|
Tupi or not tupi that is the question.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”
|
Sexta-feira, Junho 27, 2003
Não, o negócio não era só um desses a que chamamos "amores impossíveis". Eu não me interessaria em escrever sobre aqueles dois se fosse só esse tipo de querer inalcançável, à la Romeu e Julieta, famílias que não se bicam ou o Carlos que gosta da Joana que gosta do Pedro que amava Roberto. A graça deles não estava na impossibilidade, nos obstáculos, também não era novela pros diabos chorarem o tempo todo e acabarem juntos, num gran finale bestinha. Acontecia que nem amor era direito, era um sentimento indefinido, inclassificável; incomodaria absurdos esse tipo de gente tão comum hoje em dia, que precisa entender perfeitamente o que sente, controlar pra que lado a vertigem pode ir, pra onde a libido nos vai guiar, em que momento seria certo estremecer ou se encantar.
Mas os dois não eram normais assim. Namoro, caso, rolo, transa, flerte, amizade-colorida, tantas designações e eles só se preocupavam em sentir; a verdade era essa, pouco além importava. Quando estavam juntos, era tudo lindo e fluente, mas... e nos hiatos, nos nãos enroscados nos tapetes, nas pausas prolongadas de três compassos, na ausência, no silêncio que ele deixava dentro dela, ecoando feito febre mal-curada? Ele não tinha desse problema, ocupado que era, lembrava da menina numa memória sem pernas nem dor, sem laços, sem cheiros e daí chegava o ônibus que o levaria ao trabalho ou ao centro da cidade e do furacão.
Nessa liberdade que não assumimos ter, ela ficava o ouvindo dissertar sobre as coisas, sobre o tempo, o ser-humano e hesitava, um segundo para o labirinto do peito e do ouvido entrar no eixo. Tremulava um pouco, arrepiada, sorrida, toda remexida por dentro, por fora. Disfarçava, suspirava e protelava a convulsão ou a confissão.
Às vezes, no meio da conversa, lentamente, aproximavam muito o rosto um do outro, calados, histéricos, famintos e se beijavam. Um porque estava bêbado, outro porque apaixonado e vomitavam amores que não tinham dado certo, falavam de ex-namorados, como se coubesse, como se importassem os últimos e todos casos que tiveram, não podiam admitir, não queriam, mas agora era como se tivessem encontrado o tal Verdadeiro Amor e não tinham, porque, já disse, nem amor direito era, quanto mais o temido, ansiado, tão falado Verdadeiro Amor. Se davam bem. Se cheiravam, se queriam, se engoliam, incompletos, mal-resolvidos, arranhados, como um disco que não toca mais a música preferida, eram todos errados, tortos, não tinham resolvido um problema sequer, arrastavam todos aqueles complexos adolescentes, carregavam nas costas e eram tão lindos, tão ásperos, tão cortantes, vê-los era como chorar um pouco, era possível até acreditar na humanidade, esquecer dos poréns, da venalidade das coisas, quando se olhavam...
Não era nada disso. Esqueçam, não era. Amizade? Não. Não é que fosse mais ou menos que amizade, não é que fosse amor mas não tivesse compromisso, não é que só houvesse a espontaneidade e o furor da paixão, não é nada disso, acho que ninguém, ninguém, nem um poeta, um gênio, um sábio, um monge, um astrólogo, nem um cozinheiro, uma estrela, um músico, nenhuma palavra nem gesto, dança, número, nada vai poder definir ou expressar o que eram, o que foram, o que faziam aqueles dois. Impossíveis e belos. Nem anjos nem humanos nem diabos. Nem dois. Eram eles. Aqueles. Pedaços. Impossíveis, já disse, impossíveis, parvos, lentos, lindos. Eram eles. Só eles. Só.
. . .
