Tupi or not tupi that is the question.
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“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Domingo, Julho 27, 2003
Gê, se lembra daquela frase da Adélia Prado que gostamos:
"Deus de vez em quando me castiga. Me tira a poesia. Olho para uma pedra e só vejo pedra mesmo"?
Achei uma variação bonita de um cara chamado Edson Cruz. Eis:

"Escrever boa poesia é um ato de generosidade, mas a poesia é antes de tudo um fenômeno de linguagem. Quando ela se mostra, os dias que vivemos sem ela viram borrões na memória.

amor
sua existência
me acusa
dos dias
superficiais
em que você não estava

Todo poeta traz um sol particular consigo."


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Sexta-feira, Julho 25, 2003
Hoje, como ontem, como sempre, como tudo
Hoje, esquecido num pedaço qualquer de papel
Hoje, estrela da manhã
Num jornal vespertino
Hoje, a estrada côncava e irreal dos dias
Se funde num inesperado horizonte
Num sem-fim de terras e pecados
Hoje, ainda tão próxima de mim
Rosa esfacelada num trânsito ilegítimo
Pedaço de sim adivinhado em tessitura roubada
Ainda assim
Num quando tão óbvio, tão ali, tão alcançável
Que meus dedos, perdidos e cansados de enlaçar o cabível
Meus braços tão sábios por poderem caber num ato

Eu não sei, um gole que provém do outro
Um copo que chega no próximo
Um beijo que me faria bem
Mas não me desespera
Esse estar-ocupado que te acompanha
Desde de que quase te acompanho
Desde de que meu desejo de ser tua
- esse desejo já hoje
hoje esmorecido -
me acompanha

Nessas luas avulsas
De ruas expressionistas
De templos budistas
De cem braços no que eu previa Vênus de Nilo
De ausência de tentáculos no que eu pensava oito abraços pôlvicos

Hoje te adivinho
Tão próximo
Ainda que não me atenda

Hoje quase caibo no teu sonho,
Sabia?
Hoje sou o que não fui
O que, por não ter sido, fez com que você me deixasse

Qual o tamanho de tudo?
Diz-me!
Qual o tamanho REAL de tudo?
Não dos nossos sonhos
E projeções
Não!
Não esse!
O tamanho real
-que é real?-
de tudo
De mim
de ti
dos mitos que nos salgam os passos
dos ídolos que nos apontam o caminho
o tamanho da embriaguez
do trauma
da tristeza
o tamanho daquilo que queríamos ter sido
do efeito da cafeína,
da cocaína, do analgésico, da morfina
O tamanho da gente na gente
Um referencial
Uma fita métrica
Um barômetro
Uma balança
Algo assim,
Exato
Preciso
Certo
Algo divino
Nesse tempo meu em que tudo
Tudo
É relativo

Certeza
Verdade
Uma voz
Algo que me aponte
Ali, é ali que deves estar
É assim que deves pensar
É deste modo que é saudável viver
Uma medida

O amor é terrível porque não conhece regras
A anarquia do amor
Faz dos apaixonados
Perdidos
Como eu.

Ontem por tu
Anteontem por ele
Tresanteontem por aquela
Sempre alguém
Ou algo
Ou eu

Serei eu?
Este que amo
Por quem bebo e choro e perco noções
Serei eu?
Será o amor narcíseo a tal ponto?

Penso em você
Com calma
Sem raiva
Sem pressa
Sem tédio
Com calma

Te adivinho
Palmo a palmo do teu corpo
Centímetro perdido da tua alma
Te procuro
Te sei
Ali?
Onde?
Aqui
Tão próximo
Tão alheio
Ainda que meu
Ainda que preso em minhas escadas
Ainda alheio
E tão
E muito
E sei disso
Sei de tantas coisas que finjo não saber
Sei que a água - como recurso - está se acabando
Sei que cerveja engorda
Sei que não existem verdades
Quiçá que não existe nem amor
Projeção, narcisismo, música
Álcool, poesia
Mas amor... bem... amor?
Será?
Em mim? Em ti?
Ali, na esquina....
Será?
Não sei. Amor...
Meu amor, meu amor, meu amor meu amor meu amor meu amor meu amormeuamormeuamor


