Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Quinta-feira, Agosto 28, 2003
O Encontro



''Você iria ao inferno'', me lembrei da convicção que ele me transmitira ao afirmar isso como se me conhecesse não só há muito tempo, como intimamente, parte por parte da minha estrutura indefinida, como tivesse nos olhos o raio-x que me desvendasse absolutamente, como se suas mãos houvessem tateado meu recôntido abismo enquanto eu dormia, como se seu olfato aguçado tivesse alcançado o cheiro secreto dos meus demônios. E eu que criei artifícios para que meu indissolúvel mistério se mantivesse sobre os olhos pálidos e míopes do resto do mundo, me via agora como que sem véu, sem máscaras, sem nada que detivesse o meu segredo. Eu iria ao Inferno.
Descobri isso no ônibus: alguma coisa me tirou a atenção da leitura, cravei os olhos no movimento estúpido e nefasto das patinhas de uma barata que inspecionava o assento vizinho ao meu. Sem susto, apenas acompanhei com uma distraída curiosidade o rodar inquieto de suas anteninhas. Não era lá muito grande, nem minha vista potente o suficiente para ampliá-la, fazendo-a dos insetos o mais grotesco, transformando sua boca em bocarra, botando em suas patas horríveis cerdas ásperas, que me grudariam nos cabelos, nos pesadelos, que nunca desgarrariam da minha carne trêmula, não despencariam das minhas estrelas e roupas de lã; mas era, afinal, uma barata, com tudo que tem direito um inseto dessa espécie, com tudo que há embuído na história, no corpo e no mito de uma barata: doenças, indestrutibilidade, morte dissimulada, o nojo que provoca um ser que caminha pelo esgoto (e o pior: gosta), até em jogo minha feminilidade, que tipo de mulher seria eu se não subo no banquinho gritando: ''Querido, corre aqui, tem um bicho ENORME me perseguindo, ele vai pular em cima de mim, amor''? Uma questão de higiene eu me apavorar.
Sem racionalizar, sem todo esse juízo de valores, sem repassar o mito da barata no inconsciente coletivo, seria uma obrigação o pânico. Mas, ai de mim que sou tão estranha, como num livro da Clarice, a barata, ao invés de levar meus comportamentos pequeno-burgueses às cucuias, me fez ir do esperado externar à mais profunda introspecção: olhava ao inseto como se nele eu estivesse refletiva, enxerguei os meus mais indelatáveis e primitivos sentimentos. E não tive medo. Entendi que, sim, eu iria ao inferno, chafurdaria na dor, num anônimo fracasso que a sociedade acusaria, mas que eu, devotamente, chamaria de Encontro. Eu também caminhava no esgoto, no subterrâneo. E desceria ainda mais, enfrentaria os Outros, o inferno que, Sartre já disse, são os Outros.
Nos trâmites dos meus pensamentos, com inesperada calma, entendi que não só não repudiava, como queria a barata, queria sê-la, tê-la, assimilada, apaixonada em sua vida assumidamente suja, com todo o preço que acarreta trazer entre os atributos, esse.
No entanto, não foi sem alívio que percebi que ela já se cansara daquele assento, indo ao de trás. Talvez eu ainda me percebesse capaz de me ausentar, me afastar do esgoto, talvez o descontrole da possibilidade do grito que não me subiu à garganta ainda pudesse recrudescer, deslizar nas minhas pregas vocais sem resistência, talvez eu ainda pudesse voltar; negar o que já havia assumido, incorporado, voltar atrás naquela noite em que, fascinada, desembrulhei o amor das cascas e escoras, fruído, inaudito, devasso. Talvez pudesse ainda seguir os passos do gado, acreditar na virtude, nos castigos, no ser magnânimo, nos mandamentos, talvez quem sabe até inventasse mais, tornasse minha Bíblia mais cheia de paredes, cercas, noções mais estreitas de intransigência.
Ah, mas eu já havia descoberto, o irrevogável encontro com a barata (essa e outras) já havia sido travado, esse encontro era minha certeza, meus pés eram feitos de cimento: eu costurei asas e fui ao Inferno.