Quarta-feira, Junho 18, 2003
Eu sempre me enrolava entre os dois extremos da linha: dizer que desde o princípio o quisera e que tudo o mais era névoa e desilusão ou calar-me pequena e dispersa diante dos seus olhos fundos e estrangeiros, como estivesse enredada a uma presença qualquer. Durante os meses, optei pelo silêncio, às vezes muito claro quando se prolongava e os nossos olhos se grudavam, nervosos, sinceros demais. Eu mal percebia que o que havia de segredo em mim podia descer nessa correnteza dos olhares e quando eu pudesse me dar conta, estivesse já longe da minha possibilidade detê-lo. O túnel e o mar entre meus olhos e os teus, entre meu abstrato e o seu transcendental era tão facilmente corrompível. Um abismo claro e fortalecido, intolerável paixão pela existência, ressabiada com o ar, assustada com as cores, como acabasse de nascer e precisasse que alguém me transmitisse os códigos, as senhas, me dissesse o nome das maçãs e desse abismo que me engolia, tragada para dentro do centro da tormenta. O que eu descobriria depois e mudaria as coisas todas e minha relação com elas é que "todo abismo é navegável a barquinhos de papel", o que, soubesse antes, me livraria de muitos sufocos anônimos e prolongados. E entre uma existência comprida e outra estranha, qual a distância entre os seus passos e os meus? Qual a longitude entre uma pessoa e outra? Todas andando num espaço tão elástico como a Terra e trombam-se na Praça da Sé e pedem desculpas enquanto eu choro porque elas se inter-ferem e eu, muda, assisto ao espetáculo dos humanos, dos monstros e dos vagabundos. Os dias recomeçam e dos céus se jogam estrelas e homens enquanto meus olhos não se soltam dos seus, enquanto minha vida não se desprende da sua e ali, calma, distante, nos passos, nas horas, nas ruas, atravesso a dor.
. . .
Terça-feira, Junho 17, 2003
Nunca me esqueci de você. Ou, se o fiz, foi pra depois lembrar com mais violência. Tem gente que fica espalhado na nossa memória, diluído em fragmentos dispersos de lembranças rotas e miúdas, intermináveis, na extensão do cotidiano.
Se a paixão for esse troço virulento, feito de inferno, insônia e infantil alegria, que o simplismo das palavras acaricie a cruel complexidade do que sinto. Primeiro, uma paixão de deserto e incomensurável pavor da vida. Chamaram de depressão e queriam domá-la com remédios ocidentais e facilitadores. Mas preferi provocar o abismo e arriscar caminhar no incerto. Foi então que aconteceu: meu fascínio, falta de pudor e atração desmedida pelo existir se personificou: a paixão ganhou contornos e língua e abraços quentes de braços compridos, olhos lassos, onde eu via a vida e volúpia que me assaltavam. Sorri, descompassada, constrangida por saber-me nua demais e fizeram tranças nas minhas sombras. Hoje tenho medo e ousadia e todos os restos, rastros e roupas que me cobriam são lançados ao infinito, imersos no crepitante fogo do vazio. Tenho covis da paixão que Clarice e os subúrbios das almas me injetaram nas veias, aguçando o perdido alcance do paladar, massacrando os hiatos e vírgulas entre as pessoas, destruindo as muralhas que traziam no peito. Sorrio e o espaço que separa se cala, feroz, consumido, contrafeito e "o distante num instante fica perto" e a perpetuação de um prazer efêmero e onírico se torna mais invisível e enganada, andando sem rumo dentro de mim.
E nada mais é descartável. Nem mesmo a humanidade que enxerguei apodrecida. Não existe, me disseram, não existe homem, mulher, mendigo, rato, doutor, criança, sapato, avestruz, gangorra: existem seres vagando - tantas vezes a esmo - que se espiam, se beijam, se repulsam, se querem, se falam e se calam; sem direção precisa ou pavores reais. Indefinidos e humanos, vastos, vários e tantos, muros, secretos, com o cosmos nos olhos e a doçura nos dedos, cosendo um caminho qualquer nesse mundo algum de estrelas espaçadas, estradas entrelaçadas, inabitadas, infindáveis. Tantas.
Se a paixão for o esvaziamento de sentidos alheios e constitucionais, esse ímpeto de completar com alma onde haviam posto cimento pra que não ficasse ecoando o insuportável silêncio, preso nas garras da ameaça, o silêncio e a fúria da fome de ter gente; então silabeio, dilato, ausculto, contorcida, trêmula, receosa, despedaçada: P-A-I-X-Ã-O.
Ontem eu vi a Lua. Cheia. Perdida. Nua. Tão dentro e tão fora de mim, esquecida entre meu peito e meus olhos que a viam, cega, postada entre a cidade e minha solidão. Insuportável: alheia e dentro dos meus dedos. Assim, a paixão: ferida, insensata, escarlate, tão mãe dos meus sentidos, dos meus ouvidos, murmuriando® recônditos abusos e desejos. Minha paixão, não te possuo, não te soletro, só te pertenço. Incontrolável.