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Segunda-feira, Julho 21, 2003
Por favor, alguém que me cure a dor, o asco, esse vômito sobre a cidade, alguém que me dê reflexos, em quem eu possa pensar pra canalizar meu sentir. Por favor. Alguém. Alguém que esteja do outro lado da linha e que me faça propostas estranhas, me sugira programas de índio. Alguém que me segrede absurdos. Tanta gente. Minha ânsia e sede anônimas, a caligrafia ilegível do que se escreve num dentro inalcançável. Espécie alguma de coisa qualquer. Cor que não há em tessitura adivinhada. Jeito nenhum de delírio subjetivo. Encontrei-a na minha estante. Me resgata, me aprisiona. Clarice. Fez do meu berro, liberto. Fez da minha fome, tangível e inespecífica. Fez do meu sopro, terrível. A liberdade: era uma dor abstrata que eu precisa tornar concreta pra agarrá-la com as mãos; era uma volúpia imensurável que eu precisava personificar. Clarice me agride, abstrai ainda mais o já impalpável. Interrompem-me. Ainda assim, agradeço. Me libertaram. Me danaram. Explosão de fagulhas pelo ar. Centelha. Sentença. Abismo. Luto luto luto e, vencida, sei que não me atingiram: o soco perpassou meu estômago.

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Sexta-feira, Julho 18, 2003
Não me importa. Não me importa o grito ou a gafe, a gávea ou o tombo (a hecatombe). Eu tenho um segredo, mas quero te contar, quero te contar quando as estrelas silenciarem a minha voz e os olhos me entregarem, sem resistência. Tudo me parece inútil -e grande demais na sua pequenez- quando a poesia se torna rala e rara aqui dentro. Quando meu olhar pára no óbvio como a vista limitada pelos prédios nessa cidade grande, mas tão toda em mim. Entrelaçados meus infernos, eu queria que você estivesse aqui pra me salvar e resgatar minha noite, meu pranto, meus dedos. Eu queria que me salvassem, que me detivessem, que me agarrassem e arrancassem de mim esse medo de ser pouca, de caber no meu corpo. Transcendentes, teus olhos que já entraram dentro de mim sem que propriamente me fitassem. Aqui. Nessa noite, nesse céu nublado, nessa tristeza que me toma os sentidos e os olhos. Preciso arrumar essa bagunça dentro de mim. Preciso. De um graveto pra escrever nessa areia: "Socorro".

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Quarta-feira, Julho 16, 2003
Se fosse preciso o tombo ou o golpe, se fosse necessário o tiro ou o mais intestinal dos gritos, se fosse permitida a festa, o choro, meus infernos, se quiséssemos mais do que julgamos compreender, se o meio termo fosse menos desconfortável e o não-saber não trouxesse aos dias esse medo. Se tua distância não fosse de quilômetros e abismos, se tuas cores não fossem tão secretas, "entre a amar e crer que a amo", quem me dirá errados esses passos? tíbia essa precisão? incertos esses alongamentos? Se fosse tão cortante quanto a lógica a navalha desse parto e eu tivesse de sair da faixa no meio do caminho, se me jogasse nos braços do ato essa estrada que me divide sem propriamente me multiplicar, sem me fazer muitas, pequenas, mas muitas, se tudo isso fosse o que chamam real e tátil, factual como uma porta ou um vidro de perfume, no entanto, tu és todas as portas e tem todos os cheiros, de mil desdobramentos e botes, incerta, caótica... Se fosse tudo tão explicável, talvez me bastasse esse silêncio, esse "a gente demais" na ausência. Vazio? Não. Antes fosse. É a plenitude flutuando no oco de mim.

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Segunda-feira, Julho 14, 2003
Porque Acredito num Vôo Etéreo