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Terça-feira, Agosto 26, 2003


Pois que tenho alguma ligação com Clarice não posso negar. Não, não quero dizer que ela tem comigo. Ainda que sozinha, algo muito forte me joga sangrando nos seus braços e me separa nos seus parágrafos. Acho que todo mundo que a Ama, tem esse desespero, essa ligação transcendental, visceral, absoluta. Nunca me esqueço de um dia em que eu estava na sala lendo ''A descoberta do Mundo'' (eu sempre sei quais são os dias certos pra ler Clarice e Rubem Braga, eles têm uma áurea e cheiro diferentes) e eu sabia, juro, sabia exatamente qual seria a próxima frase daquela crônica, eu adivinhava palavra por palavra, como um déjà vu que durou minutos ininterruptos. O êxtase foi quando li: "Eu quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum e interessada e não saberei que nesta encarnação fui eu quem os escrevi. Está me faltando um aviso, um sinal. Virá como intuição?'' Lembro que fechei o livro e chorei por algum tempo, sem entender nada.


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Domingo, Agosto 24, 2003
Nietzschedamente todo homem maduro deve se perder de quando em vez.

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Minha veia da escrita desentupiu... Vocês terão de suportar...

Quando eu era mais menina, gostava de ficar rodando, rodando, rodando até, tonta e feliz, me largar no chão, sentindo tudo continuar girando. Gostava de repetir uma palavra vezes seguidas até ela me parecer estranhíssima e eu ficar me questionando sobre essa nossa Língua Mãe. Adorava acordar com o dia raiado, o sol se insinuando bravo e lindo pela janela do quarto, ouvindo Gal cantar Baby. Morria de medo do vento me levar, de cair do beliche (fato que mais de uma vez se consumou) e tinha vergonha até de pedir um sorvete ao sorveteiro: era tão tímida que passava por mal-educada, mas sempre amei com desespero as pessoas, embora não pudesse dizer e mal suportasse sentir. Tinha nojo de cigarro, se eu gostava de um menininho e soubesse que ele já tinha fumado uma vez sequer, já desgostava. Chorava muito, trancada no banheiro, tinha muitas dores de cabeça de tanto chorar e a crueldade das pessoas sempre me apavorou, ao mesmo tempo que, de maneira fragmentada, me lembro nitidamente das vezes em que eu própria fui muito baixa. Adorava mexer no armário da minha mãe (mania essa que mantenho até hoje, curiosa e desrespeitosa que sou). Amava material novo e até a quinta série, a escola me parecia muito convidativa. Até que comecei a me apaixonar obsessivamente e o resto do mundo me desimportou. Queria voar; um dia peguei duas pluminhas, subi no beliche e fiquei batendo os bracinhos, até que pulei. Deve ter sido bem ridículo. Aos preocupados (alguém?), não, não me machuquei, só bati a cabeça e meus problemas psíquicos talvez se designem daí. Adorava os cinco segundos de estranhamento quando dormia na casa de uma amiguinha e não sabia onde estava ao acordar. Nunca tive Barbie e ao invés de trauma, trouxe orgulho disso. Gostava mais de bichinhos de pano. Bolinhas de sabão, como me encantavam... Tão lindas e reluzentes, podiam subir, subir, subir, mas tão frágeis, se autoconsumiam, o reflexo colorido ia se tornando opaco e explodiam, deixando uma umidade transparente no ar. Fazia poemas sobre a aranha que arranha o vaso de porcelana, dançava muito na sala e achava minha família perfeita. Roubava farinha e sal da cozinha pra fazer massa de modelar, tocava flauta-doce e tinha medo do Chacrinha. Gostava das viagens de doze horas no carro se eu pudesse ficar na janela, enquanto as coisas passavam depressa demais pra que eu pudesse deter meu olhar e meus pensamentos pareciam voláteis e desconexos como as árvores. Brigava tanto com meu irmão que minha mãe teve de inverter nossos horários de escola pra nos cruzarmos o mínimo possível. Ela só não sabia que aquelas unhadas e marcas roxas, dentadas e choros não eram mais do que um amor imenso e mal-organizado, amor e ódio de amar, medo de perder, sentimento que entendi melhor com o passar dos anos, com o desenrolar das conversas. Fiz primeira comunhão e das aulas de catecismo o que mais me impressionou foi quando disseram que cada "má ação equivale a duas boas ações''. Achei esse jogo muito desigual e busquei outras respostas às minhas perguntas ainda nada formuladas, já que boa menina eu não conseguiria ser mesmo. Não entendia, juro que não entendia por que tinham meninos da minha idade na rua e eu voltava a uma casa. Mas isso também não mudou muito.
A minha impressão é a de que cresci tão pouco, de que esses anos ainda são frescos e próximos demais. Como se um dia eu pudesse acordar e enxergar as coisas todas assim, ter esses pensamentozinhos esquisitos, essas vontades apaziguáveis (que não voar). A memória da minha infância tem sido recorrente, talvez por essa coisa de arrumar armários, por essa incerteza do meu caminhar. Não sei pra onde estou indo, às vezes corro demais, às vezes passeio e me detenho com a paisagem, às vezes paro. Mas estou indo. Já estive mais ''Perto do Coração Selvagem'', agora talvez eu o tenha tragado, sendo tudo isso e um pouco mais.