Vou lentamente, como um sussurro "boa noite, fica bem". Alguma coisa tênue e calma nesse mar inexato e revolto de temporais inexoráveis.
. . .
Quinta-feira, Junho 12, 2003
Enquanto me chamam, dizendo que na praia existe um lugar escarlate onde o Sol surge enquanto as estrelas desmaiadas corroem o absurdo da vida, eu me encolho, vertiginosa, pequena, enxergando beleza na tristeza dos olhos, na melancolia sincera que o espelho reflete sem pensar.
Por enquanto não, meu bem. Por enquanto só quero chorar um pouco e ter alguém do meu lado que saiba rir enquanto me fale de coisas como a humanidade, de coisas como as pessoas que fazem música e lutam discretamente pela perpetuação do ser-humano (ou do que virou ele).
Por enquanto, enquanto me reabilito e desfaço vícios, destruo vírus, acendo cigarros invisíveis quando penso na morte ou sinto medo, só quero uma rede e um pouco de sono nesses temores que pregam insônia nas minhas noites compridas. E me pegue a mão trêmula e triste, me sussurre coisas doces ou ásperas ou mesmo silencie dolorosamente. Me responda, por favor, tenha um argumento muito limpo e claro quando, no ápice do meu desespero, eu gritar: "Pra que serve essa merda, afinal? Qual o sentido de tudo?". Me pegue no colo, mesmo que eu resista, proteste e diga rangendo os dentes que não quero que ninguém me proteja, que ¿a vida é uma causa perdida¿ e outros protestos apocalípticos e infantis, assim. Me ensine que não, por favor, me mostre a beleza no mundo que eu cria destituído dela. No meu ânimo de chumbo, nos meus dias longos, no meu tédio rasgado, na minha dor absoluta, nos meus subterrâneos sangrados, nos meus monstros sagrados, nos meus covis descobertos, qualquer asa, apague a luz e me dê qualquer asa de penas e futuro quisto.
Não me interessa a segregação, abandonar o navio quando está afundando, fugir do caos e construir o paraíso. Não sozinha. "Não me interessa ser feliz sozinha."
Se me interessa o abismo ou a neblina, se as melodias tristes são a minha improvisação, se meu murmúrio tardio em resposta aos golpes no estômago e na esperança é tardio e seco, construa sem métrica ou até mesmo sem sentido uma ponte entre a dor pura e os meus dias histéricos e extáticos.
A introspecção do meu tempo presente e ardil, a Clarice me trazendo significação ao começo de um dia...
E quando eu começar a escrever, não fale mais nada. Só fique do meu lado, me segure a mão esquerda e calma e pense que eu muitas vezes sou assim: triste, muda, estática... mas tão sua.
. . .
Quarta-feira, Junho 11, 2003
No escuro secreto de mim, com a porta do quarto aberta, escuto um diálogo besta de uma novela que meu pai assiste enquanto espero alguma coisa que se assemelhe a essa palavra grande e explosiva: sentido. Olho às fotos, ouço as músicas, entro nos olhares que as pessoas esquecem em mim e nas ruas, até escuto um diálogo besta de uma novela besta procurando qualquer coisa que se assemelhe a um sentido. Me lembro de um conto do Caio que começa justamente assim: "Deve haver alguma espécie de sentido ou o que virá depois?". Pra mim não importa o que virá depois. Procuro esse tal sentido pra ter um agora, o depois um dia eu vejo. Pra agora. Pra acordar e dormir e comer e não adoecer e caminhar entre as pessoas e até arriscar um dia amar de novo isso que virou o ser humano, procuro desesperadamente esse sentido. Essa resposta. Pra lutar. Sim, porque viver aqui é ter que matar um leão por dia. Tem gente que luta tocando sax. Tem gente que luta dando aula. Resistindo. Estudando. Marília me disse: "Por mais que a gente esteja mal, existe sempre um dia seguinte." Foi a mesma que um dia me segredou: "A gente fica sem amar pra sempre até amar outra vez". Marília também gosta dessas palavras compridas e vermelhas: sempre, amar, dia-seguinte. Sempre. Luis gosta das breves e estrelares, maiúsculas: SIM. Ou R I O. Ele me disse SIM e me abreviou os NNNNNNNNNÃOs por mais compriiiidos que fossem.
