Gê, se lembra daquela frase da Adélia Prado que gostamos: "Deus de vez em quando me castiga. Me tira a poesia. Olho para uma pedra e só vejo pedra mesmo"? Achei uma variação bonita de um cara chamado Edson Cruz. Eis: "Escrever boa poesia é um ato de generosidade, mas a poesia é antes de tudo um fenômeno de linguagem. Quando ela se mostra, os dias que vivemos sem ela viram borrões na memória. amor sua existência me acusa dos dias superficiais em que você não estava Todo poeta traz um sol particular consigo." postado por Maroca 01:49 Fala que eu te escuto: . . .
Hoje, como ontem, como sempre, como tudo Hoje, esquecido num pedaço qualquer de papel Hoje, estrela da manhã Num jornal vespertino Hoje, a estrada côncava e irreal dos dias Se funde num inesperado horizonte Num sem-fim de terras e pecados Hoje, ainda tão próxima de mim Rosa esfacelada num trânsito ilegítimo Pedaço de sim adivinhado em tessitura roubada Ainda assim Num quando tão óbvio, tão ali, tão alcançável Que meus dedos, perdidos e cansados de enlaçar o cabível Meus braços tão sábios por poderem caber num ato Eu não sei, um gole que provém do outro Um copo que chega no próximo Um beijo que me faria bem Mas não me desespera Esse estar-ocupado que te acompanha Desde de que quase te acompanho Desde de que meu desejo de ser tua - esse desejo já hoje hoje esmorecido - me acompanha Nessas luas avulsas De ruas expressionistas De templos budistas De cem braços no que eu previa Vênus de Nilo De ausência de tentáculos no que eu pensava oito abraços pôlvicos Hoje te adivinho Tão próximo Ainda que não me atenda Hoje quase caibo no teu sonho, Sabia? Hoje sou o que não fui O que, por não ter sido, fez com que você me deixasse Qual o tamanho de tudo? Diz-me! Qual o tamanho REAL de tudo? Não dos nossos sonhos E projeções Não! Não esse! O tamanho real -que é real?- de tudo De mim de ti dos mitos que nos salgam os passos dos ídolos que nos apontam o caminho o tamanho da embriaguez do trauma da tristeza o tamanho daquilo que queríamos ter sido do efeito da cafeína, da cocaína, do analgésico, da morfina O tamanho da gente na gente Um referencial Uma fita métrica Um barômetro Uma balança Algo assim, Exato Preciso Certo Algo divino Nesse tempo meu em que tudo Tudo É relativo Certeza Verdade Uma voz Algo que me aponte Ali, é ali que deves estar É assim que deves pensar É deste modo que é saudável viver Uma medida O amor é terrível porque não conhece regras A anarquia do amor Faz dos apaixonados Perdidos Como eu. Ontem por tu Anteontem por ele Tresanteontem por aquela Sempre alguém Ou algo Ou eu Serei eu? Este que amo Por quem bebo e choro e perco noções Serei eu? Será o amor narcíseo a tal ponto? Penso em você Com calma Sem raiva Sem pressa Sem tédio Com calma Te adivinho Palmo a palmo do teu corpo Centímetro perdido da tua alma Te procuro Te sei Ali? Onde? Aqui Tão próximo Tão alheio Ainda que meu Ainda que preso em minhas escadas Ainda alheio E tão E muito E sei disso Sei de tantas coisas que finjo não saber Sei que a água - como recurso - está se acabando Sei que cerveja engorda Sei que não existem verdades Quiçá que não existe nem amor Projeção, narcisismo, música Álcool, poesia Mas amor... bem... amor? Será? Em mim? Em ti? Ali, na esquina.... Será? Não sei. Amor... Meu amor, meu amor, meu amor meu amor meu amor meu amor meu amormeuamormeuamor postado por Maroca 01:55 Fala que eu te escuto: . . .