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Ainda insisto que eu queria ser alguém melhor, que trouxesse na boca palavras novas e edificantes ou que assumisse, finalmente, a vulgaridade sem mais resistência. Mas teimo em querer ser profeta de um mundo que, confesso, acredito. Acredito nas besteiras que prego, sinceramente acredito no ser-humano e isso me vela amargamente; ainda me contorço sobre o tapete da sala quando descubro os destratos de pessoas que sempre supus maiores, ainda que eu ria. (E rio muito.)
O sucesso me parece tão perigoso. Não sei quem é capaz de carregar o estigma de ídolo ou a mitificação de suas virtudes sem enlouquecer. Ter de prestar serviços à cultura, à sociedade, ao homem ou seja lá ao que for; ter de fazer ser correspondível a realidade interior à ilusão exterior. Como não se perder? Todo artista deve trazer uma distorção do próprio ego: ou se enxergam belos demais ou indescritivelmente menores. Já conheci os dois gêneros e descobri variantes desses. Estender a bandeira da excentricidade às vezes me parece tão ridículo. Ter de se vestir ou se portar como alguém atuante e diferente, engajado ou cult, querer, pela estética, se distinguir do grande rebanho. Se a diferença larga e profunda aqui dentro já é quase insuportável, se a minha sensibilidade vai contra meus próprios sentimentos, se a intensidade dos meus quereres já ultrapassa qualquer mensurabilidade, por que, então, a necessidade de externar essa chaga, fazendo jorrar esse sangue impróprio e ainda quente sobre a metrópole? Nos cinemas da Augusta, nos guetos da Vila Madalena, nas aulas de Artes do Corpo da PUC, nos bares da Benedito Calixto. Pessoas estranhas como eu. Por que a necessidade de nos resumirmos, nos rotularmos, nos tornarmos distinguíveis da esquina ou da próxima galáxia? Não é esse o grande jogo? Tornar a nossa luta simplista, a nossa diferença tão palpável, tão atingível, tão pequena?
As questões mais primariamente existencialistas me confundem. Saber o que sou. ''Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!''
Precisar andar com o Guevara estampado no peito ou com os livros debaixo do braço. E usar muitas boinas coloridas. Como me irritam os intelectuaizinhos burgueses. Por que sou igual a eles, será?
Ser confundida, ser confundida com meu inimigo, o mais boçal e estúpido dos inimigos. Escamotear, camuflar-me na grande massa para poder atingir a quem eu queria. O problema é que às vezes me exaure, me detona demais a insensibilidade tacanha e mesquinha, o preconceito -esse sim- devasso e pérfido, as conversas iguais, todas iguais, os dias passam e as discussões são as mesmas, chegam aos mesmos pontos, às mesmas ''conclusões'', encontram-se e besuntam-se das mesmas babaquices, há quinze anos conversam sobre os mesmos namoros, falam mal das mesmas heresias que inventaram, masturbam-se com os mesmos infortúnios, bêbados ou pavorosamente caretas, não importa, cheiraram o estoque ou fumaram o que nem tinham, ainda não alcançaram nenhum ponto, ainda não se feriram com a liberdade, só bateram o carro que papai emprestou, as cores são as tantas e fantásticas, modernas, o mundo colorido e ideal, a casa da Barbie em que conseguiram entrar e se instalaram há já perdidos anos, tornaram-se miniaturas mas acreditam-se inalcançáveis beldades; ainda não pisaram um passo a fora dessa cerca, rodam, rodam, rodam de modo incansável e atravessam loucamente os semáforos vermelhos sem olhar, preferem degladiarem-se inutilmente dentro dessa redoma, desses apartamentos, saem à rua com tanto medo e os pesadelos são os mais diversos, uma gente nojenta e pobre, negra lhes puxando pelo braço: ''um troquinho pelo amor de deus pro meu irmãozinho que tá no hospital desenganado, pra minha mãezinha que tá na cama entrevada, tia'', não tenho, não tenho, caralho, não tenho, porra e as conversas não mudaram, já fui ao banheiro, já lavei a louça, já esperei a chuva, os anos, a moda passar, mudam de roupa, de vício, de fonte de prazer, suas limitadas e confortantes fontes de prazer, mas o teor dos seus devaneios é o mesmo, dos treze aos oitenta anos. Ainda prefiro aquelas calçadas, aquelas discussões, aqueles medos, café ou cerveja, pizza ou poesia, ainda prefiro a gente ou os outros. Mas diferentes. Desnecessariamente diferentes e apaixonados. Porque não agüento mais, não pode mais a mediocridade entre os homens. (Já disse isso antes.)


