Que imagem, querido, a morte do pai. Relampejou como agora este mandato. Vi a foice e a casa de muro baixo. O estranho de um lugar que já não é o seu. Existem esses que parecem bichos desgarrados - como imaginei fossem os vagabundos. Fico pensando que seres de mundo, habitantes leais da primeira margem, que pisam o chão e o chão ressoa, que maceram a terra: estes dificilmente me perceberão. Porque os modos como me posso dizer: Eu sou esta que tal e tal - dificilmente será audível. Estes que sentem terramotos com sua ancestralidade, como eu: mas em outra língua. Estes têm outra ciência, Yane. Sabem como salgar a carne para que não apodreça, são homens de farejo: chove. Sabem qual raiz mata. Brincam nome de bichos, paladares. Cacarejam. Parece que o que mais os chama é o mundo das imagens. Conversam sobre fenômenos. Fenômenos, Yane! Imagine: sabem quando vai estourar o vulcão. E vão contar como foi a espreita dos bichos. Vão contar sobre cores avultadas, sobre alucinações, mulheres que apareceram à meia estrada: nada em volta. Vão soar aos lobos: entenderão. Homens de bando, sabem o cheiro dos outros, mas não nasceram agarrados. Seus corpos trepidam. Eles trepam. Têm outro reino do meu. Diante desses, como posso dizer: Eu também sinto imensidões, isto também me alastra! Era o que ia lhe dizer. A foice e o pai. E penso estes. Que dentro de uma casa vão a do amiguinho e as lágrimas vão atrás da barra da mãe - como formiguinhas brancas. Perdi a mamãe - e muitos são já velhos nestes rituais, já caducaram, voltando ao lar das repetições. Também sei, querido, que palavras suscitam visões: palavras CRIAM irmandade, criam laço, desaparecem minha distância à sua: como o Amor... é meu sonho de criar paragens: que nos aquiesçam, bem: mas nos revolvam, nos chamem zonas insuspeitas, não havidas. Eu andava com a perseguição de uma imagem: fazer gozar através da língua. Digo tensionar limites. Não sei se através de imagens sexuais; será que não é uma convenção de associações que sejam estas imagens que nos estimulam? Por que parece natural que se enforcar seja um modo de se masturbar, Completamente? Por que não parece perverso, não parece excitante dizer isso, mas há uma forma de gozo? Será que a morte é parecida? Com que lentidão sonha um velho? Eu sonhava com uma imagem assim. Ele, um menino sem nenhum acontecimento. Nada de espantoso no cursar do tempo. Acontecia o de sempre: haver nascido e espalhar-se um pouco. Até que. Aquilo o fez sonhar com ter sido levado à praça. Era ele e o pai: abria o jornal e tomava caldo, tudo que se sabiam. Raro tinha lhe dado a dignidade de alguma palavra. Agora bramia uma excitação que o menino nunca tinha investigado. De repente o pai tinha rosto demais. Chicoteavam o cavalo na lei do espetáculo, falavam língua de garrafas quebradas. Mas ninguém via, não? Estavam todos ladeados no circo: não pensavam. O bicho quando está para a morte cheira um canto que respeite a decisão. Este esgarçava seu existir no meio da feira, os tomates apodreciam. O menino olhava o pai, besta em transe. Foi aquilo que o menino sonhou. Vinha da boca de um ciclope chegado ali de repente – o menino sem nenhum acontecimento teve este sonho de morte. E ansiava agora que aquele lhe fizesse sentir: mais. Grudou sua existência na esperança do homem de um-olho-só. Ele o levava a montanha e ficava gritando chamar o vento e o vento vinha mesmo, com o mar avançando os pés. Fazia chamar mulher e o menino tinha medo mulheres chegassem, Mãe soubesse. Tremia imaginando. Porque vinham mesmo, o povoado. Vinha uma nau de pretumes, gente escarrada, vinha a desesperança dos moribundos e uma língua de avesso. Vinha este sonho que não é meu: ele fazia falar. O coro relâmpago. A palavra atávico, a idéia de uma grávida. Vinha, vinha. Um ermitão e alegria de assédio, a ossatura de uma lenda, vinha a carniça e o que os bárbaros demovem. Arcada de sírios. Os imbecis, os suicidados. Era o homem e a lenda: o menino recebendo sonhos que não eram seus: aterravam em seus poros, erigiam pórticos. Agora o menino e o ciclope. Como continuar sem as montanhas? Aquilo começava a germinar em seu cabelo, nascendo gramas. Eram os dois presença esquisita à cidade. É pederasta, acusavam as matronas. Queriam as rédeas: destruir o esquisito de dois deâmbulos. A mãe postiça tratou de afastar, falando por víboras. O ciclope veio explicar que não eram tremores de cama o que sofriam. A mulher tentou furar seu olho, mas não era ali que a história vazava. Deu de beber ao poeta, o poeta deu de sonhar. Agora em língua reversa, engolhe-escândalos. Vomitou todo o branco. postado por Maroca 01:31 Fala que eu te escuto: . . .
