Tupi or not tupi that is the question.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

“Que assim mal dividido esse mundo anda errado,
Que a terra é do homem, não é de deus nem do diabo”

Quarta-feira, Abril 30, 2003
Descobri que estava me apaixonando demais quando uma amiga de trinta anos me ligou no meio de um feriado vazio se dizendo confusa no terreno amoroso, completando que EU tinha mais experiência com essas coisas. Melhor puxar o freio. Né?

. . .
Terça-feira, Abril 29, 2003
Hoje eu queria falar sobre Arte. Sim, sei que falo disso desde o início, já que esta fêmea está tão entranhada em mim que não há dissociação entre eu e Ela. Mas queria falar diferente. Essas coisas acontecem: muitos fatos juntos apontam pruma mesma descoberta. Tudo tão naturalmente. Então um dia, você topa com as descobertas em forma de respostas ou até verdades. Verdades relativas, contestáveis, móveis, mas verdades. Qualquer chão ou parede onde possamos calcar. Nada que nos prenda, que crie raízes, mas vá lá... Isso a que chamam experiência é o que nos norteia. Pois sim. E hoje eu queria falar sobre Arte.
Ando vendo. As pessoas têm mesmo universos muito diferentes. Sei que é clichê e que, portanto, ouve-se isso como um chavão empacotado: "sim, todos somos diferentes e únicos, ninguém é substituível", esse monte de baboseira, de hipocrisia made in Igreja Católica. Mas, sim, temos universos diferentes. A minha concepção de "amor", por exemplo, é diferente da do José, porque ele teve relações diferentes das minhas, se envolveu de outros jeitos, com mais ou menos profundidade, resistência, desejo. E também isso não é mensurável. Enfim. Mas na Arte, em algum ponto, nos tocamos. O encontro que a Arte promove é a coisa mais linda que já senti. Quando eu vejo um menino que toca bateria com tanta verdade e alma, não importa o resto. Ele pode estar pirando, fechar os olhos e ver números coloridos piscando, eu posso ter imagens poéticas, o nosso delírio é distinto, mas nos tocamos. E essa fusão de diferenças, de realidades e sensações que é Arte. A mídia vem com toda essa balela de paz, de respeito às mais variadas etnias, de "não importa qual o seu deus, somos todos irmãos", mas procura, claro, um só jeito a ser venerado, um só tipo de beleza correto, um só ídolo a ser cultuado. Na Arte, todas as diferenças são soma, são conjunto, são louváveis, não atritos. Por isso que ela é subversiva, poderosa, perigosa ao Sistema. Porque eles não querem esse encontro, esse tesão, essa paixão que toca em pontos tão íntimos nossos. Por sermos diferentes, acabamos criando barreiras, achando que devemos ficar no escuro da nossa solidão, nos masturbando com nossos valores e com o que julgamos certo. Dizemos que "gosto e religião não se discutem". Mas essas fronteiras são corrompidas nas diversas expressões artísticas. A distância vai se encurtando, vai se perdendo, então ocorre a fusão. Cultura é essa cópula interminável de raças e dores, segredos e lendas e mitos e crenças, história, poesia e melodia. Por isso a necessidade de nos enfiar traquéia abaixo essa pseudo-cultura engendrada no pútrido ventre do mercado, esse besteirol já digerido, consumido sem qualquer esforço; pra que não saibamos, percamos esse contato com O Outro. Com o universo (e o inferno, já dizia Sartre) que são os outros.
Eu hoje falando disso na terapia, a Marina se lembrou de uma figura que Michelangelo pintou bem no centro da Capela da Sistina, o dedo de Deus tocando o dedo do homem: esse encontro do humano com o divino, pra mim, é o que a Arte representa.
Ainda hoje, pensando em tudo isso, estava um pouco travada na aula de gaita, meu professor (André) falou: "Mari, você tem um pouco de dificuldade pra se expressar aí, né?". Eu disse que sim. "Pois você precisa aprender a pôr o que tá sentindo no instrumento. Mas sabe que comigo aconteceu justamente o inverso? Eu antes era inibido, briguento, travado; mas aprendi a trazer pra vida a relação que tinha com a música".
É preciso que a Arte sobreviva. Renovada, reciclada, absurda, louca, trançando as pernas na estrada da sanidade, enfrentando, rompendo limites, estragando morais. Ou então, que restará de nós? Civilização de muralhas?