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Quinta-feira, Agosto 21, 2003


Aaaah, só pra não deixar passar batido: ontem fui ver Amarelo Manga... Vou fazer uns comentariozinhos bem pretensiosos, ignorantes, mas não sou crítica, só posso dizer do que me toca.
Gente, que filme lindo!! As cores, o roteiro, a fotografia, a atuação! Já fui com muita expectativa, porque o meu ator preferido (Matheus Nachtergaele) está no elenco e porque o diretor (Cláudio Assis) é um grande amigo de uma grande amiga minha. Não estou nos dias pra conseguir expressar o que tem me acometido, acho que tenho o cerne pra uma coisa maior, inconclusa dentro de mim; da mesma forma como demorei pra processar o Woyzeck, com o mesmo Matheus.
Me ficou a tola comparação de Cláudio com Almodóvar, posso estar falando uma besteira das grandes, mas fiquei com essa impressão. Talvez até um Almodóvar mais visceral, cutucando mais minhas feridas. Um filme lindo, sem ídolos, sem falsos-moralismos. Também tive minhas objeções, mas não poderia falar disso agora.
Me remeteu a uma frase, ouvi de alguns que do Tchekhov, de outros que do Tolstói (se alguém puder me ajudar): "Cantas tua aldeia que cantarás o mundo". Ser regional para atingir o universo. O homem é o homem em Moscou, Tóquio, Lima ou Recife.

Renato Carneiro Campos escreveu para o filme:
"Amarelo é a cor das mesas, dos bancos, dos tamboretes, dos cabos das peixeiras, da enxada e da estrovenga. Do carro de boi, das cangas, dos chapéus envelhecidos. Da charque! Amarelo das doenças, das remelas dos olhos dos meninos, das feridas purulentas, dos escarros, das verminoses, das hepatites, das diarréias, dos dentes apodrecidos...Tempo interior amarelo. Velho, desbotado, doente.''


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Nebulosos Tempos (porque indefinidos)


Confusão profunda. Profunda confusão em profusão. Confissão. E eu tentando prosear, poema em prosa, em brasa, parecem aqueles velhos trava-línguas... Eu que ando tão nostálgica, perdida entre meus escombros, eu que ando tão sensível, suscetível, a flor da minha pele queimada em ilusões. Antigos sentimentos, releituras, trancar embaixo de mim esses destroços pra que ninguém veja em que estado anda meu coração. Não queria essas lágrimas, esse tom piegas, essas cores de novela das oito. Tudo porque me acho mais complexa que a mocinha ou a vilã desses folhetins. Tudo porque bendigo meu paradoxo, meus contrapontos, meus contra-censos. Abrevio a catástrofe, antecipo as penitências, repito:
"Que queres que eu queira senão você? Triste delírio de mim"
Meus cadernos de folhas arrancadas, frases interminadas, matérias não copiadas. Como conciliar a vida de um "ensino médio" pequeno, ilusório, medíocre, com esses passos que as escadas, envoltas no negrume, tragam; com minhas ambições astronômicas, meus sonhos interplanetários? Como conciliar o tão-dentro-de-mim, o abstrato, com as fórmulas e os métodos mais desprovidos de paixão?
Não estou pra escrever. Estou para morrer. Um pedaço de mim, só. Quero coisas demais pra desejar a morte.
Talvez, um dia, eu volte... "Um dia eu volto, mas eu quero esquece-la, eu preciso"


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Quinta-feira, Agosto 14, 2003
Mão ao Amigo - Vitor Paiva

Depois que ela atravessou a rua
E ele se viu sozinho
Pensou na morte, na mãe
Amaldiçoou a Deus e ao amor que restou dentro dele
Segurou minha mão e me disse:
Hoje eu morri um pouco.