Por favor, alguém que me cure a dor, o asco, esse vômito sobre a cidade, alguém que me dê reflexos, em quem eu possa pensar pra canalizar meu sentir. Por favor. Alguém. Alguém que esteja do outro lado da linha e que me faça propostas estranhas, me sugira programas de índio. Alguém que me segrede absurdos. Tanta gente. Minha ânsia e sede anônimas, a caligrafia ilegível do que se escreve num dentro inalcançável. Espécie alguma de coisa qualquer. Cor que não há em tessitura adivinhada. Jeito nenhum de delírio subjetivo. Encontrei-a na minha estante. Me resgata, me aprisiona. Clarice. Fez do meu berro, liberto. Fez da minha fome, tangível e inespecífica. Fez do meu sopro, terrível. A liberdade: era uma dor abstrata que eu precisa tornar concreta pra agarrá-la com as mãos; era uma volúpia imensurável que eu precisava personificar. Clarice me agride, abstrai ainda mais o já impalpável. Interrompem-me. Ainda assim, agradeço. Me libertaram. Me danaram. Explosão de fagulhas pelo ar. Centelha. Sentença. Abismo. Luto luto luto e, vencida, sei que não me atingiram: o soco perpassou meu estômago. postado por Maroca 15:35 Fala que eu te escuto: . . .
Não me importa. Não me importa o grito ou a gafe, a gávea ou o tombo (a hecatombe). Eu tenho um segredo, mas quero te contar, quero te contar quando as estrelas silenciarem a minha voz e os olhos me entregarem, sem resistência. Tudo me parece inútil -e grande demais na sua pequenez- quando a poesia se torna rala e rara aqui dentro. Quando meu olhar pára no óbvio como a vista limitada pelos prédios nessa cidade grande, mas tão toda em mim. Entrelaçados meus infernos, eu queria que você estivesse aqui pra me salvar e resgatar minha noite, meu pranto, meus dedos. Eu queria que me salvassem, que me detivessem, que me agarrassem e arrancassem de mim esse medo de ser pouca, de caber no meu corpo. Transcendentes, teus olhos que já entraram dentro de mim sem que propriamente me fitassem. Aqui. Nessa noite, nesse céu nublado, nessa tristeza que me toma os sentidos e os olhos. Preciso arrumar essa bagunça dentro de mim. Preciso. De um graveto pra escrever nessa areia: "Socorro". postado por Maroca 17:40 Fala que eu te escuto: . . .
Se fosse preciso o tombo ou o golpe, se fosse necessário o tiro ou o mais intestinal dos gritos, se fosse permitida a festa, o choro, meus infernos, se quiséssemos mais do que julgamos compreender, se o meio termo fosse menos desconfortável e o não-saber não trouxesse aos dias esse medo. Se tua distância não fosse de quilômetros e abismos, se tuas cores não fossem tão secretas, "entre a amar e crer que a amo", quem me dirá errados esses passos? tíbia essa precisão? incertos esses alongamentos? Se fosse tão cortante quanto a lógica a navalha desse parto e eu tivesse de sair da faixa no meio do caminho, se me jogasse nos braços do ato essa estrada que me divide sem propriamente me multiplicar, sem me fazer muitas, pequenas, mas muitas, se tudo isso fosse o que chamam real e tátil, factual como uma porta ou um vidro de perfume, no entanto, tu és todas as portas e tem todos os cheiros, de mil desdobramentos e botes, incerta, caótica... Se fosse tudo tão explicável, talvez me bastasse esse silêncio, esse "a gente demais" na ausência. Vazio? Não. Antes fosse. É a plenitude flutuando no oco de mim. postado por Maroca 06:48 Fala que eu te escuto: . . .