. . .
Segunda-feira, Abril 28, 2003
Eu, que leio muito, mas nem-tanto; que quero tudo, mas tão-calmo; que busco fundo, mas sem-jeito; que cheiro rosa, mas alheias. Eu, que amo tanto, mas confuso; que te olho os olhos, mas só-fujo; que tenho a vida, mas tão-pouco; que tremo inteira e entreouço. Num beco na vila na rua num antro no cafua no covil no esquecimento. Pensamenteio enlouquecida. Cicrobata mulata de outros gestos, cinco gostos e tanto caos. Nas estrelas coladas à testa, incendeias os palcos da peça, desnorteia, perdi mil arestas, só não caio porque sou-de-festa. Tenho mundos que ultrapassam os muros, gritos de labirintos profundos, acoados num eco de acenos, revoltosos em mares serenos. Poeteio na viola chorada, arpejo um acorde na estrada, quero fundos-tudos-aquilos, busco sons-medidas-esquilos. O sentido na linha formada, fazem rima porcamente rimada, sem espaços nem brechas nem portas, decassílabos, métrica, formas.

Também. De uma tarde construída com melodias de Caetano e poesia de Rosa, queriam que fizesse sentido? Viver, já disse Clarice, viver ultrapassa todo sentido. Que ao menos qualidade tivesse? Ah, vá pentelhar a mãe!

Uma tevê de mil polegadas
Terras de extensão indeterminada
Maquinários de três toneladas

E uma vida de morte suicidada.


. . .
Domingo, Abril 27, 2003
- Que palhaçada, meu.
- Não, é palha frita.


. . .
Como querer Caetanear, o que há de bom?
Algumas frases dele de músicas:

"Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem
Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final."

"O asfalto, a ponte, o viaduto ganindo pra Lua
Nada continua
E o cano da pistola que as crianças mordem
Reflete todas as cores da paisagem da cidade que é muito mais bonita e
muito mais intensa do que no cartão postal."

"Escuras coxas duras tuas duas de acrobata mulata,
Tua batata da perna moderna, a trupe intrépida em que fluis
Te encontro em Sampa de onde mal se vê quem sobe ou desce a rampa
Alguma coisa em nossa transa é quase luz forte demais
Parece pôr tudo à prova, parece fogo, parece, parece paz
Parece paz
Pletora de alegria, um show de Jorge Benjor dentro de nós
É muito, é grande, é total."

"Cuspo chicletes do ódio no esgoto exposto do Leblon."

"Americanos são muito estatísticos
Têm gestos nítidos e sorrisos límpidos
Olhos de brilho penetrante que vão fundo no que olham
Mas não no próprio fundo

Os americanos representam grande parte
Da alegria existente neste mundo

Para os americanos branco é branco
Preto é preto e a mulata não é a tal
Bicha é bicha, macho é macho
Mulher é mulher e dinheiro é dinheiro

E assim ganham-se, barganham-se, perdem-se
Concedem-se, conquistam-se direitos
Enquanto aqui embaixo a indefinição é o regime
E dançamos com uma graça cujo segredo
Nem eu mesmo sei
Entre a delícia e a desgraça
Entre o monstruoso e o sublime

Americanos não são americanos
São velhos homens humanos
Chegando, passando, atravessando
São tipicamente americanos."


. . .
Medo. Tá. Medo. Mas e aí? Depois do medo, eu tô dizendo. Não, ainda não é isso. Não é se enfrento ou recuo. É de sentir, depois de sentir. O medo banalizado, sabe, depois de sentir sentir sentir incorporar, a gente já tá com ele dentro da gente, digerido, no sangue, nos rins, na cabeça e é como se não estivesse. Depois de sentir a gente já não sente, é isso.