Foi jogar bola meia-noite no aterro do Flamengo.


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Quarta-feira, Agosto 13, 2003
E por falar em saudades, onde anda a Gê?

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Terça-feira, Agosto 12, 2003


Voltei à sala branca, translúcida, sem cômodas, sem cômodos e incômoda fitei o pequeno bilhete escrito a sangue: "Enforque-se na corda da liberdade!" Mas nem corda havia. Só a beleza de um homem e sua espera.

À minha espera... Tilinta incansavelmente sua voz rouca e enigmática: "Está triste comigo?" "Não, só à espera".
Faz três minutos que essa terça nasceu, ainda negra, prenhe da criança que se estende gelada e faminta, branca, essas manhãs de mil braços invérnicos, enlaçando em meu pescoço cachecóis coloridos e em minha memória tua voz. Tua voz... A lua está linda, explodindo silenciosamente Esse silêncio da madrugada, eu sei, é a pausa da lua. Pálida como meu medo. Amargo. Meu paladar medra, hesita, não quer arriscar a decepção, mas minha língua quer aprender (e sentir) a tua. Tudo tão perigoso. Os segundos pingam, urgentes; o tráfego prossegue, embriagado e meus olhos nada fitam, nada focam, alheios, lépidos e trépidos, instaurados entre a exaustão do sono e o exaspero da minha excitação habitual.
As Ciências, ah, que se danem as ciências e os cálculos e as técnicas (e o que há em ti de técnico), a revelia me descabela e as perturbações injetam meus olhos insones, minha boca seca, meus passos incertos.
O vírus errado num corpo infecundo. Botam inúteis desgraças na minha estrutura débil; hoje só sou fértil à esperança e a outras babaquices do gênero. Hoje, só posso acreditar numa noite próxima, numa qualquer esquina escura, num bar estranho. Você.
Me segreda teu cheiro? Teu instinto? Tua esquizofrenia? Teu inferno? Teu abismo? Teu riso? (Eu preciso.) Tua incoerência e inconseqüência? Teu ódio? Teu fogo? Tua zona... Tua pupila? Me segreda teu segredo?
Sobre tudo isso eu divago distraidamente, enquanto a noite paira adolescida e seca. Áspera.
Segredo. Adoro tom de segredo e os guardo com devoção e fervor. Adoro pequenas mentiras, mas as ilusões já não me cabem. Prefiro botar os pés em oscilante e relativa realidade, embora a tema, até descobri-la inexistente e abdicar dessas tolices mundanas.
O Amor é a única invenção dos homens que me interessa. Talvez porque a que menos tenha sentido e lógica (e não seja o capitalismo).
Num cavalo alado ou numa estação de metrô, numa crônica do Rubem Braga, num delírio etílico, transoceânico, balsâmico, extraterreno: nada mais me importa. Só peço que venha a mim. E me aceite. Imperfeita, afetada, histérica, estranha. Mas tão disposta a acompanhar teu (des) caminho.


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Domingo, Agosto 10, 2003
"Cansei de esperar por ela
Toda a noite na janela,
Vendo a cidade a luzir
Nesses delírios nervosos
Dos anúncios luminosos
Que são a vida a mentir"
Orestes Barbosa

Inverno (Anhangabaú da Felicidade)
(José Miguel Wisnik)


A minha casa é uma caixa de papelão ao relento
Brasa dormindo contra o vento
Semente plantada no cimento
Criança na calçada

A minha casa é geladeira televisão sem nada dentro
Fogo que se alimenta do seu próprio alimento
Corpo com corpo dando alento
Pra campanha do agasalho

O meu cenário é a fria luz da madrugada
Dando espetáculo por nada
Calçada da fama iluminada
Pela Eletropaulo

A minha casa é a maloca rasgada no futuro
É o inverno é o eterno enquanto duro
Osso duro osso duro que ninguém
Há de roer

A minha casa é o céu e o chão caroço bruto
Catado no vão do viaduto
Dando pro Anhangabaú
Da felicidade


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Como é frágil a escrita. Como é ridícula e dúbia. Um esforço que me custa as horas, o sono, o café, para evaporar num botão que apertei e não deveria. A tecnologia vencendo meu -inútil- lirismo.

