e me dissessem que eu não poderia ficar, não precisariam explicar nada, camisa-de-força, nada, eu sairia, juro por Deus que trilharia o caminho daquelas luzes, sem atrapalhar o resto da platéia, sem chutar os baldes vazios de pipoca, sem abrir demais a cortina, iluminando a tela, esfacelando as ilusões tão frágeis... Simplesmente sairia e, liberta, ganharia a rua, a poluição, os ônibus descendo, quem sabe, a Augusta. Mas ninguém veio. Eu esperei. Acho que até pedi, em delírio. Entrei num correio, fiz perguntas tolas, indagações sobre prazos, sobre selos, sobre a morte. Me respondiam. Eu era louca, mas me permitiam, deixavam que eu trafegasse por aquelas calçadas, que eu chorasse, se discretamente; que as claquetes me tingissem a ira, me cortassem o susto, a queda, a minha interminável cena; personagens complexos, brasileiros, livres me turbulavam inteira. Me deixavam. Então era isso? Era pra isso? Acenei pro guardinha, pro porteiro, fui subindo as escadas, procurando as câmeras, algo como ''sorria, você está sendo filmado'' me apaziguaria, eu já saberia que era isso, um show de Truman, talvez. Mas nada. Almocei, o choro entalado na garganta, minha poesia em grau de ebulição, mas quando a ponta da caneta encontra o branco do papel, num grau máximo, ela evapora. Algumas frases bestas e o meu olhar em desespero, alguma coisa que me liberte. Nada. ''Bem, cada qual tem seu fado, e nenhum deles é leve.''
Eu escuto, leio, toco o seio da noite, mas invento e vou ao pátio, fico tomando Sol, conversando sobre a poeira que desce e encontra a cidade, sobre as nuvens que nos enclausuram a vista, nos privam do azul adoecido e incrível de um céu boiando acima da minha madrugada e do meu inverno. O meu inverso. Vou à livraria, consulto preços, observo as prateleiras, os títulos, uma hora, duas horas, absurda. Achava que antes da loucura, a sociedade gritaria um pouco, olharia mais feio; achei que sairiam desses bares, rindo de mim, que contorceriam as expressões do rosto, que pendesse inútil saliva pelo canto da boca. Mas vou me metamorfoseando, lenta, incompleta, caótica. Não estou mais dentro da lei e não sinto-me errada, apodrecida. Estou aqui. Quem sabe um dia me internam. Será virtude ou maldição esses olhos doentes?
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Sérgio Castro
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