Porque Acredito num Vôo Etéreo E de novo o frio que surpreende e suspende o vestido das moças que não estão nas ruas: esse tempo doendo nos ossos guarda as pessoas nas casas. Mas o homem sob a marquise não tem casa. Não dessas de concreto, de arquiteto. Sabe aquilo de ter as estrelas como céu? Pois aquilo. Isso torna as saudades em carne viva, aquela fome de ter gente, se lembra, Fê?, se alarga, me devora sem resistência. Sem anti-corpos que me sustentem a alma. Não sei, solidão talvez defina. Algo assim, sem dúvida, se não justamente. Comprei pilhas novas pro meu walkman e assim posso andar até que o céu se desdobre em cores, alternando as horas dentro e fora de mim. Amanhã marquei um dia especial. Mas como apaixonados, sempre suscetíveis aos outros. Se eu fosse sozinha, auto-suficiente, não sofreria tanto. (Me deixa acreditar.) Mas como um bebê, dependo dos outros e de agasalhos nesse frio."Um maior abandonado." Fondue seria uma boa idéia. E quando vier esse dia-seguinte, a Revolução em que desde antes de Castro Alves era famosa, eu quero estar viva. Diluída nos tempos, nos ares, áspera melodia. Eu quero ver o novo-tempo. Essa "guerra com luvas", mais conhecida como Capitalismo, de que Matheus me falou, vai fenecer que eu sei. Não vai? "Vibrai rijo o chicote, marinheiros Fazei-os mais dançar" Ontem tive um filho. Às três e meia acordei, das quatro e meia às cinco e meia tive as contrações do parto (concomitante com todo processo gestacional, essa coisa de Nove Meses comigo não funciona), que se deu até às onze e meia. Daí, exausta, devo ter apagado meio-dia. Escrevi um filho de cinco folhas. Ou por ele fui escrita. Cada vez mais confusa. Não me esquece, tá bom? Por favor, bem levezinho, lembra de mim, eu te Amo tanto, meu bem. postado por Maroca 20:40 Fala que eu te escuto: . . .
Hoje acordei nesse mundo e ele já não era o mesmo de quando dormi. Meu quarto, ainda mergulhado nas últimas e histéricas horas da madrugada, também não era o mesmo. Era um quarto estrangeiro e frio. E quando abri a janela, o gelado que me lambeu o corpo, dançava numa rua que não costumava estar defronte do meu prédio nem da minha vista. Os olhos que me fitavam, provocativos e assustados no espelho, não eram, antes, minha janela para o mundo; não refletiam meu abismo nem se abriam imensos e coloridos assim. Confesso: eu não era eu. Trazia o espanto de existir e enfrentava os degraus que não terminavam onde meus olhos chegavam. Pior: não seria nunca personagem de Kafka. Só essa inquietude minha de cada dia que me deram hoje. Nunca me acostumei com esses códigos, não encontrei meu piloto automático e a língua que hablo, que não é esperanto nem polonês, não tem a melodia que joguei no espaço. Numa esquina deserta e sem vento, me encosto enquanto espero alguma coisa parecida com um milagre. Talvez o seu tamanho na minha voracidade, a sua presença na minha solidão insuprível. Não tenho a honra de uma grande questão nem me jogarei do alto daquela madrugada. Sou de manhã demais pra morrer e enquanto houver fôlego no meu gesto, procurarei o reflexo dos teus olhos dentro dos meus. Acredito na sua poesia. E arrisco toda minha juventude por algo que não é digno nem grande como um Ideal, mas que ocupa meu sono, meu trono, minha guerra e minha garra. Um amor maior, uma causa perdida, do tamanho desse salto ou de mim, das minhas aspirações sóbrias e estrábicas maiores que o pragmatismo dos homens conceberia. Maiores que eu. Num vôo ainda mais rouco, em cima de asas que não eram minhas, roubei das tuas ilusões de homem, de super-homem em mim. Ultrapasso o mundo porque não sou ingênua o suficiente pra não acreditar no Amor. postado por Maroca 17:02 Fala que eu te escuto: . . .
Me perguntaram, eu não soube responder, repasso aos capazes: "Qual será o Egito que se esconde no poço escuro?" postado por Maroca 20:12 Fala que eu te escuto: . . .