E eu "não quero mais saber do lirismo que não é libertação".
Assim eu sonhei que seriam meus dias: puros e libertos. Assim eu sobrevivi numa vida inespecífica, o fluir e o fruir tão absolutos e inteiros em mim. De repente lidar com a fúria queda das palavras fazendo troça da minha incompetente tentativa, grudadas na garganta, tão antes da fala estagnadas, isso tudo exige certa dor. Essa alma em frangalhos, que acorda e resiste, insiste, mas ainda que nublado, o tempo me sussurra todos os contrários da chuvinha medíocre e gelada. Assim eu quis. Lidar com as facas das palavras, a afiação aguda e amolada constantemente, me provocando esses cortes que carrego e me libertam, me segmentam, me impulsionam. Talvez eu tenha perdido o eixo, a loucura que enforca os meus passos, o grande desfecho das horas vazias, do tempo de chumbo, da digestão caótica. Que me restaria? A quem seria destinado o deleite e o inferno da mais exaustiva e insensata libertação? A quem essas lágrimas secas, num estalar mudo, num estalar mudo de vitrais dentro de mim? Ah, inconsciência, como quis agarrá-la e desejei minha solidão enlaçada às tuas paredes ocas e multicoloridas, como quis entendê-la, estendê-la, enveredar por seus perigosíssimos caminhos sem retrocesso, encontrar o desencontro fatal e abissal, transmutado de expressionismos maravilhados, de rostos sem contorno e desejos sem tamanho. Como tentei meu encontro com o primitivismo, com o princípio, com a fera do homem. Antes da lógica, do sistema cartesiano, das flechas, da métrica, tão antes do cálculo, a libertação irrestrita, o grito, a velocidade. Era algo assim, o esboço de um irromper, o sucumbir da boçalidade, da letargia, do sonambulismo apático, insosso, entediante. Eu quis. O desejo alarma e alarga os restos de mim, a estrutura óssea, o modelo sorumbático, de gravata, civilização, as regras servis mergulhadas na mais profunda atrocidade e egocentrismo. Como puderam? Apodrece ao longo dos séculos a carne esquecida e negra, numa putrefação que os vidros blindados dos carros não conseguem mais ignorar, a triste mão ergue um revólver, o cheiro carcome as narinas entupidas, resfriadas dos condicionados ares, acostumadas ao mais francês dos perfumes. Como puderam? A atomicidade das bombas, os quarenta e oito anos passados e a hora H continua imutável, mas mudando tudo, os anti-corpos inventaram uma sobrevivência aberrante, transgênica, quem preveria? Tempos técnico-científicos-informacionais. Juro, estava (estou) tão confiante, sem previsões idiotas do fim que se aproxima, acredito tão largamente na superação dos males, na extinção de uma desumanidade, por isso, estarrecida, perplexa, não entendo: que caminhos são esses que meu inconsciente escolhe?


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Quarta-feira, Agosto 06, 2003
É difícil. Não sei responder aos outros, não sei responder a mim. As pessoas me inter-ferem gravemente, um corte sem a possibilidade do estanque. As pessoas, grandes guerras, orgias, medos, as pessoas me interessam muito. Ouço conversas nos ônibus, nos guetos, nas academias, confesso, ouço e faço cara de quem está mergulhada na mais introspectiva das reminiscências, ouço conversas na minha solidão, meus fantasmas discutem durante os séculos e as aulas.
Shhhh preciso prestar atenção... Às vozes externas quase facilmente consigo abstrair, quando quero; às internas, não há porta, isolador acústico, travesseiro que me salve. Treme em mim a ilusão de que, quando tudo isso acabar, eu vou ter sossego. "Enfim a paz. Mas não toques que podes ir pelos ares." A esperança dúbia, falsa, amarga e tímida. O lampejo do desejo.
E eis que não acreditar na possibilidade dum futuro fracasso já é o próprio monstro.
Tem um enorme buraco em mim, "a hole in my soul", como dizia uma música que eu gostava muito quando era mais menina.
Um buraco que já tentaram e já tentei preencher com tudo: cimento, hidrogênio, esparadrapo, tragédia, açúcar, aspirina, gente, fogo, voz, noite. Já apaguei a luz, fiz mandinga, ouvi Chico, tomei mel com limão, vi um filme do Godard, telefonei, chorei, me ausentei, até esquecer já esqueci. Mas o buraco sangra, impróprio, despudorado. Se eu fosse órfã chamaria de mãe essa falta sem rosto nem medida. Pálida, secular, minha.
Eu decidi sair dessa redoma quando vi que a janela do carro já estava abaixada e, ainda assim, a distância entre mim e a menina continuava extraterrena, embora nossa fome e miséria tivesse a mesma extensão abissal e branca. A diferença era que ela tinha ossos saltados que gritavam e externavam seu inferno, enquanto o meu era opaco e invisível à maioria, transcendente, mas visceral.