Tentei ler Clarice. Mas tem um grito sangrado ecoando aqui dentro que não me deixou ser de mais ninguém senão dele. Da dor dele. Que é a minha. Tentei chorar, fumar, ouvir Toots Thilemans, dormir, andar no meio da avenida, pensar no tal dia seguinte, ligar a TV. Quem sabe a novela não me convence? Mas esse grito "não sabe parar de crescer e doer". Tentei até acreditar no Drummond:
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humor?
A injustiça não se resolve
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas outros virão.
Tudo somado, devias
precipitar-se - de vez - nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.
Mas nada. Mais nada. Dorme, meu filho. Dorme que o tal dia seguinte deve existir. De repente, esse meu lado escuro de mim gritou: "Eu desisto, não existe essa manhã que eu perseguia, um lugar que me dê trégua ou me sorria, uma gente que não viva só pra si. Só encontro gente amarga, mergulhada no passado, procurando repartir seu mundo errado, nessa vida sem amor que eu aprendi. Por uns velhos, vãos motivos, somos cegos e cativos, no deserto do universo sem amor". E eu não tenho ninguém pra dizer: "Vem comigo, que estou morto pra esse triste mundo antigo, que meu porto, meu destino, meu abrigo, são teu corpo amante e amigo em minhas mãos".
Minha Grande Espera, você me traz sentidos inventados: me leva daqui?
. . .
Terça-feira, Junho 10, 2003
"Decidido, pela estrada, que ao findar vai dar em nada" (Gilberto Gil)
Tenho medo. Por dentro da noite, tão fora de mim e do tempo, tão longe de agosto, do inverno e das horas, tão alheia à cidade e ao frio, tão dentro do medo e da noite esbranquiçada, que me cega, que tem nuvens esparsas e trêmulas se espalhando ao longo de mim, que também sou madrugada, confundida com o frio e com o perigo. E eu, tão fora de mim, quase contemplando como expectadora as horas de chumbo, as nuvens esbranquiçadas, a cidade de cimento.
Sinto uma espécie de gosto nesse agosto distante e além da febre, me cresce uma dor e com os segundos pingando dos meses, na ampulheta invisível segredada dentro do tic tac dos relógios e do meu corpo que ganha máculas dos séculos que rodei, do frio e do t(r)emor abrasado à dor. Quase fevereiro em Marte, mas eu na Terra ou na Lua, com os segundos escorrendo no espaço. E quando a morte ou a eternização da vida, dos tempos, dos tombos, dos agostos e quase-fevereiros-em-Marte vier, lhe darei um beijo na boca, que é a verdadeira posse.
E ainda que envolta em dores, nuvens e tombos, ainda que tantas vezes expectadora, a vida me seduz demoradamente. "As últimas palavras de Goethe, ao morrer, foram: Luz! Luz! Mais luz!" E dessa luz despedaçada em tudo que vejo, dessas sombras de morte e berros de vida, às vezes não quero muita coisa, meus desejos se dissipam, se abrandam: uma tarde de sono, um escapismo inconsciente, um delírio, uma fuga, uma Verdade, um fato, nenhuma interpretação... Porque tudo parece distante: as pessoas, o tempo, meus sentidos, um amanhã reinventado, onde a Arte impere e coisas como as paixões sangrem mais violentas que esses ódios inúteis.
Tenho medo. Pontuo uma apatia sem gosto ou graça, por fora de agosto, por dentro de todo tempo que corre, escorre e os homens como ratos, parafusos, robôs ou vitrinas ambulantes me destroem com a violência do desânimo. Não levanto dessa cama, os pés, prefiro-os ainda nas plumas dos sonhos, mas tudo que vejo são sombras e nuvens esfarinhadas e tudo que sinto é medo e dor. Se puserem uma bandeira da Coca-Cola na Lua, não suportarei mais o tempo nem o (a)gosto amargo dos meses, das pontes, dos ratos maiores que os homens. Se o Amor for, amanhã, algo que "custe no máximo cem reais", como vi ontem na manchete de um jornal, numa matéria sobre os presentes no Dia dos Namorados, talvez nada mais faça sentido nem me importe. Talvez eu faça asas de crepom. E não voe mais.
. . .