Ontem fui na Pop's Discos, lá na Teodoro Sampaio. Pra quem não conhece ou não me conhece, lá é minha perdição. Uma casinha bem pequenina, entulhaaada dos melhores CDs... Fico sem dinheiro pras brejas depois de ir lá. Comprei dois lindos do Cartola, um do João Bosco, outro com um grupo de chorinho tocando Villa Lobos, um dos songbooks do Tom, belíssimo (primeira faixa, Bosquinho cantando "Ângela, por que tão triste assim agora?" e aquele violãaao, meu deus...), um do Batatinha (que acabei de pôr), chama Toalha de Saudade... Sambão. :) O último... O último foi um que estava ouvindo até agora, que não consegui tirar. O "Circuladô", do Caetano. Esse me deixa triste, confusa e encantada. Quando eu era bem pequenina minha irmã ouvia esse disco todo dia e é engraçado ouvir tempo depois, "prestando atenção em cores que não sei o nome", partes que eu não entendia. Mas o mais profundo não é isso. É o Caetano. Alguém pode me explicar o que aconteceu com ele? Poxa... Eu sempre soube que ele era bom, mas com uma lembrança infantil ou com músicas belíssimas, que remetiam a coisas minhas, músicas pessoais. Como se ele fosse "normal", assim. Mas não. O cara é genial, tem imagens lindíssimas, as letras são poesias. Era uma posição tão difícil aquela que ele assumiu, de não ser de esquerda nem de direita, coisas que hoje em dia não surtiriam efeito, nem significariam, talvez, gestos de coragem. Eu até ano passado falava mal dele e fazia cara de nojo quando o mencionassem. Só por birra, raiva. Pega até mal defender o cara hoje em dia, sei... Mas dane-se. Não, também não tenho argumentos, nem sei o que aconteceu. Metido ele sempre foi, dizem. Mas se prostituir assim. Ah, não. Tem muita gente que acha que ele é bom porque gravou "Sozinho"... Hahaha! Mas daí dizem: "Ah, não é você que queria que esse tipo de música chegasse ao povo, diz da falta de acesso, daí o cara vai no 'Sabadão Sertanejo' - sim, isso aconteceu - e você critica?". Pra esses, respondo: mas ele não vai ao Cucu com Podres Poderes, Fora da Ordem, Língua, O Cu do Mundo, Haiti... Vai com músicas bem nível Sabadão, ou seja: não acrescenta nada.
Tenho medo. Como disse uma das pessoas mais lindas que conheço: "Eram melhores os tempos em que nossos ídolos morriam de overdose. De outro tipo de droga".
Pois é, Gê.


. . .
Sábado, Abril 26, 2003
"e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento"

Haroldo de Campos


. . .
Sexta-feira, Abril 25, 2003
Quando sinto uma tristezinha me morder o dia, doce e melancólica, essa que me rasga o peito mesmo quando sorrio, tenho medo dela parasitar minha pele, grudada, inteira e de eu ter que começar a conjugar o verbo "ser": "sou triste". Não sou, não, ora. Quando me invade a inquietação do êxtase e as gargalhadas saem estouradas da traquéia, dançando-se-abraçando no ar, tenho a sensação do sou, de novo: "sou feliz".
Sou feliz na minha tristeza, no peso do poço, quando a lama me entope os poros e o riso e os dias, pra ressuscitar como um pássaro luzido.
A filosofia estava me endurecendo os sentidos. Louca e minha. Mas extensão do pensamento, só a doçura profunda, a tristeza incabida de Rosa. Terminei hoje "Campo Geral". Ter nascido cá no Brasil e morrer sem ler Guimarães é não ter sentido o tempero da terra. O nosso segredo, intraduzível. Tentaram, ouvi, pro francês, mas permanece tão nosso, tão sambódromo... e os velhos velhavam...
Guimarães me lembra Clarice. Pela pureza, pela nudez da fala, vão reinventando, redescobrindo a língua, mandando às favas as regras. É no ritmo do sonho.
Roubei um livro do Suassuna. Enorme. Pára em pé. E viva a cultura popular, a poesia marginal, os quereres modernistas, que se estrepe todo academicismo, todo parnasianismo, toda arte comedida, bem-comportada, elitista; que se sufoquem todas as madames que vão à ópera com casaco de pele, ostentando colares de pérola, que se engasguem com seu chá-das-cinco. Vamos ouvir Villa Lobos?

"Uns tomam éter, outros cocaína
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria."
(Bandeira)

"Esse amor (...) não sabe parar de crescer e doer".
(Djavan)


. . .
Quarta-feira, Abril 23, 2003
Pílulas para Tontura... Mais enlouquecedor que choque-elétrico.
Frases do Rosa:



"Miguilim não achava pé em pensamento onde se firmar, os dias não cabiam dentro do tempo. Tudo era tarde!"
"Mas Miguilim estava chorando simples, não era medo de remédio, não era nada, era só a diferença toda das coisas da vida."
"(...) sozinho longe deles parecia estar mais perto de todos de uma vez, pensando neles, no fim, se lembrando de tudo, tinha saudades de todos. Para um em grandes horas, todos (...)"
"Aquele homem parecia desinventado de uma estória."
"Então, ele não queria, não ia pensar - mas então carecia de torar volta: prestar muita atenção só nas outras coisas acontecendo, no que mais fosse bonito, e tudo tinha de ser bonito, para ele não pensar - então as horas daquele dia ficavam sendo o dia mais comprido de todos..."
"O vaga-lume. Mãe gostava, falava, afagando os cabelos de Miguilim: 'O lumêio deles é um acenado de amor...' Um cavalo se assustava, com medo que o vaga-lume pusesse fogo na noite. Outro cavalo patalava, incomodado com seu corpo tão imóvel. Um vaga-lume se apaga, descendo ao fundo do mar. 'Mãe, que é que é o mar, Mãe?' Mar era longe, muito longe dali, espécia duma lagoa enorme, um mundo d'água sem fim, Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava. 'Pois, Mãe, então mar é o que a gente tem saudade?' Miguilim parava. Drelina espiava em sonho, da janela."
"Mas agora Miguilim queria merecer paz dos passados, se rir seco sem razão. Ele bebia um golhinho de velhice."


. . .
E de repente uma abrasadora certeza-sensação de que meu amanhã, como meu hoje e pedaços do meu ontem, será amar desesperadamente a língua como minha pátria, mátria, frátria e amante. Não é só virtude de amor correto, é raiva e lascívia de amor inteiro e doído, que me crispa os sentidos e entorpece minha calma. Vem, que me embalo na melodia, me largo no palco, que vou sozinha segunda-feira às duas da tarde ao cinema, nos bares eu rio, absurda, com a beleza da vida gritando tão dentro, tão toda em mim, esquentando meu olhar e esculpindo meus gestos; mas inteira estou nas linhas, lidas e escritas, grifadas e choradas... tenho tremido tanto com Rosa, torpores caindo em suor, suspiro, ouço meus gemidos, como pode? A ponta do sono, sabe aquele entre-dormir calado, em que elefantes bailarinam nos fios suspensos nas ruas e é normal?, em que você é meio meu, meio Drummond e eu aceito?, em que os guardanapos levantam vôo e não grito? Pois é nesse instante em que Guimarães Rosa lapida seus ais, seus bens, seus todos tons tortos. O delírio e a fluência da madrugada em mim, vai cantando na corrente sangüínea. E a Química e a Física e a relatividade do tempo? Já ouviram Caetano cantando "A Rota do Indivíduo - Ferrugem"? Pois busquem! Milton, Chico e gente mais entoando "Levantados do Chão"? Boniiiito... Outra do Caetas, no tempo em que ele não havia emputecido: "Mãe"...

"Sou triste
quase um bicho triste
E brilhas mesmo assim
Eu canto, grito, corro o rio...
E nunca chego a ti"

Não estou, ouçam, não estou melancólica. Talvez molemente apaixonada. Sabe vontade de se deixar?


. . .
Camila me deu mais gastos do que gostos
Mais choros do que sambas
Tristezas e despesas
Por fim riscou meu disco da Portela