Vocês me norteiam. E eu me creio perdida. Numa estrada sem retrocesso, com a inútil bússola nas mãos. Vocês me norteiam no meu mundo sem sul, sem sal, sem sol, sem som.


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Sábado, Agosto 02, 2003
Miséria, miséria. Matéria. Guimarães me condena, vejo Rosas entre a merda, entre a mídia, entre as trevas. Vejo o Beco e a Bandeira de Manuel, de João, mas sei da baía e da Glória e me confundo, acho imundo, acho bom, acho mau, mato os deuses e diabos, me encontro nos olhos da puta, da freira, tenho mais pés que os quatro da cadeira, e sou inteira, sou partícula, sou difusa. E confusa, obtusa, não sou musa, não vendo carros nem sabão em pó, não sirvo pra promoções, não faço concessões, não sei dessas ilusões tão caras. E apesar da solidão, no escuro desse quarto que inventei, dentro do buraco que cavei, perdida nessa pessoa que pus em mim, remontada, remexida, absurda, inconclusa, nesse projeto-itinerante, nessa coisa inacabada, entendo o vazio e a fome, a crise dos homens de beleza óbvia, das mulheres de decote fundo, mais profundo, escafandrista num mar ilusório e provisório. Mas agora sim, agora sim, permitam-me sair do espaço gravitacional. Preciso dormir um pouco.

Me deu vontade de te escrever passada a vontade de te ligar. Um atrás da outro, sigo o trajeto do projeto do desejo que protejo entre a garganta e o estômago, bem dentro do pulmão. Que protejo ou me protege? Me segue, me cede, me seda. Sedada tão cedo, tão noite rodada tão dentro de mim. Tão tudo e tão fora, "é difícil ser humano e não se drogar", me disseram. É difícil ser gente e não se perder. É difícil pro homem que encontrei na rua, é difícil a idéia do edifício onde, há trinta anos ele jogava bola. Hoje é o shopping, que ele, apontando, chamou de mercado. O Mercado. o omen. Sem agá maiúsculo, sem agá, sem hora, senhora, demora. Solidão... apavora.
No bico do gavião ou na ponta da gávea. No ponto encontro. Estandarte.
Cafeína, endorfina, nicotina, cocaína, aspirina, morfina, heroína, sacarina, batina: é difícil ser humano e não se drogar. É difícil ser gente e não se perder. Labirinto. Fui instinto. Hoje tenho que servir. Ser vil. Prestar. Prestar. Don't be stupid, please.
Meio dramin pra mim nessa vida de insônia. Atrapalharam minha concentração, sem tração, ligaram a televisão. Eu não digo mais nada, última vez: é difícil ser humano e não se drogar.


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Sérgio Castro
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Palavras e Imagens

Fernanda-Irmã
Cotovelares
Misson, O Cara
Jordani Sou Eu
Castilho
Cat, A Mina
Leo Caobelli, O Iluminado
Phasmo, o Fantasminha
Ed, o Coelho Branco
Fernanda, a Imersa
Cris, o Furioso
Yane, O Monstro
Daniela, O Mito
Vitor, o Freire
Arara, a Teresa
Filipe, o Displicente
Coletivo

Tom e Vinicius - por Biagio Di Carlo
Lugares Bacanudos

Silvio Mieli
Na Orelha
O Dilúvio
Memória Viva
Vozes do Brasil
Mercado de Pulgas

... Flávio encara Marco, seu colega que fora acusado de furto no trabalho...