Isso sempre foi uma questão minha. O ponto vacilante em que não me afirmo “de confiança”, Aquela que bate em retirada, que ama dentro de si – profundamente, mas dentro de si. O ponto em que parece algo de messiânico; em que minha solidão tem ao mesmo tempo um signo maldito, que deixa “uma luz lívida em seu entorno”, mas também é um movimento que não se faz barrar: Eu vou – finalmente afirmo, finalmente sei. Sabe de quê? Vai para onde? O ridículo de alguém que se enche de si, que se vai empertigar de Escolhido. Vou ali executar meu Gesto Original. Finalmente mostro convicção. Pareço uma figura independente, descolada, que segue uma natureza íntima, incomunicável. Ah, meu sentimento oceânico! Durante todo percurso ao lado de alguém, fui aquela que alertou para o inevitável deste momento, como precisasse me definir a partir disso. “Você é meu pássaro colorido”, ela me diz: mas um pássaro. Aquela que segue o imperativo, a ética sempre incerta do próprio desejo. Como se pode confiar? Um ímpeto de independência risível porque verdadeiro em um só aspecto – talvez em sua força, não em seu senso de realidade. Mas é este “desprendimento” que também me leva ao Salto e disso eu não abro mão. A Mariana sabe o que faz: As coisas de sua própria cabeça – Eu vou. “Você não aceita ajuda, você nunca me escuta”. Tenho de seguir a isso, a esta fome, ao imperativo desta ignorância: Eu não sei isso que me move! - Mas seu pai está morrendo... O meu Amor/apego parece verdadeiro dentro de mim. Sei me filiar através de pactos, não de pertencimento originário. Não sei em que ponto sou livre. Sou esta que vacila, gagueja, que não sabe se pode se posicionar, mesmo entre os seus. Há o infantil e o egoísmo de uma natureza que não se submete. Permaneço profundamente dependente, mas desgarrada. Vai lá ser Joana d’Arc, Mari. Depois manda o recibo da fantasia pra sua mãe pagar. O ponto: Porque também quando viro as costas, quando faço alarde para o perecível de meus vínculos, há algo em mim que sofre mas não mostra a dor. Parece aqui minha fobia, um isolamento que já foi solipcista, que já inventou modos de ser impronunciável – talvez já tenha sido. Pertenço a esta natureza oculta, a esta Outra Natureza. Retiro-me – mas muitas vezes (muitas vezes, não sempre) o que se desenrola é apenas o ritualístico da solidão, lugar supremo, consagrado d’A Grande Repetição: Parto porque preciso partir, preciso ser ali – não necessariamente ser alguma coisa [a indefinição do que me arrasta], importa que não sob a força aglutinadora de Eros. Sinto algo de mortífero em tais laços: Parto para uma outra morte. Você vê como aqui troco de lugar o tempo todo? Digo e sou dita. A claudicância do que não afirma nada, a arrogância de quem nada precisa afirmar. postado por Maroca 13:42 Fala que eu te escuto: . . .
. postado por Maroca 08:32 Fala que eu te escuto: . . .
Ela abria e fechava aquele grande livro. Insinuavámos. Eu lhe mostrava a estória de uma menina que esperava um trem, e naquele momento, eu esperava, ao cais do porto - que imagem mais surrada - não, eu esperava... aos pés de mim, na frente de um temporal que se ameaça, esperava sobrevoando, esperava numa escadaria, num café qualquer. Eu esperava aquela mulher. Ela também, imaginem, esperava a mulher que seria. A mulher que saltaria para fora de seus dezoito anos. Dos meus-seus-vossos-nossos arre... esperávamos Júlio, esperávamos. Seríamos felinos, como hoje esperamos algum apartamento. - Como tornei-me esta fábula de mim mesma, querida? eu hoje lhe pergunto, tirando sementes de maçã da mochila, desdobrando folhas, segredando-lhe depois de um sobressalto noturno: acho que me apaixonei pelo meu psicanalista. Fróid explica, que piada mais previsível, que imagem mais surrada, como uma ferrovia, como o arquétipo dos nossos artistas. Mas o problema, querida, a grande injúria, a grande irreverência é que você é nenhum personagem, que nos criamos a nós mesmas. Quem pariu Mateus que o embale. Agora arque com estas coisas que virão a ser a própria vida, sem jogo de palavras, ainda que por causa delas. [arranje outra piada que não essa: eu não tinha dezoito anos] postado por Maroca 15:49 Fala que eu te escuto: . . .