Sábado, Junho 07, 2003
Diálogo no café-da-manhã:
-Pai, eu não acredito! Então você também está no complô?
-Complô? Complô o quê? Eu não complei nada.
Fora que ontem meu irmão me espancou com uma folha de alface.
E quando terminar, a maluca sou eu.
. . .
Madrugada instaurada, descida, alucinada e azul. Memória de sonho. Acho que nunca mais vou conseguir escrever. Nem vou mais gostar de ninguém. Nem ninguém vai gostar de mim. Sensação de morte interna e profunda. Algum vislumbre de possibilidade da... sobrevivência? Casto, impuro, decepado. Trêmulo por acreditar no meu medo. Eu só queria tudo que quero.
. . .
Quarta-feira, Junho 04, 2003
Pela primeira vez, talvez, é sincera minha dúvida: devo continuar? Fecho o livro? Viagem sem retrocesso. Queimam os barcos na ida, sabia? Ou, se for à pé, a cada passo que deres, as tábuas que se erguiam, que te erguiam, caem, no que tu só podes andar pra frente ou lançar-se no abismo. Fechar os olhos e dormir, pedir pra que tudo passe, choramingando, seria uma boa solução. Mas não tenho sono, só medo. A Filosofia me confunde tanto. Ando pensando que meus todos e muitos bloqueios se devem a isso: pensar demais. Vontade de acessar o Alberto Caeiro em mim, mais conhecido como ligar o foda-se. Que venha a vida, que flua, que doa e aperte, jogar-me no mar à mercê da correnteza, dos temporais, dos monstros que Camões pôs lá dentro, submergidos. Ou aprender a ter controle. Que é mais sedutor? Sentir ou pensar, e descobrir? Corre-se o risco de pensar demais e ver-se no deserto. De subestimar os outros mundos porque enxergá-os menos complexos que o teu. De achar-se boa demais, inteligente demais, superior demais e rir dessas questões de senso comum. Tudo por dor, mecanismo inventado pela solidão, sentir que não tem par neste mundo. Fora que quando estamos fora da caverna, ou julgamos estar, sofremos quando vemos que existem tantos acorrentados, com os olhos furados. Incapazes. A Filosofia que controlar impulsos, desejos e paixões. Que vá à merda! Pensar. Comedir. Pôr na balança. Quero antes a Arte. Quem explica o que é sensitível? Quem explica Clarice? Quem explica a música, o que ela provoca? Quem explica o orgasmo? Quem pode dizer da morte? Não quero essas explicações científicas, que falam das substâncias químicas liberadas ou interrompidas. Eu quero a insensatez. Se alguma Filosofia me interessa é a de botequim. Bêbada, trôpega, boêmia.
Enquanto não posso ser Caeiro, leio. E depois vou a um show do Arismar e Filó Machado. Quero ver depois quem me diz que a razão é virtude.
Lembrei do final de uma das poesias mais lindas que já li:
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
. . .
O tempo parecia congelar num sopro. Os dois se olhavam, atônitos, sem sentimentos bonitos ou tristes, talvez até mesmo sem quaisquer sentimentos, sem passado abstrato ou em branco-e-preto. Sem cura ou busca, simplesmente se olhavam, no espaço das horas, na pausa de qualquer instante, sem torpor nem brasa.
Calma e definida, olhava aquele homem sólido e pálido, tantas palavras grandes e sem sentido contornavam o que foram ou o que sobrou do que eram.
Procurou num gole de cerveja algo parecido com uma solução, mas só desceu um desejo gelado de estancar as feridas que tantas vezes cicatrizaram, sujas, um toque raso ou largo e ele já se desfazia, confundido com o próprio choro, gemia, contorcido, inexato, apequenado. Sentia dores das sombras mais improváveis; como desenhar o hiato do peito sem o sax nas mãos?
Os dois eram só os dois de sempre, um pouco mais machucados, mais amadurecidos, certa ruga despontando na testa, alguma vontade ¿controlável- de vestir pantufas e dormir dias no sofá, aquele cansaço que as pessoas que não puderam senão envelhecer trazem nas curvas que vão virando retas, nas impaciências que em incredulidade se convertem, nas inquietações que recebem panos quentes de todos os lados pra que fosse possível rir sem meios-sorrisos uma vez ao menos.