E ainda amo ela


. . .
Terça-feira, Abril 22, 2003
De Asas Alheias

Ela roubava as coisas por gosto mesmo. Não era isso a que chamam clepto... clepto... cleptomaníaco, não. Tinha consciência e era absolutamente evitável, mas não queria servir de modelo, ser uma boa-samaritana; não almejava ser aquela pessoa por quem todos suspiram molengamente uma mistura de piedade com fingida admiração: "Mas a Dona Margarida é tão boa..."
Então praticava com toda autenticidade e legitimidade, uma genuína forma de protesto: roubava. Começara roubando rosas, passara às canetas, porta-copos e moedas que nunca seriam utilizadas nem tinham essa pretensão: todas seriam postas na caixinha dos roubos. Depois passou a roubar cervejas e livros, exercitando sua libertação. Roubava a atenção dos outros, também, sem nunca ter precisado seguir aquele conselho de professoras da pré-escola, quando gritam com uma boa quantidade de saliva despendida na ação, molhando os cadernos e acertando uns olhinhos desavisados: "Quer aparecer? Ponha uma melancia no pescoço, ora", embora também essas ela já houvesse surrupiado.
Isso a que chamam moral, valores morais e toda essa coisa que ninguém sabe direito o que é nem pra que serve, ela tinha bem definidos: mais por instinto e sinceridade que por convenção, aliás, não cabia qualquer convenção em seu corpo, nem nos seus bolsos vazios (quase-vazios, sempre pequenas moedas louras e duras tilintavam uma canção roubada); fazia sempre O Bem aos outros, amava-os de um amor de bicho, não de um amor cristão. E quando odiava, era tão sinceramente que lindo e dava até vontade de fazer algo execrável pra que ela nos odiasse com tanta verdade assim. Acontece que ela não odiava o execrável. Se quisesse arriscar ser o objeto de seu ódio, tinha que estufar o peito, arrumar a voz, impostar qualquer tom de solenidade e fazer uma citação de alguém importante, uma citação dessas pretensamente inteligentes.E que então experimentasse o amargo e a verdade de sua repulsa.
Passou a roubar fotografias e isqueiros, pequenas chaves de diários (não que os quisesse abrir, tinha até medo de descobrir segredos insuportáveis, descobrir, por exemplo, que pecado era amargo e cheirava forte, que deus não usava paletó). Nunca fora pega, se é o que querem saber.
Com os meninos, era um feitiço. Enredava-os num mistério inebriante, rodava em seus sonhos azucrinadamente e ninguém entendia que era aquilo que ela suscitava. Acordavam com um gosto de vinho na boca ou com cheiro de amor-feito-às-pressas nos lençóis, acordavam como quem quer voltar ao sonho e continuar sonhando a história interrompida. Mas não voltava. Ao menos que não esperassem mais, não voltava. Ela só funcionava a contra-gosto. Quando corria, meu deus, ouvia-se aquele barulho de chaves colidindo com moedas, sabem?, e iam saltando aos seus bolsos que pensávamos quase-vazios rosas, sementes, apontadores, lembranças, tatu-bolas, mentiras, versos, guardanapos, resenhas de jornal, gilete, sombra de loucura, lapiseira, carinhos, tantos carinhos e beijos roubados... Das meias saltavam notas de dinheiro, outras musicais, abridores de lata e palhetas de violão.
Que menina era essa, meu deus? Que roubava e deixava os restos nas ruas, o que chegava até em casa era posto na caixinha. Quem entrasse no seu quarto, cairia pra trás: até semáforo, placa de trânsito e tampa de lixo tinha. Vaso de violeta doída. Diplomas enquadrados (era formada em medicina, publicidade e psiquiatria com apenas quinze anos). O que ninguém, ninguém nunca tinha visto era um segredo engruvinhado debaixo da cama, de um marrom estúrdio, abusadamente marrom: o paletó de deus.


. . .
Domingo, Abril 20, 2003
Feche isso, olha tá aberto. Não, não é o ziper. São suas feridas.