Estávamos no outro apartamento e ele tentava achar o horário de algo numa revista. Ele e minha mãe discutiam; meu pai se dizia fracassado. Meu irmão achava graça e ria. Eu ia à cozinha, eram seis horas, cinco e meia. Estávamos atrasados. Meu irmão sabia a qual filme nós quatro iríamos. Dizia que eu precisava comer algo. Eu chorava na cozinha, ouvindo meu pai falar. Chorava com algum descontrole e alívio. Meu irmão e minha mãe me olhavam. Minha mãe dizia que eu tinha que ter algum controle psicológico diante daquela situação. Eu perguntava por quê. Por quê? Eu não posso acobertar isso. [Não poderia jogar cal em cima do impacto que aquilo – ver meu pai se dizendo fracassado – me causava.] Anotação mental: teria sido esse choro que não pude dar tantas vezes? Havia uma fruta podre na geladeira de casa. Dela cresciam pêlos e – eu brincava com meu irmão – um grande nariz e olhos. Nascia alguma coisa da fruta podre na geladeira de casa. Meu pai parecia uma presença cotidiana. Naquela espécie de restaurante, casa de amigos, eu me dava conta de que fazia tempo que não o via. E pensava: onde ele estava internado esse tempo todo? Por que eu não fui visitá-lo? Sentia tanta saudade, e vontade de ficar olhando e que ele me olhasse. Que pudéssemos sorrir um para o outro. Ele conversava com meu irmão. Contou que só tomava cerveja. Que nunca iam vê-lo tomando uma latinha inteira daquela bebida alcoólica de tomate. Que um dia tomou e atolou o carro ali, perto do Brás. Deu a entender que ali teve muitos amores. Eu, que nunca soube se meu pai amou alguém antes ou além de minha mãe. “Ali arrasei muitos corações.” Meu pai era homem vivido. Eu estava defronte dele na mesa. Sorria, muito entregue àquilo que estava vivendo, e de repente, via que ele tinha os olhos em mim. Ele me Amava. Que deleite, que lembrança. Como isso me salva: meu pai me Amou. O moço que vendia algo no quiosque dava informações. Um casal se aproximava dele e perguntava se estava longe de tal lugar. Pelo modo como perguntavam, olhando sempre à frente, parecia que era um lugar próximo, talvez a cem, duzentos metros; como estivessem na rua certa – era uma rua aberta, de barro – e não achassem o número. O moço do quiosque dizia: Pra ali? Leva um dia, um dia e meio pra vocês chegarem. Ele zombava. Eu cheguei perto e semicerrei os olhos, apontando: Pra chegar ali – era uma barraca do lado, a alguns passos – vê ali? Onde tem aquele telhado cinza? – o céu se confundia – demoro quanto tempo? O moço me ria, zombeteiro e íntimo. Corte para a próxima cena. Meu pai e minha mãe estão sentados em uma cama próximos de mim e de meu irmão, que estamos em poltronas à frente. Minha avó – que não era minha avó, mas uma mistura esquisita de minha mãe e minha memória – está como que ao lado deles. “Olha só que louco, eles tentando se tocar”, parece que foi meu irmão quem disse ou a voz veio de cima, de dentro. Meu pai tinha gesso nas mãos até o fim do antebraço e minha mãe tinha as mãos enfaixadas com gaze. Ele tocava seu rosto. Era aflitivo e bonito, era triste ver aquele encontro. Eles se desejavam tanto – não eram meus pais, mas eram. Minha avó falava, “O André precisa dormir” e se levantava, tentando apartar, como se aquela cena fosse violenta pra ela. Mas eles não ouviam e tentavam se abraçar, tentavam deitar. Minha mãe tirava o sutiã. Minha avó separava-os. Minha mãe – que definitivamente não era minha mãe, mas uma mulher com uns vinte e poucos anos, os cabelos compridos e negros, os seios à mostra – caía no chão e eu pensava que ela era minha avó e era velha e poderia se machucar. Meu pai estava sentado, rindo, com a mão sobre o peito e eu percebia que ele estava com o tórax melado de alguma pomada. Ele tinha o peito liso. Parecia-se com outro homem que conheço. Ele dizia: Deixa que eu converso com ela – que era minha avó. “A gente pode ir pra outro lugar, a gente tem a cidade inteira, não é?”. Eu quase dizia: Vó, imagina há quanto tempo eles não se vêem? E pensava em oferecer meu quarto. postado por Maroca 01:33 Fala que eu te escuto: . . .