Se encontraram, sem querer, num bar, tanto tempo depois, e só souberam se olhar. De toda espontaneidade dos anos, de toda libertação dos sonhos, só sobrou aquele desengano, aquele desconforto nos olhos e nos gestos ensaiados. Murmuravam algo convencional, perguntas cretinas e nervosas, o que só podia significar que definitivamente, não seriam mais os mesmos, como já não eram. Talvez nunca tenham sido. Tudo é delírio nesse mundo caduco, afinal.
. . .
Segunda-feira, Junho 02, 2003
A Matemática da (Des) Humanidade
Não haveria qualquer tipo de retrocesso, possibilidade alguma de tempo voltado; como fruta que apodrece dentro das horas, como desejo que já encontra veia por onde correr: quem nasce em um zoológico recendendo violência sem espasmo, constante gosto de sangue na boca, tiros cortando o quase-silêncio das madrugadas vulgares e mesmas, quem vive entre cães e valores inversos, ébrios, absurdos, quem, de fora, pode dizer a esses chafurdam dentro que não é assim A Verdade, que não é esse O Homem?
Ouvira uma vez num filme, segundos antes de sentir o sono enredado às suas sombras, uma fala trêmula, pateticamente dublada: "Você, afinal, é um homem ou um rato?". Vagamente pensou, sem saber que pensava, misturando começo de noite e vislumbre de qualquer inquietação: "Sou um homem ou um rato?". Quase sem susto, sem noção de complexo, sentiu que não havia diferença entre ele e um roedor no bueiro, a importância que tinha no mundo parecia tão equivalente...
Outra vez, também, ouvira não lembrava onde - mal sabia se era mentira inexata ou verdade inventada - que um tal de índice de densidade demográfica explodia sem sentido ou estancar, vertiginosamente: "seis bilhões de 'pessoas' no mundo, um terço abaixo da linha de pobreza", ouvira confusamente, ilogicamente, com uma dor anônima e afundada rangendo os dentes lá dentro, trincando o que de vidro e sonho se preservara até então. Nem sabia quantos zeros formavam um bilhão, cem são dois, mil são três, depois se confundia, todos zeros, muitos zeros... Com quantos zeros se destrói uma humanidade?
E a guerra? E a fome? E os números? E as estrelas-candentes? E as drogas? Um homem ou um rato, que era?
Todas elucubrações e sensações pensadas tão distraidamente, atribuladas, desapercebidas, quinze anos, punhado de asco, dores nos ombros, doze irmãos, uma tv pequena, um vazio de sentido ou certeza no peito, nas horas, na vida, no tudo. Um homem... um homem ou um rato? Perguntou pela derradeira vez, sem poder responder. Apertou o gatilho, rondou o inexato e, negro, morto, trágico, roendo restos de vida, virou estatística.
. . .
Domingo, Junho 01, 2003
E se bem na hora eu esquecer a senha e começar a gritar? E se do grito surgir um pássaro que voe tão velozmente da minha boca e se funda com o oceano? E se você não acreditar quando eu dizer que gosto tanto, muito dos teus olhos? E se a brisa soprar e me levar junto nos seus descaminhos? E se eu esquecer o rumo de casa? E se meu medo se esmilingüir e de mim não sobrar nem pó, já que tudo em mim é covardia e recuo? E se eu pular? E se o salto for feito de infinito? E se a náusea for feita do meu telhado?
Fui caindo, caindo e, de repente, a queda em vôo se transformou. Quero a angústia dos tempos passados e o ódio do amor encarnado. Me ensina a libertar os sentimentos dos clichês? Digo que não sinto, que não dói, que não lateja febril o delírio do inconsciente. Mas tudo em mim é tudo de mim.
. . .
|
Sérgio Castro
. . .
Palavras e Imagens
Fernanda-Irmã
Cotovelares
Misson, O Cara
Jordani Sou Eu
Castilho
Cat, A Mina
Leo Caobelli, O Iluminado
Phasmo, o Fantasminha
Ed, o Coelho Branco
Fernanda, a Imersa
Cris, o Furioso
Yane, O Monstro
Daniela, O Mito
Vitor, o Freire
Arara, a Teresa
Filipe, o Displicente
Coletivo
Lugares Bacanudos
Silvio Mieli
Na Orelha
O Dilúvio
Memória Viva
Vozes do Brasil
Mercado de Pulgas
|
|