E de novo o frio que surpreende e suspende o vestido das moças que não estão nas ruas: esse tempo doendo nos ossos guarda as pessoas nas casas. Mas o homem sob a marquise não tem casa. Não dessas de concreto, de arquiteto. Sabe aquilo de ter as estrelas como céu? Pois aquilo. Isso torna as saudades em carne viva, aquela fome de ter gente, se lembra, Fê?, se alarga, me devora sem resistência. Sem anti-corpos que me sustentem a alma. Não sei, solidão talvez defina. Algo assim, sem dúvida, se não justamente. Comprei pilhas novas pro meu walkman e assim posso andar até que o céu se desdobre em cores, alternando as horas dentro e fora de mim. Amanhã marquei um dia especial. Mas como apaixonados, sempre suscetíveis aos outros. Se eu fosse sozinha, auto-suficiente, não sofreria tanto. (Me deixa acreditar.) Mas como um bebê, dependo dos outros e de agasalhos nesse frio."Um maior abandonado." Fondue seria uma boa idéia.
E quando vier esse dia-seguinte, a Revolução em que desde antes de Castro Alves era famosa, eu quero estar viva. Diluída nos tempos, nos ares, áspera melodia. Eu quero ver o novo-tempo. Essa "guerra com luvas", mais conhecida como Capitalismo, de que Matheus me falou, vai fenecer que eu sei. Não vai?
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros
Fazei-os mais dançar"
Ontem tive um filho. Às três e meia acordei, das quatro e meia às cinco e meia tive as contrações do parto (concomitante com todo processo gestacional, essa coisa de Nove Meses comigo não funciona), que se deu até às onze e meia. Daí, exausta, devo ter apagado meio-dia. Escrevi um filho de cinco folhas. Ou por ele fui escrita.
Cada vez mais confusa.
Não me esquece, tá bom? Por favor, bem levezinho, lembra de mim, eu te Amo tanto, meu bem.


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Sexta-feira, Julho 11, 2003
Hoje acordei nesse mundo e ele já não era o mesmo de quando dormi. Meu quarto, ainda mergulhado nas últimas e histéricas horas da madrugada, também não era o mesmo. Era um quarto estrangeiro e frio. E quando abri a janela, o gelado que me lambeu o corpo, dançava numa rua que não costumava estar defronte do meu prédio nem da minha vista. Os olhos que me fitavam, provocativos e assustados no espelho, não eram, antes, minha janela para o mundo; não refletiam meu abismo nem se abriam imensos e coloridos assim.
Confesso: eu não era eu. Trazia o espanto de existir e enfrentava os degraus que não terminavam onde meus olhos chegavam. Pior: não seria nunca personagem de Kafka. Só essa inquietude minha de cada dia que me deram hoje.
Nunca me acostumei com esses códigos, não encontrei meu piloto automático e a língua que hablo, que não é esperanto nem polonês, não tem a melodia que joguei no espaço. Numa esquina deserta e sem vento, me encosto enquanto espero alguma coisa parecida com um milagre. Talvez o seu tamanho na minha voracidade, a sua presença na minha solidão insuprível. Não tenho a honra de uma grande questão nem me jogarei do alto daquela madrugada. Sou de manhã demais pra morrer e enquanto houver fôlego no meu gesto, procurarei o reflexo dos teus olhos dentro dos meus. Acredito na sua poesia. E arrisco toda minha juventude por algo que não é digno nem grande como um Ideal, mas que ocupa meu sono, meu trono, minha guerra e minha garra. Um amor maior, uma causa perdida, do tamanho desse salto ou de mim, das minhas aspirações sóbrias e estrábicas maiores que o pragmatismo dos homens conceberia. Maiores que eu. Num vôo ainda mais rouco, em cima de asas que não eram minhas, roubei das tuas ilusões de homem, de super-homem em mim. Ultrapasso o mundo porque não sou ingênua o suficiente pra não acreditar no Amor.


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Sexta-feira, Julho 04, 2003
Me perguntaram, eu não soube responder, repasso aos capazes:
"Qual será o Egito que se esconde no poço escuro?"


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Sérgio Castro
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Palavras e Imagens

Fernanda-Irmã
Cotovelares
Misson, O Cara
Jordani Sou Eu
Castilho
Cat, A Mina
Leo Caobelli, O Iluminado
Phasmo, o Fantasminha
Ed, o Coelho Branco
Fernanda, a Imersa
Cris, o Furioso
Yane, O Monstro
Daniela, O Mito
Vitor, o Freire
Arara, a Teresa
Filipe, o Displicente
Coletivo

Tom e Vinicius - por Biagio Di Carlo
Lugares Bacanudos

Silvio Mieli
Na Orelha
O Dilúvio
Memória Viva
Vozes do Brasil
Mercado de Pulgas

... Flávio encara Marco, seu colega que fora acusado de furto no trabalho...