Das Imagens Reincidentes Marina era o tipo de mulher que não se assombrava com as coisas. Caso sua mobília começasse a pegar fogo, dependendo do dia e de sua disposição, ela poderia fechar os olhos e tornar a dormir ou levantar à procura de um balde com água. Calmamente. Quando o telefone tocava, ela se erguia, às vezes depois do quinto toque. Se algum homem que ela julgava atraente a notava, Marina devolvia um olhar debulhado, perscrutador, sem pressa. Ela imprimia às coisas algo que era cotidiano, mas também excepcional. Raramente se desestabilizava; e não é que fosse apática, que as coisas não a afetassem. (Marina certa vez viu uma senhora ser atropelada na Grande Avenida e trancou-se em um quarto durante cinco dias.) Ela ainda era aquilo que poderíamos chamar uma-mulher-de-verdade. Vivia à cata de besouros azuis, tinha saias envelhecidas, às vezes usava sombra nos olhos. Os cabelos davam-lhe um aspecto esquisitíssimo. Marina tinha muitas memórias e uma infância presa à algibeira. Às vezes acordava e vestia uma camiseta cinza; ia ao parque do engenho, perdia horas olhando o velho lago que já apodrecia. Voltava junto com os pássaros. Cantava. Um dia acordou, a casa inteiramente vazia. Ficou procurando o filho. Gritou Pedro por todos os cômodos e pela janela. Pedro debaixo dos lençóis, junto às arvorezinhas, debaixo da cruz, Pedro no santuário, não o encontrou nas galerias, dentro dos espelhos. Pensou em ir à rodoviária, tarde da noite, bebeu dois copos de rum e dormiu dentro de si, soluçando um pouco. Quando amanheceu, não lembrava de quanto dormira nem de que havia buscado. Marina nunca teria filhos. postado por Maroca 12:56 Fala que eu te escuto: . . .
- eu nunca tive tempo de cantar. diz minha avó que parece ter passado a vida muito ocupada com a idéia da morte, sem ter de fato enfrentado o esfacelamento da vida. parece mesmo que ela nunca teve tempo de viver, sempre preocupada com as doenças imaginárias. é horrível pra mim fazer esse juízo de valor, mas é sincero, ainda que perverso. porque de fato me afeta, me bota medo. ando menos tolerante com as conversas de sala-de-estar, com as fotos de família. parece que todo mundo vive a passar panos, forjando imagens, dourando pílula o tempo inteiro. e isso que por ora chamo "minha sinceridade" parece cada vez mais escabroso e a verdade é que eu não tenho a intenção de chocar ninguém. eu queria mesmo era dançar, esquecida das idéias, do peso. meu Amor pelas pessoas permanece tão vivo, mas sempre tão dentro de mim. eu não quero me arrogar. postado por Maroca 14:09 Fala que eu te escuto: . . .
A primeira vez que vi Rubens notei que seus cabelos estavam mais brancos. Eu tinha certeza que ele havia envelhecido muito nos cinco últimos anos. É uma coisa que se nota. Seu aspecto não era de todo lamentável, apesar do pulôver com triângulos azuis e das sandálias com meias escuras. Havia cavidades debaixo de seus olhos e uma melancolia impregnada. Eu sabia que Rubens havia envelhecido muito. Preferi não comentar, afinal, não nos conhecíamos. Caso houvéssemos conseguido alguma intimidade, minhas manias pequeno-burguesas talvez fossem mais determinantes e eu preferisse a polidez. Quem sabe mesmo a hipocrisia. Sim, talvez eu lhe dissesse que estava bonito e corado. Podemos ser assim, tão terríveis? Porque ele sabia que havia perdido peso e um pouco da vida. Os vinte anos que um dia lhe pertenciam, hoje envelheciam à beira das docas, dançando em Viena com as mulatas de Di. “Quantas mulheres amamos, quantas marias perdi. A quantas disseste yees, a quantas eu disse oui.” Rubens sabia, eu estava certo. Como quando mentimos aos convalescentes, dizendo que as coisas vão bem, basta um pouco de repouso e sopa de legumes, “você precisa controlar os excessos, evitar o cigarro, as noites mal-dormidas” – eles sabem que já não há mais nada a fazer e nós insistimos, Deus, sem convicção. Assim também talvez eu dissesse a Rubens que ele parecia melhor e que a maturidade, enfim, se nos pesa nos ombros e se nosso desempenho já não tem sido o mesmo, existem compensações. Já exaustos das ilusões, sabemos escolher melhor. Francamente, Rubens, como perdeste o viço. Eu nada disso diria; mas talvez um ricto de espanto se desprendesse de meus lábios ou olhos. Lembro-me de quando eu o vi apoiando-se na filha mais moça, escorava-se, mal conseguindo manter-se de pé. E tudo fora tão rápido. postado por Maroca 17:24 Fala que eu te escuto: . . .