. . .
Sábado, Abril 19, 2003
Foda-se

Se já perdemos a noção da hora, se juntos já jogamos tudo fora, entupida de doçura, busco o atípico, quase me falam que perdi a ternura, e quem me endureceu? O tempo, eu mesma, Nietzsche? Pouco me importa que o cosmos conspire contra, e se a ciência provar o contrário... Já não sei mais o que, de tudo isso, é de autoria minha, estamos nesse tempo de fusão, em que nossas influências diluem-se no nosso corpo e espírito, memória esquecida na carne, estrela madura despedaçada em mim. São traumas picados ao avesso, são luas que só podem se vingar do mundo existindo belas e inteiras, apontando-nos mais mutantes que elas. Já não sei carpir, roçar a terra em que piso. Quero sentir minha língua roçar a língua de Luis de Camões. Se um dia você for escritor, deixa eu sentar do teu lado na noite e pedir um cigarro? Desculpa pelo embaraço, não acho que essa coisas possam mudar nossa essência. Sou louca, subi no cavalo de Policarpo Quaresma, só com o povo bem alimentado se constrói uma nação. Bretch pede pra que se dê comida às pessoas e depois lhes exija qualquer nobreza. Me entenda a fragmentação, apesar do cubismo ter se ido há uns bons pares de anos. Estou inventando amores, mal-consentindo outros. Sabe que te olhei naquela noite, em meio a uns goles de cerveja e tive vertigens? Aqui trem das cores, sábios projetos, tocar na central e o céu de um azul celeste celestial. Passa o bonde e alguém me chama. O rubor do mundo salta das coisas. Se Canudos foi dizimada, qual era o sonho de deus? Eu ouvi o grito dos homens no bar. Senti sua mão tocar meus desejos, meus seios, eles saíram da carne, me abraçaram, correram, gemidos enroscados nos lençóis, embaraçados nos cabelos. Mancho de sangue tua roupa branca, maculo de medo teu dia casto, misturo existencialismos e náuseas numa colher e injeto incertezas nesses dias criados. Você queria o quê? Que a transa acabasse na cama? Ela se estende ao longo de mim, poema itinerante, inacabado, projeto inconcluso, rascunho vociferando melodias. O meu amor por você é feito de todos os amores que já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei. Tem anjos pendurados na minha cama, ninfas escorrendo da minha madrugada, vejo libido e versos cadenciados, ritmados, costurados nesse temporal, vejo beijos que se beijam, ouço mãos que se conversam e viajam sem mapa. Talvez você saiba que eu falo de ti, talvez ache que é outro meu segredo e desvie teus olhos quando os meus quiserem cruzar esse túnel do tempo e sussurrar o que o simplismo das palavras impede que eu diga com a boca. Mal sei eu que é isso que ora toma corpo, ora se desfaz como açúcar na água. Ora se solidifica, ora volatiliza. Tem pimenta no teu cheiro, álcool e limão na tua boca, tua língua ébria e se eu ousar sentir esse torpor? Eu volto, atravesso, reencontro paz? Como ácido que corrói, como peste que se alastra, veneno que me embala numa valsa com o tempo alterado, vai mais rápido que meus pés, te destruo a solenidade da cena, a suntuosidade dos palácios, quero antes e tanto a sarjeta dos teus botequins. Que me sangre, me cutuque, me provoque a insensatez que você fez... Me abre os sentidos, os braços, o peito, as pernas. Dane-se. Quer saber se ainda sou doce? Pois não sei. Delicada? Talvez não. Se sincera? Isso sim. De bom tom? Não respondo. De feições castas, gestos de bailarina, atitudes policamente corretas? Não, tenho andado no passo do abismo, trazido homens bêbados ao meu quarto, machuco com as mãos, firo com sílabas amargas, escolho menos as palavras, pondero menos as ações, no dia seguinte não te ligo, me falta essa educação, mas te amo feito bicho, na ausência, com medo, trêmula, falsamente comedida tantas vezes. E te amando. Com uma fome de cem anos de solidão. Com jeito de carência de carne abrasadora. Me censuram a loucura, me dizem pra que eu tenha mais bom-senso. Quer saber? Foda-se.


. . .
Sexta-feira, Abril 18, 2003
Renasço, Renato
Como estrela
como fuga
e demônio
Como desejo
sem espera

Renasço
E choro a dor do parto
que dessa vez
sinto dupla:
sou minha mãe
e sou a filha
do meu ventre
A dor de qualquer nascimento
O grito
a gaia
de qualquer gestação
problemática
extática
(nunca estática)
Sou recém-renascida
Nessa Páscoa desvanecida
desmaiada
aplaudida
Quebrando a casca desse outro ovo
- a casa -
que tinha depois do meu primeiro ovo
- a mãe -

Vou embora
renascida
com mil receios
e nenhum tédio
Tenho mágoas?
Talvez três
Mas me dói o paraíso
O sonho de mil toneladas
não me pesa
me levita
esses passos flutuantes
nessa estrada de ascensão
Há os que fingiram-na reta
eu prefiro-a tortuosa
(ainda que torturante)
Não me importa
que eu não tenha
respaldo
certezas
verdades
abrigos
Meu sonho de mil toneladas
me levita

Me agride
Me agrada
me embala
me obstrui
Tomo tapas nesses rostos
firo os lábios
queimo os olhos

Embriago meu peito inquieto
adolesceu meu fevereiro
adoeceu meu ano inteiro

Não tem estrada
não temos nada
é madrugada
Dorme ao relento
me arrebento
já não me importa
ouves?
já não me importa
sussurro:
já não me importa..............


. . .



Sérgio Castro
. . .
Palavras e Imagens

Fernanda-Irmã
Cotovelares
Misson, O Cara
Jordani Sou Eu
Castilho
Cat, A Mina
Leo Caobelli, O Iluminado
Phasmo, o Fantasminha
Ed, o Coelho Branco
Fernanda, a Imersa
Cris, o Furioso
Yane, O Monstro
Daniela, O Mito
Vitor, o Freire
Arara, a Teresa
Filipe, o Displicente
Coletivo

Tom e Vinicius - por Biagio Di Carlo
Lugares Bacanudos

Silvio Mieli
Na Orelha
O Dilúvio
Memória Viva
Vozes do Brasil
Mercado de Pulgas

... Flávio encara Marco, seu colega que fora acusado de furto no trabalho...