a dor da gente não sai no jornal Como eu deixava que tempo rodasse e continuava impune. Como num sábado ensolarado, acordar tarde, sentar no colchão e procurar pêlos com a pinça. Cutucando cravos, horas olhando o teto, vendo o bispo falar na tevê, ouvindo com desatenção minha avó contando da fila de espera, da consulta, da gravidade de seu estado de saúde. Como as coisas pareciam não ter peso e eu fumava já sem perceber que acendia outro cigarro. Já não lavava as mãos nem ligava pro corrimento escuro, as roupas jogadas, a toalha cheia de sangue. Descia as escadas pra comer pão, abrir a porta, andar duas quadras. O moleque me pede dinheiro e não sinto nada. Paira o demônio do meio-dia. Minhas dores se esgueiram, roubo um halls no mercado, planejando parricídio. A cabeça do boi pendurada no açougue, penso em liberdade. Um menino se masturba debaixo do monumento, uma senhora anota o número da confeitaria, alguém desiste de se matar. postado por Maroca 13:36 Fala que eu te escuto: . . .
Meu Canto Desesperado Meu bem guardado segredo Não é verdade, mãe, que não sei lidar com coisas práticas. Meu café é bom, é forte. E você que já conheceu a europa deve saber que mesmo depois de um da vinci, café fraco estraga o dia de qualquer um. Eu que fui mais pra outros lados, percebo que nestas terras cordiais se oferecem compotas de fruta, cedem a cama pra dormir no chão, mas não acertam o ponto. Quando eu virar gente grande e tiver despesas, vejo bem o que faço, dou um jeito, mas não quero mudar de marca. São essas coisas que garantem minha personalidade. As noites têm terminado assim, perco apostas e um pouco de mim - a lucidez, entende? -, mas sempre um isqueiro a mais no bolso. Eles mudam de cor, é incrível, se multiplicam como os cronópios nos meus sonhos. Mas o maço vazio torna inútil tanto fogo. Carrego esses totens que nos lembram modernos. A calça jeans desbotada e uma ideologia de bolso. Quem dá mais? Quem dá mais? De weber a mcluhan. Eu pago bem. O manifesto comunista em pockett book, estrelas, mais uma dose de pinga. Você vê que tenho lapsos de memória e talvez essa seja só mais uma tentativa de me proteger. Esse modo de nos destruirmos, esse desespero, não seria talvez querer preservar alguma coisa? Pra conseguir dizer algo - eu aprendi - temos de nos esquecer que não estamos inaugurando nada - nem linguagem nem humanidade. O sexo não foi inventado pelos modernos, só a cafeteira e a Campbell Soup, e eu já disse que o meu café é o que me salva? Sei bem lidar com coisas práticas, mas ainda não aprendi a lidar com os homens. E o pior é que minha mãe não vai entender que homens são esses que levo pra dentro de mim e de casa. Encontrei uma menina linda, inteligentíssima que cheirava muito por medo de virar acadêmica e não conseguir mais conversar sobre futebol no bar. Mas ela nunca soube conversar de futebol no bar, estava sempre cheirada. Ouço vozes ainda desse país que queríamos ser, para onde caminhamos, se tão tropegamente? Onde mesmo queríamos chegar? Onde foi que nos perdemos? Decadência e ruína - é assim que nasce o ocidente, de duas mortes trajado. Quarta-feira vi uma mulher em trapos vendendo cachecol. Ela escrevia sem voltar os olhos à avenida sequer uma vez. Que percebe esta negra da cidade que se engalfinha? Pensei que poderia estar escrevendo versos, o mais certo é que pedisse dinheiro a um irmão que-deu-certo-na-vida, mas eu sei que ela copiava salmos. Ontem me bateu uma agonia quando vi o moleque de moletom colorido e gel puxando pra dentro de uma agência de empregos um vendedor de drops, lambendo merda no seu ouvido. E os dois só se encontraram porque precisavam ouvir o mesmo cântico de morte. Sem vãs esperanças, sem mais vãs utopias. Está ficando tarde. postado por Maroca 16:11 Fala que eu te escuto: . . .